Pretendo ser bastante impopular nesse texto, porque
devo aqui contrariar alguns radicalismos presentes na cultura
evangélica contemporânea. Grande parte das igrejas protestantes,
especialmente as mais recentes, faz condenação expressa ao uso de
bebidas alcoólicas.
Antes de entrar no mérito da questão, é preciso esclarecer três
pontos:
Em primeiro lugar, eu não consumo bebida
alcoólica, e não acredito que consumir seja uma conduta perfeita,
sábia. Não recomendo a ninguém.
Em segundo lugar, a bebida pode ser trágica. Não faltam em
nossas vizinhanças, ou mesmo em nossas famílias, casos de pessoas
que se desgraçaram por conta da bebida alcoólica. Por outro lado,
não faltam nas igrejas casos de regeneração, testemunhos de
pessoas que em Cristo deixaram a bebida e superaram uma vida de
maldição.
Em terceiro lugar, os bêbados não
herdarão o Reino de Deus (1 Coríntios 6:10). Há
chamas bem ardentes preparadas para os corpos e as almas daqueles que
não se arrependerem (Mateus 10:28). O pecado escraviza (João
8:34), e está diretamente associado a outros pecados (Romanos
13:13), e nos faz perder os limites. A condenação eterna está
à porta daqueles que olham demais para sua satisfação, em
detrimento da satisfação do seu Criador. Assim como com qualquer
pecado, Jesus é a redenção e recebe qualquer um que se arrepender
e quiser sinceramente ser livres deste mal.
Dito
isso, aqui vai uma verdade: Não há condenação
direta da bebida alcoólica na Bíblia. Simplesmente não há.
Se quisermos aqui seguir o princípio epistemológico protestante da
Sola Scriptura, então
consumir bebida alcoólica não é pecado.
Mas como, se os bêbados não
herdarão o reino de Deus? Os bêbados não herdarão tanto quanto os
glutões (Gálatas 5:21).
Então comer é pecado? É evidente que não. A distinção entre uma
pessoa comum em sua alimentação e um glutão é a mesma que a que
há entre alguém que bebe moderadamente e um bêbado.
Eis a palavra: moderação. Tal
virtude aparece na Bíblia sob o nome de temperança
ou domínio próprio
(Gálatas
5:22,23).
Trata-se de uma virtude humana universal, reconhecida nas mais
diversas religiões, nas mais diversas culturas e nas mais diversas
tradições de sabedoria, mas toma um revelo especial no Evangelho: a
intemperança é um pecado. A gula e a bebedice são formas de
intemperança. As condenações da Bíblia quanto à bebida alcoólica
são condenações à intemperança (ex: Isaías
5:11). Tais condenações
são encontradas diversas vezes ao longo dos livros proféticos, mas
nunca como uma condenação da bebida alcoólica em si em si. Pelo
contrário, são usados até mesmo como símbolo de bênção
(“mosto” em Gênesis
27:28; 2 Reis 18:32; Isaías 36:17; 65:8; Jeremias 31:12; Oseias
2:8,22; Joel 2:19-24; 3:18; Amós 9:13; Zacarias 9:17),
de modo que sua ausência é símbolo de uma má época, de punição
(Isaías 24:7; Oseias 2:9;
9:2; Joel 1:5,10; Ageu 11).
Há, no Antigo Testamento, limitações específicas quanto ao
uso da bebida alcoólica. Um caso interessante é o do nazireu:
estava proibido a fazer uso de bebidas alcoólicas assim como de suco
de uva, e nem mesmo a própria uva (Números 6:2-3), assim
com outras proibições relativas a contato com corpos mortos e corte
de cabelo. Do mesmo modo, o sacerdote do templo não podia consumir
medida alcoólica quando tivesse de entrar na tenda da congregação
(Levítico 10:9). Assim também, os recabitas não bebiam
“bebida forte”, por tradição de seu pai (Jeremias 35:6-8).
A importante pergunta é: por que três condenações particulares e
nenhuma condenação geral à bebida forte? Por que somente com
pessoas específicas e não à generalidade?
