18/01/12

Sobre bebidas alcoólicas - Parte II

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Advirto primeiramente àqueles que não leram a primeira parte que o façam, para que se evite uma série de mal-entendidos. Clique aqui para ler a primeira parte. Pretendo apresentar algumas respostas a argumentos contrários ao uso da bebida alcoólica. Agradeço a todos quantos puderem apresentar falhas ou em minhas respostas.


(1) A expressão “Vinho”

É já recorrente o argumento de que “Jesus bebia vinho” (ou sua variante “Jesus multiplicou vinho”) nas discussões sobre a validade ou não do uso da liberdade cristã no uso da bebida. Esse argumento (que, de fato, considero o mais importante de todos) incita um debate sobre o significado da palavra “vinho” na Bíblia. Segundo argumenta-se, a palavra “vinho” nem sempre implica em uma bebida alcoólica.

De fato a palavra grega “vinho” (οἶνος) usada diversas vezes no Novo Testamento pode aplicar-se tanto a bebida fermentada (alcoólica) quanto a não fermentada. Ou seja: designa uma classe de bebidas, podendo ser especificamente uma ou outra. Mas o uso dessa verdade nos argumentos contra-álcool é absurdo: sempre que οἶνος tem posição louvável, atribuem-lhe o significado de “suco de uva”, enquanto sempre que é reprovado, é o “vinho alcoólico”. Tal uso descuidado e arbitrário (bem como desesperado) prima por evitar de todas as formas a mera possibilidade de que o vinho alcoólico seja consumido sem pecado.

O argumento contra-alcoólico falha tanto em sua estrutura lógica quanto em sua correspondência para com as Escrituras.

Em primeiro lugar, é preciso distinguir “polissemia” e “extensão”. A constatação de que a palavra para vinho possa se aplicar a duas espécies de bebida (uma fermentada e outra não) não implica que seja uma palavra polissêmica, ou seja, com significados apartados (ainda que conexos). Trata-se, antes, de uma clara relação de gênero-espécie. Essa distinção vemos quando observamos, por exemplo, a palavra “Homem”. Pode significar ao menos duas coisas (polissemia): o ser humano em geral ou o sexo masculino em particular. Mas, qualquer que seja o significado usado nesse caso, a atribuição da palavra “homem” a João ou Pedro não implica em que “Pedro” e “João” sejam significados distintos da palavra “homem”. Ambos são (em tese) igualmente “homem”; o mesmo significado se estende a eles. Mesmo que falte a Pedro aquilo que João tem como homem (e.g. se Pedro porta alguma deficiência física), ainda assim Pedro é homem. Mas quando dizemos que Pedro é homem, espera-se que ele detenha todas as características físicas comuns aos outros homens (espera-se que tenha dois braços, duas pernas, etc). Não deter todas é excepcional, uma exceção ao que está convencionado. Quando queremos tratar do uso excepcional da palavra, fazemo-lo pelo uso de qualificantes adicionais. É assim que distinguimos “cachorro” (em geral) de um “cachorro sem uma das patas”. Quando falamos de um cachorro em geral, espera o ouvinte que ele tenha as quatro patas, guardada a excepcionalidade.

Com o vinho ocorre semelhantemente. Não se trata de saber se a palavra vinho apresenta hora um significado hora outro. Ela apresenta um só significado (nas situações a que se refere a presente questão, excluindo-se usos simbólicos, metafóricos, etc), que é a do fruto da vide. Mas qual é o o seu uso dominante? Seu uso geral (ou seja, o uso não-excepcional acima referido) não pode se referir à bebida não-fermentada. Assim sendo, embora o uso das palavras possa se aplicar a entes diferentes entre si, em geral eles tem um uso pragmático dominante. Quando se trata de um “vinho” sem qualquer qualificante (isto é, quando dizemos apenas “vinho”), espera-se que seja um vinho fermentado. Quando se trata de um vinho não-fermentado, sua identificação se dará contextualmente (implícita ou explicitamente). Assim sendo, as duas aplicações da palavra não estão no mesmo patamar.

Em segundo lugar, já se mostrou no texto anterior diversos versículos que claramente e indubitavelmente se referem à bebida alcoólica (como no caso do dízimo ou no caso do capítulo 31 de Provérbios) como sendo aprovada (e até aconselhada). Nessa situação, é impossível uma proibição irrestrita à bebida alcoólica. Todas as restrições bíblicas dizem respeito a práticas ou pessoas específicas. Não pode ser sustentada a distinção entre o vinho fermentado como proibido e o não-fermentado como aprovado. De fato, a natureza de como essas proibições ocorrem evidencia isso perfeitamente: por exemplo, dizem as cartas pastorais que os diáconos e as mulheres idosas não devem ser “dados ao muito vinho”, como claramente se vê:

