Advirto primeiramente
àqueles que não leram a primeira parte que o façam, para que se
evite uma série de mal-entendidos. Clique
aqui para ler a primeira parte. Pretendo apresentar algumas
respostas a argumentos contrários ao uso da bebida alcoólica.
Agradeço a todos quantos puderem apresentar falhas ou em minhas
respostas.
(1)
A expressão “Vinho”
É já recorrente o
argumento de que “Jesus bebia vinho” (ou sua variante “Jesus
multiplicou vinho”) nas discussões sobre a validade ou não do uso
da liberdade cristã no uso da bebida. Esse argumento (que, de fato,
considero o mais importante de todos) incita um debate sobre o
significado da palavra “vinho” na Bíblia. Segundo argumenta-se,
a palavra “vinho” nem sempre implica em uma bebida alcoólica.
De fato a palavra grega
“vinho” (οἶνος) usada diversas vezes no Novo
Testamento pode aplicar-se tanto a bebida fermentada
(alcoólica) quanto a não fermentada. Ou seja: designa uma classe de
bebidas, podendo ser especificamente uma ou outra. Mas o uso dessa
verdade nos argumentos contra-álcool é absurdo: sempre que οἶνος
tem posição louvável, atribuem-lhe o significado de “suco de
uva”, enquanto sempre que é reprovado, é o “vinho alcoólico”.
Tal uso descuidado e arbitrário (bem como desesperado) prima
por evitar de todas as formas a mera possibilidade de que o
vinho alcoólico seja consumido sem pecado.
O argumento
contra-alcoólico falha tanto em sua estrutura lógica quanto em sua
correspondência para com as Escrituras.
Em primeiro lugar, é
preciso distinguir “polissemia” e “extensão”. A constatação
de que a palavra para vinho possa se aplicar a duas espécies de
bebida (uma fermentada e outra não) não implica que seja uma
palavra polissêmica,
ou seja, com significados apartados (ainda que conexos). Trata-se,
antes, de uma clara relação de gênero-espécie. Essa distinção
vemos quando observamos, por exemplo, a palavra “Homem”. Pode
significar ao menos duas coisas (polissemia): o ser humano em geral
ou o sexo masculino em particular. Mas, qualquer que seja o
significado usado nesse caso, a atribuição da palavra “homem” a
João ou Pedro não implica em que “Pedro” e “João” sejam
significados distintos da palavra “homem”. Ambos são (em tese)
igualmente “homem”; o mesmo significado se estende a eles.
Mesmo que falte a Pedro aquilo que João tem como homem (e.g. se
Pedro porta alguma deficiência física), ainda assim Pedro é homem.
Mas quando dizemos que Pedro é homem, espera-se
que ele detenha todas as características físicas comuns aos outros
homens (espera-se que tenha dois braços, duas pernas, etc). Não
deter todas é excepcional,
uma exceção ao que está convencionado. Quando queremos tratar do
uso excepcional da palavra, fazemo-lo pelo uso de qualificantes
adicionais. É assim que distinguimos “cachorro” (em geral) de um
“cachorro sem uma das patas”. Quando falamos de um cachorro em
geral, espera o ouvinte que ele tenha as quatro patas, guardada a
excepcionalidade.
Com o vinho ocorre
semelhantemente. Não se trata de saber se a palavra vinho apresenta
hora um significado hora outro. Ela apresenta um só significado (nas
situações a que se refere a presente questão, excluindo-se usos
simbólicos, metafóricos, etc), que é a do fruto da vide. Mas qual
é o o seu uso dominante? Seu uso geral (ou seja, o uso
não-excepcional acima referido) não pode se referir à bebida
não-fermentada. Assim sendo, embora o uso das palavras possa se
aplicar a entes diferentes entre si, em geral eles tem um uso
pragmático dominante. Quando se trata de um “vinho” sem qualquer
qualificante (isto é, quando dizemos apenas “vinho”), espera-se
que seja um vinho fermentado. Quando se trata de um vinho
não-fermentado, sua identificação se dará contextualmente
(implícita ou explicitamente). Assim sendo, as duas aplicações da
palavra não estão no mesmo patamar.