Mas podemos ir além: além de não haver uma condenação geral ao
uso de bebida forte, aparece também recomendação do seu
uso, no Antigo Testamento. Dois lugares dignos de nota são
Provérbios 31:6,7 e Deuteronômio 14:22-26. Enquanto o
texto de Provérbios trata de dar bebida alcoólica a outrem, o de
Deuteronômio trata explicitamente do consumo de bebida alcoólica
por parte do dizimista (como já explicado em postagem
anterior, o dízimo no Antigo Testamento era consumido pelo
próprio dizimista em um tipo de banquete). Ou seja: ele deve
consumir bebida alcoólica. Estaria o texto bíblico explicitamente
recomendando um pecado? Obviamente não.
Existe, entretanto, um argumento muito prevalente no meio evangélico,
que é o de que devemos nos alegrar exclusivamente no Senhor, e que,
portanto, toda outra forma de prazer é proibida. Esse argumento é
sustentado por uma verdade, mas essa verdade é corrompida no próprio
argumento. A verdade é que sim, devemos ter em Deus toda
a nossa felicidade. Mas a conclusão falsa é de que, por isso, não
poderíamos nos alegrar também com nossos amigos, nossos irmãos,
nossos parentes e a própria Criação de Deus. Todas essas coisas
são presentes de Deus para a nossa felicidade nele
(e não para nossa felicidade sem ele).
Quando nos alegramos vendo a Criação de Deus, sua beleza, sua
aprazibilidade, e dela desfrutamos (sem a degradarmos, é claro),
estamos nos alegrando em algo que Deus nos deu. Todas essas coisas
dependem de Deus e nele encontram seu sustentáculo e fundamento.
Quando nos alegramos na Criação rejeitando a o Criador, sim,
pecamos. Espero que tenha ficado evidente que podemos ter diversos
prazeres sem que eles interfiram no prazer maior e último (no
sentido ontológico), a glória de Deus, desde que esses prazeres
menores dele diretamente dependam e para ele se dirijam. Os prazeres
sexuais não são proibidos; são para ser desfrutados,
respeitando-se os limites divinamente estabelecidos.
Se no Antigo Testamento ao menos três grupos não consumiam bebidas
alcoólicas (sacerdotes no exercício de funções litúrgicas,
nazireus e recabitas), no Novo Testamento não encontramos nenhum
grupo, nenhuma restrição particular. Temos, sim, a bebedice como
pecado, mas disso já tratamos. O único caso no Novo Testamento é
de João Batista (não um grupo, mas uma pessoa específica), que não
consumia “vinho, nem bebida forte”
(Lucas 1:15). Mas o caso de João Batista confirma exatamente
a tese de que não havia condenação geral à bebida alcoólica. De
fato Jesus se contrapõe a João Batista dizendo:
33 Porque veio João o Batista,
que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;
34 Veio o Filho do homem, que
come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de
vinho, amigo dos publicanos e pecadores.
(Lucas 7:33,34)
O exemplo fala por si mesmo. É evidente que os inimigos de Jesus
exageraram, qualificando como “bebedor de vinho”, mas o real
problema não é esse. Não mentiam afirmando que Jesus bebia vinho,
porque ele próprio o reconhece.
Um segundo texto muito importante é 1 Coríntios 11:21. Texto
muito conhecido por preceder o associado ao “texto da Ceia”. Que
diz o texto? Diversos cristãos coríntios abusavam da Ceia do
Senhor, não a celebrando com o devido temor, mas para se saciarem
como em uma orgia, de modo a se embriagarem com o vinho da
Ceia. A resposta de Paulo? Cada um beba e coma em sua casa (v. 22).
Porque não condena explicitamente o embriagar-se em si? Porque
permite-os beber em casa? Tal não faz sentido na lógica de
abstinência das igrejas evangélicas.
Pretendo tratar de alguns argumentos contrários à tese aqui exposta
na próxima postagem, bem como o uso da palavra “vinho” nas
línguas bíblicas.
G.
Montenegro.
O assunto é muito interessante e de extrema importância para argumentar diante das pessoas que bebem, mas qual bíblia de estudo o irmão usou na composição desses argumentos?Quero me aprofundar pois meus pais não são cristãos e sempre eles estão me perguntando algo como esse tema.
ResponderExcluirAndré Ricardo, Cabo de Stº Agostinho-PE
email: ricardoliveira2105@hotmail.com
Não uso "Bíblia de Estudo".
ResponderExcluirGrato.