Não dados ao muito vinho
μὴ οἴνῳ πολλῷ προσέχοντας
(1 Timóteo 3:8)

Não dadas (como servas) a muito vinho
μὴ οἴνῳ πολλῷ δεδουλωμένας
(Tito 2:3)

É evidente que podemos (e devemos) aplicar o mesmo princípio a todos os cristãos: nenhum servo de Jesus Cristo deve ser dado ao muito vinho, porque o que faz isso peca (cf. Provérbios 23:20; 1 Coríntios 5:11-13; 6:10). Mas há gritante diferença entre não ser dado ao muito vinho e não ser dado a vinho nenhum. A própria proibição do “muito vinho” perde sentido se lhe subjaz uma proibição a qualquer quantidade de bebida fermentada. Mas se o “muito vinho” nesses dois textos refere-se apenas ao vinho não-fermentado, a proibição perde todo o sentido.

O que está por trás desse argumento é uma falácia em forma de petição de princípio: queremos provar que é pecado consumir vinho alcoólico, então afirmamos que “vinho” significa “vinho alcoólico” quando é proibido e significa “suco de uva” quando não. Ou seja: pressupomos aquilo que temos obrigação de provar. Na realidade, o vinho alcoólico (assim como outras “bebidas fortes”) nunca são proibidos na Bíblia em si mesmos. A Bíblia proíbe “mentir” e proíbe “adulterar” em termos absolutos, mas nunca “consumir vinho”. Todas essas as condenações referem-se especificamente à conduta posterior ao consumo de álcool (isto é, tudo aquilo que é consequência da perda de prudência). Nunca é proibido o consumo do álcool que não traga essa conduta posterior. Semelhantemente, podemos dizer que em nenhum lugar a Bíblia proíbe o uso do dinheiro, mas condena veementemente o seu uso desordenado, imoral, avarento, etc.


(2) Vinho é antinatural

Perceba-se que o vinho é, em parte, um produto do trabalho humano, mas só ocorre porque há leis químicas que permitem sua fermentação. Assim sendo, o vinho é tão "antinatural" quanto roupas sintéticas ou quanto a maioria das bebidas que consumimos contemporaneamente (que passam por algum processo de industrialização). Mas podemos ir além: não apenas o vinho não é antinatural, mas é um produto da ação divina (ao menos indireta). Isso nos diz claramente o seguinte texto poético:
14 Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão,
15 E o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem.
(Salmos 104:14,15)

É evidente que o simples fato de a natureza causar a fermentação da bebida não implica que seja o seu consumo seja necessariamente endossado (ou seja, “natural” não significa necessariamente “correto”). Mas, nesse caso específico, a ação divina por meio da ordem natural estabelecida é intencional, como o texto do salmo explicita.


(3) A falácia da “aparência do mal”.

Nos comanda a Escritura à abstenção de toda a aparência do mal (1 Tessalonicenses 5:22). Argumentam contra o álcool que o seu consumo seria aparência do mal.

É preciso se perguntar o que é a aparência do mal. A “aparência do mal” não pode ser o simples fato de alguém poder pensar que se está fazendo o mal (ou seja, subjetivamente). Nesse caso, seria impossível fugir da aparência do mal. O critério da “aparência do mal” não deve ser a opinião ou o senso comum, que muitas vezes são culturalmente condicionados. O critério para distinguir deve ser a Palavra de Deus, que não se restringe a nenhuma cultura.

A palavra traduzida por "aparência" no versículo citado é εἶδος, significando “imagem”, “forma” e “tipo” enquanto objetivamente dados, e não uma ilusão ou confusão mental. O texto condena, por isso, não simplesmente a aparência externa do mal; sua tradução mais literal seria "toda forma de mal" ou "todo tipo de mal". Esse uso da mesma expressão (
-->παντὸς εἴδους) pode-se ver, por exemplo, neste papiro. Por isso a Bíblia de Jerusalém traduz como "toute espèce de mal" (toda espécie de mal), enquanto a American Standard Version como "every form of evil" (toda forma de mal). Nesse sentido a NVI brasileira e a tradução da Socierdade Bíblica Britânica trazem a tradução mais exata.
 
De fato, o argumento da “aparência do mal” não pode subsistir diante do fato de que Jesus foi reprovado porque “comeu e bebeu” com “publicanos e pecadores” (Mateus 11:19). Na opinião dos seus adversários, Jesus apresentava a aparência do mal. Mas seus atos tinham a aparência do mal diante do que a Palavra de Deus classifica como “mau”? Claro que não.


(4) Meu irmão se escandaliza

Esse é, na minha opinião, o único argumento contra o consumo de bebidas alcoólica que merece respeito, porque é claramente exposto na Bíblia. Mas é um argumento condicional, e precisa ser observado com bastante cuidado.

