Sim, contra o respeito. Explico no que segue. Apenas pensamentos soltos.
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A virtude do iluminismo, chamada tolerância,
na forma que tomou no nosso tempo, um tipo de vigilância constante
contra a divergência incisiva (verbalmente incisiva), é
completamente desconhecida nas Escrituras. É uma invenção moderna,
um tipo de prescrição social frouxa, covarde e hipócrita. E se é
óbvio que se trata apenas de retórica; no fim das contas há o que
é tolerado e o que não é. Qualquer cristão sabe que não será
tolerado em uma “sociedade de tolerância”. Trata-se apenas,
aqui, de expor essa hipocrisia, esse fingimento, essa baixeza
travestida da mais pura e intocável virtude.
Essa cultura de tolerância toma uma forma
bastante peculiar: existe a crença geral de que todas as pessoas são
dignas de um respeito inviolável à imagem pública. Que todos
merecem respeito. A isso é necessário responder diretamente: Nem
todas as pessoas são igualmente dignas. Nem todas as ideias
são igualmente dignas. Nem todos os atos são igualmente
dignos.
Há canalhas, que não merecem respeito.
Há mentiras, que não merecem respeito.
Há vilezas, que não merecem respeito.
Na realidade, tolerância só pode dizer respeito
ao que é, por natureza, desagradável, degradante ou, no mínimo,
antinatural. Existe tolerância aos efeitos da radiação ou das
drogas, por exemplo. Só posso tolerar aquilo que me é (ou pode ser)
danoso de alguma forma (biológica, moral, estética, etc). Não se
pode falar em “tolerância ao amor” ou “tolerância ao bem”. Por isso mesmo o discurso da tolerância tende mesmo a cristalizar separações.
Na realidade tudo isso é intuitivo. Não há
aqui novidade; todos sabem disso e se comportam dessa forma.
Mas os “bonzinhos” que condenam o xingamento aparentemente se
esquecem disso.
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Mas o que nos diz o Evangelho a esse respeito?
Que devemos amar ao próximo.
Mas como qualquer um com um pouco de conhecimento
do Evangelho sabe, amor não significa leniência ou indulgência com
os erros alheios, em especial ao veneno que respinga em volta. O amor
nos obriga a perdoar todos os nossos inimigos; mas isso não
significa ignorar o mal que um semelhante faz a outro.
Na realidade, tudo que um canalha enganador
precisa, para continuar sendo canalha, é ser respeitado e
reverenciado. O lobo em pele de cordeiro adora receber o mesmo
respeito que a ovelha recebe: isso apenas sustenta o sua máscara.
Nesse sentido, é importante observar o
comportamento que o Senhor Jesus Cristo teve. Ele mesmo
reiteradamente chama seus adversários de “hipócritas”,
“serpentes”, “filhos do inferno”, etc (Mateus 23:13-39;
Lucas 11:37-54). Seu adversário chega mesmo a mostrar que se
sentiu humilhado (Lucas 11:45), mas isso não faz seu
adversário parar. Semelhantemente, o apóstolo Paulo, quando
estava cheio do Espírito Santo, chamou a Elimas de “filho do
diabo” (Atos 13:10) porque procurava desfazer a obra do
apóstolo.
São xingamentos? Sim, são. Isso significa que o
Senhor Jesus ou o apóstolo Paulo “perderam a razão” (como se
costuma dizer) quando partiram para a detratação? É claro que não.
Existe uma grande diferença entre discutir ideias por meio de
argumentos (onde não cabe o xingamento, sob imputação de
argumentum ad hominem) e em disputar contra um farsante
(onde o argumento de nada serve, senão para mostrar a ignorância do
farsante aos que estão ao seu redor, servindo também como outra
forma de detratação). A detratação é mesmo uma necessidade,
como demonstrado nos exemplos de Jesus e Paulo.
Pode-se mostrar por uma multidão de exemplos que
as Escrituras ensinam respeito a certas pessoas, por serem essas
dignas de respeito, seja pela posição ocupada, seja pela idade,
seja pela conduta (Levítico 19:32; 1 Tessalonicenses 5:13; 1
Timóteo 5:17; Tito 2:2; etc). Há pessoas que merecem respeito,
pessoas que merecem mais respeito, e pessoas que não merecem
respeito algum. Respeito conquista-se.
Quanto ao mais, é evidente que essa forma de
detratação não pode partir do ódio a alguém. Mas que fique claro
que não há contradição entre amar ao próximo e (sob necessidade)
tratá-lo sem respeito.
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Sobre “palavrões”, um aparte: não havia
palavrões quando a Bíblia foi escrita, e por isso mesmo não pode
haver texto bíblico condenando o uso de palavrões, assim como não
pode haver texto bíblico condenado hambúrguer. Qualquer texto usado
nesse sentido refere-se a outra coisa, não a palavrões. Havia, isso
sim, formas de xingar, e essas formas foram usadas tanto pelo Senhor
Jesus Cristo quanto pelo apóstolo Paulo, conforme acima já
mostrado.
“Palavras torpes” (Efésios 4:29;
Colossenses 3:8) não são palavrões. A confusão se dá porque,
em português, usamos a expressão “palavra” para designar tanto
uma mônada gramatical quanto para designar o discurso em geral.
Quando dizemos que “café é uma palavra” e que “ouvimos
à Palavra de Deus”, usamos dois significados distintos.
Entretanto, a expressão grega para “palavra” utilizada tem um
significado diferente:
πᾶς λόγος σαπρὸς
ἐκ τοῦ στόματος ὑμῶν μὴ ἐκπορευέσθω
ἀλλ᾽ εἴ τις ἀγαθὸς πρὸς οἰκοδομὴν
τῆς χρείας ἵνα δῷ χάριν τοῖς ἀκούουσιν
(Efésios 4:29)
νυνὶ δὲ ἀπόθεσθε καὶ ὑμεῖς
τὰ πάντα ὀργήν θυμόν κακίαν βλασφημίαν
αἰσχρολογίαν ἐκ τοῦ στόματος
ὑμῶν
(Colossenses 3:8)
Tanto a
expressão λόγος
σαπρὸς quanto
αἰσχρολογία
fazem uso do radical λόγος
(LOGOS),
que designa a palavra tanto como pensamento (daí deriva “lógica”)
quanto como discurso, isto é, o conteúdo daquilo que é
verbalizado; não cada componente daquilo que é dito, mas sua
totalidade e significação. Não designa aquilo que gramaticalmente
chamamos de “palavra”. λόγος
σαπρὸς
seria a “fala podre”, enquanto αἰσχρολογία
seria
o discurso sujo. Ambas seriam o discurso que promove a podridão,
torpeza, etc.
G.
Montenegro
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