31/01/12

Agostinho e o Calvinismo


Diversos calvinistas alegam que o calvinismo começou com Agostinho. Pretendo aqui delinear as distinções entre o Calvinismo e o Agostinianismo, esclarecendo que a concepção calvinista de predestinação não começa com Calvino, mas é muitos séculos anterior.
Na realidade, é incorreto chamar a concepção de “Calvinismo” a crença na Dupla Predestinação. A expressão mais correta seria “Predestinarianismo”, da qual o calvinismo seria apenas uma expressão protestante, havendo também formas medievais de predestinarianismo anteriores ao protestantismo, muitas delas condenadas pelo clero católico medieval.
De fato, podemos dizer que a concepção de predestinação delineada por Agostinho serviu de norte para o predestinarianismo posterior. As doutrinas da predestinação que se originaram com Agostinho (tanto o agostinianismo quanto as formas desviantes, pseudo-agostinianas, incluindo aqui o calvinismo) é estabelecimento da eleição “ante praevisa merita”, significando que a eleição divina é logicamente anterior a qualquer mérito previsto. Sobre isso Agostinho escreve que a graça non datur secundum aliqua merita, sed efficit omnia bona merita” (De praedestinatione sanctorum, cap. V), ou seja, não é dada segundo nenhum mérito, antes ela mesma realiza todos os bons méritos. Isso significa que a eleição divina não depende de nada de bom que haja na criatura; antes, tudo que há de bom seria resultado dessa graça. Isso coloca a predestinação como uma escolha totalmente divina.
Essa doutrina inclui dois aspectos importantes: o primeiro é que a predestinação divina, de acordo com Agostinho (De prae. san., cap. 34), não se baseia em uma fé prevista, mas antes é a própria causa da fé (tanto a fé inicial, da conversão, quanto o aumento da fé). Ou seja, Deus não predestinou porque previu que em um determinado eleito haveria fé, mas antes o predestinou para que ele a tivesse. O segundo aspecto é que a predestinação, ainda segundo Agostinho (De prae. san., caps. 36 e 37), também não se baseia em uma uma santidade prevista, mas é a própria causa da santidade. Toda santidade seria resultado da graça de Deus nos eleitos. A predestinação divina seria antecedente lógico a tudo que pudesse ser meritório na criatura; se a criatura tem qualquer mérito, esse mérito foi lhe dado por Deus. Mesmo o desejo inicial de se aproximar de Deus (initium fidei) seria causado por Deus (De prae. san., cap. 39).
Qualquer que seja a forma do predestinarianismo posterior, essa doutrina (ante praevisa merita) permanece como seu centro interpretativo. No calvinismo, a expressão dada pelo Sínodo de Dordt foi a da chamada “Eleição Incondicional”, significando que a eleição divina não depende de nada que haja na criatura. Há, de fato, um salto entre dizer que a eleição não depende de nada bom na criatura e dizer que não depende de nada na criatura. Entretanto, o próprio Agostinho, muito antes de Calvino, já havia atribuído a um mistério insondável a eleição divina.
Entretanto, há grandes distinções entre o predestinarianismo calvinista e a interpretação agostiniana da predestinação, e essa distinção está no centro do que se chama “predestiarianismo”. Trata-se da doutrina calvinista da “Dupla Predestinação”, segundo a qual Deus, por um insondável decreto divino, haveria predestinado dentre a humanidade um grupo para a salvação eterna e outro para a danação eterna; assim sendo, a predestinação teria duas faces: eleição (para a savalção) e reprovação (para condenação). Enquanto Agostinho e o predestinarianismo estariam de acordo em afirmar que Deus haveria eleito (segundo sua vontade), dentre a humanidade, alguns para a salvação eterna, no agostinianismo Deus não elegeu pessoa alguma para a perdição, antes esta seria um resultado dos pecados individuais. Para Agostinho, toda a humanidade seria uma massa condenada (massa damnata) de pecadores, da qual Deus (por motivos não revelados) haveria retirado e purificado alguns para si. Não haveria, da parte de Deus, escolha dos perdidos, como afirmou depois o calvinismo. Essa é uma primeira e importante distinção entre agostinianismo e calvinismo, pela qual não podemos dizer que o calvinismo se origina em Agostinho.
Entretanto, a dupla predestinação não começa com o Calvinismo. Na realidade, pouco mais de um século após Agostinho, Isidoro de Sevilha (teólogo e arcebispo, assim com o historiador e cientista) expressaria a doutrina da predestinação nos seguintes termos: Gemina est praedestinatio siue electorum ad requiem, siue reproborum ad mortem.” (Sententiarum libri III, cap. vi), isto é, “Há uma predestinação gêmea, tanto dos eleitos para o repouso, quanto dos réprobos para a morte”. Entretanto, a forma resumida com a qual Isidoro coloca tais palavras não nos permite dizer se de fato ele endossava a doutrina da dupla predestinação como a entendeu o Calvinismo depois, ou se a segunda face da predestinação (reprovação) seria “post et propter praevisa demerita” (tendo em conta os deméritos previstos). De qualquer forma, a doutrina da predestinação dupla encontraria uma forma clara em Godescalco de Orbais (veja aqui), que cita Isidoro, além do reformador John Wycliffe, antecessor de Lutero.
Uma segunda distinção entre Agostinho e os calvinistas diz respeito à perseverança. Enquanto ambos os lados concordariam em dizer que toda perseverança procede da Graça de Deus, sem a qual é impossível perseverar (ou mesmo desejar perseverar), há uma discordância sobre a “intensidade” desse dom. Para Agostinho, o dom da perseverança é dado continuamente por Deus, mas pode ser perdido, de modo que é possível perder a salvação; persevera-se na medida em que a graça é continuamente dada, de modo que o que recebe a graça não pode senão perseverar, conforme Agostinho discute em seu De dono perseverantiae; por outro lado, cairá (por seus próprios pecados) aquele a quem Deus não conceder mais a graça. No calvinismo, entretanto, a perseverança é dada a todos os eleitos, e de uma vez por todas, de modo que todos eles perseveram até o final, sendo impossível um salvo cair; aqueles que receberam a fé inicialmente irão perseverar até o fim. Concordando ambos que aqueles a quem Deus conceder a Graça irão perseverar, discordam sobre ser possível cair efetivamente ou não. Um corolário disso é que para Agostinho a perseverança é algo que devemos continuamente pedir a Deus (e de fato o fazemos, quando oramos, por exemplo, “Não nos deixeis cair em tentação”), enquanto que no Calvinismo a perseverança está assegurada a todos os verdadeiros crentes.
Um terceiro ponto diz respeito à própria concepção da salvação. Calvinistas são monergistas, crendo que a salvação é um trabalho realizado exclusivamente por Deus. Por sua vez, a doutrina agostiniana é sinergista, crendo ser a salvação uma cooperação entre Deus e o homem, em que Deus tem a direção, fazendo com que o homem coopere.


G. Montenegro

2 comentários:

  1. Interessante essa exposição, porque sempre estudei os pontos semelhantes e a influência de Agostinho sobre Calvino.

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  2. Estudo muito bom. Parabéns. Israel Belo de Azevedo

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