Em segundo lugar, já se
mostrou no
texto anterior diversos versículos que claramente e
indubitavelmente se referem à bebida alcoólica (como no caso do
dízimo ou no caso do capítulo 31 de Provérbios) como sendo
aprovada (e até aconselhada). Nessa situação, é impossível uma
proibição irrestrita à bebida alcoólica. Todas as restrições
bíblicas dizem respeito a práticas ou pessoas específicas. Não
pode ser sustentada a distinção entre o vinho fermentado como
proibido e o não-fermentado como aprovado. De fato, a natureza de
como essas proibições ocorrem evidencia isso perfeitamente: por
exemplo, dizem as cartas pastorais que os diáconos e as mulheres
idosas não devem ser “dados ao muito vinho”, como claramente se
vê:
“Não dados ao muito
vinho”
μὴ οἴνῳ
πολλῷ προσέχοντας
(1 Timóteo 3:8)
“Não dadas (como servas)
a muito vinho”
μὴ οἴνῳ
πολλῷ δεδουλωμένας
(Tito 2:3)
É evidente que podemos (e
devemos) aplicar o mesmo princípio a todos os cristãos: nenhum
servo de Jesus Cristo deve ser dado ao muito vinho, porque o
que faz isso peca (cf. Provérbios 23:20; 1 Coríntios
5:11-13; 6:10). Mas há gritante diferença entre não ser dado
ao muito vinho e não ser
dado a vinho nenhum. A própria proibição do “muito
vinho” perde sentido se lhe subjaz uma proibição a qualquer
quantidade de bebida fermentada. Mas se o “muito vinho” nesses
dois textos refere-se apenas ao vinho não-fermentado, a proibição
perde todo o sentido.
O que está por trás desse
argumento é uma falácia em forma de petição de princípio:
queremos provar que é pecado consumir vinho alcoólico, então
afirmamos que “vinho” significa “vinho alcoólico” quando é
proibido e significa “suco de uva” quando não. Ou seja:
pressupomos aquilo que temos obrigação de provar. Na realidade, o
vinho alcoólico (assim como outras “bebidas fortes”) nunca são
proibidos na Bíblia em si mesmos. A Bíblia proíbe “mentir” e
proíbe “adulterar” em termos absolutos, mas nunca “consumir
vinho”. Todas essas as condenações referem-se especificamente à
conduta posterior ao consumo de álcool (isto é, tudo aquilo
que é consequência da perda de prudência). Nunca é proibido o
consumo do álcool que não traga essa conduta posterior.
Semelhantemente, podemos dizer que em nenhum lugar a Bíblia proíbe
o uso do dinheiro, mas condena veementemente o seu uso desordenado,
imoral, avarento, etc.
(2) Vinho é antinatural
Perceba-se que o vinho é,
em parte, um produto do trabalho humano, mas só ocorre porque há
leis químicas que permitem sua fermentação. Assim sendo, o vinho é
tão "antinatural" quanto roupas sintéticas ou quanto a
maioria das bebidas que consumimos contemporaneamente (que passam por
algum processo de industrialização). Mas podemos ir além: não
apenas o vinho não é antinatural, mas é um produto da ação
divina (ao menos indireta). Isso nos diz claramente o seguinte texto
poético:
14
Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o
serviço do homem, para fazer sair da terra o pão,
15
E o vinho que alegra o coração do homem, e o
azeite que faz reluzir o seu
rosto, e o pão que fortalece o coração do homem.
(Salmos
104:14,15)
É evidente que o simples
fato de a natureza causar a fermentação da bebida não implica que
seja o seu consumo seja necessariamente endossado (ou seja, “natural”
não significa necessariamente “correto”). Mas, nesse caso
específico, a ação divina por meio da ordem natural estabelecida é
intencional, como o texto do salmo explicita.
(3)
A falácia da “aparência do mal”.
Nos comanda a Escritura à
abstenção de toda a aparência do mal (1 Tessalonicenses 5:22).
Argumentam contra o álcool que o seu consumo seria aparência do
mal.
É preciso se perguntar o
que é a aparência do mal. A “aparência do mal” não pode ser o
simples fato de alguém poder pensar que se está fazendo o
mal (ou seja, subjetivamente). Nesse caso, seria impossível fugir da
aparência do mal. O critério da “aparência do mal” não deve
ser a opinião ou o senso comum, que muitas vezes são culturalmente
condicionados. O critério para distinguir deve ser a Palavra de
Deus, que não se restringe a nenhuma cultura.
A palavra traduzida por "aparência" no versículo citado é εἶδος, significando “imagem”, “forma” e “tipo” enquanto
objetivamente dados, e não uma ilusão ou confusão mental. O texto condena, por isso, não simplesmente a aparência externa do mal; sua tradução mais literal seria "toda forma de mal" ou "todo tipo de mal". Esse uso da mesma expressão (παντὸς
εἴδους) pode-se ver, por exemplo, neste
papiro. Por isso a Bíblia de Jerusalém traduz como "toute espèce de mal" (toda espécie de mal), enquanto a American Standard Version como "every form of evil" (toda forma de mal). Nesse sentido a NVI brasileira e a tradução da Socierdade Bíblica Britânica trazem a tradução mais exata.
De
fato, o argumento da “aparência do mal” não pode subsistir
diante do fato de que Jesus foi reprovado porque “comeu e bebeu”
com “publicanos e pecadores” (Mateus
11:19). Na opinião dos
seus adversários, Jesus apresentava a aparência do mal. Mas seus
atos tinham a aparência
do mal diante do que a Palavra de Deus classifica como “mau”?