O significado da palavra “escandalizar” não tem, na Bíblia, exatamente o mesmo significado que tem em nosso uso corrente. Na Bíblia, escândalo (σκάνδαλον) significa propriamente uma pedra ou armadilha armadilha que é colocada para que alguém por ela tropece. Por isso mesmo “tropeço” e “escândalo” aparecem algumas vezes em paralelismo (cf. Isaías 8:14; Romanos 9:33; 14:13; 1 Pedro 2:8). Escandalizar seria colocar essa pedra ou armadilha no caminho de alguém. Nas Escrituras, é usado figurativamente no sentindo de agir de forma a que outros venham a tropeçar. Assim, escandalizar não significa necessariamente “ofender” aos outros ou provocar “censura” contra si; em certos textos bíblicos tem esse sentido (2 Coríntios 6:3), mas em outros claramente não (Mateus 5:29,30; 18:6-9; Marcos 14:27).

O argumento contra-álcool faz uso das exortações do apóstolo Paulo a que os crentes se abstivessem de certas práticas que, embora não fossem pecado, faziam com que outros tropeçassem em sua caminhada. Nesse caso, ele trata especificamente de comer carne (Romanos 14; 1 Coríntios 8; 10), que não é atualmente um problema, mas o foi na época dos apóstolos. O ponto alto é quando diz textualmente:

Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça.” (Romanos 14:21)

Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize.” (1 Coríntios 8:13)

Apenas duas observações devem ser feitas: a primeira é de que tais textos não tornam “comer carne” pecado. Há um critério para o que é pecado: a Palavra de Deus. O que o apóstolo nos diz, diferentemente, é que, por amor aos nossos irmãos, devemos nos abster de fazer aquilo que escandaliza, ou seja, nossos atos não devem ser armadilhas para os nossos irmãos, mesmo que não sejam pecados em si mesmos. Assim sendo, tal argumento não serve para provar que bebida alcoólica é pecado; serve, pelo contrário, para provar que não é. Por que o apóstolo incluiria “beber vinho” em uma discussão onde se discute “comer carne” se isto não é pecado? É óbvio que beber vinho não pode ser pecado também, se a analogia deve ser mantida.

Assim, se beber álcool faz com que meu irmão em Cristo tropece, eu não devo beber álcool, abdicando de minha liberdade. Não posso usar a “ignorância” do meu irmão como argumento. É nesse contexto que o apóstolo Paulo nos diz que “a ciência incha, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8:1). Mesmo sabendo nós que os ídolos não existem (1 Coríntios 8:4) e que temos liberdade para comer (1 Coríntios 8:8; 10:25), nem todos tem essa ciência (1 Coríntios 8:7) e portanto não podemos abusar da liberdade sob o argumento da ignorância alheia, porque é exatamente por meu irmão ser ignorante que eu me abstenho (1 Coríntios 8:10).

A segunda observação é de que tal “ignorância” não pode ser sustentada no seio da igreja de modo a sustentar a condenação à bebida alcoólica, ou seja, não podemos ensinar os convertidos a censurar a bebida em geral (assim como devemos ensinar a reprová-la nos momentos em que a Escritura reprova). Uma coisa é a ignorância do que está aprendendo a fé; outra coisa é a ignorância reproduzida pelo ensino na Igreja. Essa ignorância deve ser superada da mesma forma que foi superada a ignorância acerca do alimento sacrificado aos ídolos (que, tendo sido um problema nos tempos apostólicos, não é hoje para a maioria de nós). Essa reprodução de ignorância tem sido comum nas igrejas menos intelectualizadas no Brasil. A Igreja de Cristo não pode sustentar um juízo conforme as aparências (João 7:24).


***

Além dos argumentos aqui expostos, há outros que não foram tratados por serem obviamente falaciosos, como aqueles que dizem que “Jesus não poderia beber porque é santo” (e variantes), que é uma petitio principii. Agradeço aos leitores que apresentarem mais argumentos contra a bebida alcoólica, a serem refutados em futura postagem.



G. Montenegro

Um comentário:

  1. Amigo, Graça e Paz!
    Peço licença para adentrar no seu espaço, apenas para pedir ao irmão que olhe com um pouco de atenção ao versículo citado em 1 Timóteo 3.8, confira lá, pois no grego koinê onde traduzimos "dado a muito" diz: "não se por ao lado", sendo essa a tradução correta, então, haveria uma diferença enorme no que Paulo estava ensinando a seu pupilo não é? Sim, no tocante a fermentação, o resultado "natural" final de uma fermentação do mosto seria o vinagre de uva e não o vinho alcoólico, para se adquirir a bebida alcoólica tem que se interromper o processo "natural" na fase específica de sua fermentação para evitar-se o vinagre e obter o "desejado" vinho... Espero ter somado ao assunto. Abraço, a Paz!

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