Claro que não.
(4) Meu irmão se
escandaliza
Esse é, na minha opinião,
o único argumento contra o consumo de bebidas alcoólica que
merece respeito, porque é claramente exposto na Bíblia. Mas é um
argumento condicional, e precisa ser observado com bastante cuidado.
O
significado da palavra “escandalizar” não tem, na Bíblia,
exatamente o mesmo significado que tem em nosso uso corrente. Na
Bíblia, escândalo (σκάνδαλον)
significa propriamente uma pedra ou armadilha armadilha que é
colocada para que alguém por ela tropece. Por isso mesmo “tropeço”
e “escândalo” aparecem algumas vezes em paralelismo (cf. Isaías
8:14; Romanos 9:33; 14:13; 1 Pedro 2:8).
Escandalizar seria colocar essa pedra ou armadilha no caminho de
alguém. Nas Escrituras, é usado figurativamente no sentindo de agir
de forma a que outros venham a tropeçar. Assim, escandalizar não
significa necessariamente “ofender” aos outros ou provocar
“censura” contra si; em certos textos bíblicos tem esse sentido
(2
Coríntios 6:3),
mas em outros claramente não (Mateus
5:29,30; 18:6-9; Marcos 14:27).
O argumento contra-álcool
faz uso das exortações do apóstolo Paulo a que os crentes se
abstivessem de certas práticas que, embora não fossem pecado,
faziam com que outros tropeçassem em sua caminhada. Nesse caso, ele
trata especificamente de comer carne (Romanos 14; 1 Coríntios 8;
10), que não é atualmente um problema, mas o foi na época dos
apóstolos. O ponto alto é quando diz textualmente:
“Bom
é não comer carne, nem beber
vinho, nem fazer outras coisas
em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça.”
(Romanos 14:21)
“Por
isso, se a comida escandalizar a
meu irmão, nunca mais comerei carne,
para que meu irmão não se escandalize.” (1 Coríntios
8:13)
Apenas duas observações
devem ser feitas: a primeira é de que tais textos não tornam “comer
carne” pecado. Há um critério para o que é pecado: a Palavra de
Deus. O que o apóstolo nos diz, diferentemente, é que, por amor
aos nossos irmãos, devemos nos abster de fazer aquilo que
escandaliza, ou seja, nossos atos não devem ser armadilhas para os
nossos irmãos, mesmo que não sejam pecados em si mesmos. Assim
sendo, tal argumento não serve para provar que bebida alcoólica é
pecado; serve, pelo contrário, para provar que não é. Por
que o apóstolo incluiria “beber vinho” em uma discussão onde se
discute “comer carne” se isto não é pecado? É óbvio que beber
vinho não pode ser pecado também, se a analogia deve ser mantida.
Assim, se beber álcool faz
com que meu irmão em Cristo tropece, eu não devo beber álcool,
abdicando de minha liberdade. Não posso usar a “ignorância” do
meu irmão como argumento. É nesse contexto que o apóstolo Paulo
nos diz que “a ciência incha, mas o amor
edifica” (1 Coríntios 8:1). Mesmo sabendo nós que
os ídolos não existem (1 Coríntios 8:4) e que temos
liberdade para comer (1 Coríntios 8:8; 10:25), nem todos tem
essa ciência (1 Coríntios 8:7) e portanto não podemos
abusar da liberdade sob o argumento da ignorância alheia, porque é
exatamente por meu irmão ser ignorante que eu me abstenho (1
Coríntios 8:10).
A segunda observação é
de que tal “ignorância” não pode ser sustentada no seio da
igreja de modo a sustentar a condenação à bebida alcoólica, ou
seja, não podemos ensinar os convertidos a censurar a bebida em
geral (assim como devemos
ensinar a reprová-la nos momentos em que a Escritura reprova). Uma
coisa é a ignorância do que está aprendendo a fé; outra coisa é
a ignorância reproduzida pelo ensino na Igreja. Essa
ignorância deve ser superada da mesma forma que foi superada a
ignorância acerca do alimento sacrificado aos ídolos (que, tendo
sido um problema nos tempos apostólicos, não é hoje para a maioria
de nós). Essa reprodução de ignorância tem sido comum nas igrejas
menos intelectualizadas no Brasil. A Igreja de Cristo não pode
sustentar um juízo conforme as aparências (João 7:24).
***
Além dos argumentos aqui
expostos, há outros que não foram tratados por serem obviamente
falaciosos, como aqueles que dizem que “Jesus não poderia beber
porque é santo” (e variantes), que é uma petitio principii.
Agradeço aos leitores que apresentarem mais argumentos contra a
bebida alcoólica, a serem refutados em futura postagem.
G.
Montenegro
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