20/10/11

Sobre bebidas alcoólicas - Parte I


 Pretendo ser bastante impopular nesse texto, porque devo aqui contrariar alguns radicalismos presentes na cultura evangélica contemporânea. Grande parte das igrejas protestantes, especialmente as mais recentes, faz condenação expressa ao uso de bebidas alcoólicas.

Antes de entrar no mérito da questão, é preciso esclarecer três pontos:

Em primeiro lugar, eu não consumo bebida alcoólica, e não acredito que consumir seja uma conduta perfeita, sábia. Não recomendo a ninguém.

Em segundo lugar, a bebida pode ser trágica. Não faltam em nossas vizinhanças, ou mesmo em nossas famílias, casos de pessoas que se desgraçaram por conta da bebida alcoólica. Por outro lado, não faltam nas igrejas casos de regeneração, testemunhos de pessoas que em Cristo deixaram a bebida e superaram uma vida de maldição.

Em terceiro lugar, os bêbados não herdarão o Reino de Deus (1 Coríntios 6:10). Há chamas bem ardentes preparadas para os corpos e as almas daqueles que não se arrependerem (Mateus 10:28). O pecado escraviza (João 8:34), e está diretamente associado a outros pecados (Romanos 13:13), e nos faz perder os limites. A condenação eterna está à porta daqueles que olham demais para sua satisfação, em detrimento da satisfação do seu Criador. Assim como com qualquer pecado, Jesus é a redenção e recebe qualquer um que se arrepender e quiser sinceramente ser livres deste mal.

Dito isso, aqui vai uma verdade: Não há condenação direta da bebida alcoólica na Bíblia. Simplesmente não há. Se quisermos aqui seguir o princípio epistemológico protestante da Sola Scriptura, então consumir bebida alcoólica não é pecado.

Mas como, se os bêbados não herdarão o reino de Deus? Os bêbados não herdarão tanto quanto os glutões (Gálatas 5:21). Então comer é pecado? É evidente que não. A distinção entre uma pessoa comum em sua alimentação e um glutão é a mesma que a que há entre alguém que bebe moderadamente e um bêbado.

Eis a palavra: moderação. Tal virtude aparece na Bíblia sob o nome de temperança ou domínio próprio (Gálatas 5:22,23). Trata-se de uma virtude humana universal, reconhecida nas mais diversas religiões, nas mais diversas culturas e nas mais diversas tradições de sabedoria, mas toma um revelo especial no Evangelho: a intemperança é um pecado. A gula e a bebedice são formas de intemperança. As condenações da Bíblia quanto à bebida alcoólica são condenações à intemperança (ex: Isaías 5:11). Tais condenações são encontradas diversas vezes ao longo dos livros proféticos, mas nunca como uma condenação da bebida alcoólica em si em si. Pelo contrário, são usados até mesmo como símbolo de bênção (“mosto” em Gênesis 27:28; 2 Reis 18:32; Isaías 36:17; 65:8; Jeremias 31:12; Oseias 2:8,22; Joel 2:19-24; 3:18; Amós 9:13; Zacarias 9:17), de modo que sua ausência é símbolo de uma má época, de punição (Isaías 24:7; Oseias 2:9; 9:2; Joel 1:5,10; Ageu 11).

Há, no Antigo Testamento, limitações específicas quanto ao uso da bebida alcoólica. Um caso interessante é o do nazireu: estava proibido a fazer uso de bebidas alcoólicas assim como de suco de uva, e nem mesmo a própria uva (Números 6:2-3), assim com outras proibições relativas a contato com corpos mortos e corte de cabelo. Do mesmo modo, o sacerdote do templo não podia consumir medida alcoólica quando tivesse de entrar na tenda da congregação (Levítico 10:9). Assim também, os recabitas não bebiam “bebida forte”, por tradição de seu pai (Jeremias 35:6-8).

A importante pergunta é: por que três condenações particulares e nenhuma condenação geral à bebida forte? Por que somente com pessoas específicas e não à generalidade?

Mas podemos ir além: além de não haver uma condenação geral ao uso de bebida forte, aparece também recomendação do seu uso, no Antigo Testamento. Dois lugares dignos de nota são Provérbios 31:6,7 e Deuteronômio 14:22-26. Enquanto o texto de Provérbios trata de dar bebida alcoólica a outrem, o de Deuteronômio trata explicitamente do consumo de bebida alcoólica por parte do dizimista (como já explicado em postagem anterior, o dízimo no Antigo Testamento era consumido pelo próprio dizimista em um tipo de banquete). Ou seja: ele deve consumir bebida alcoólica. Estaria o texto bíblico explicitamente recomendando um pecado? Obviamente não.

Existe, entretanto, um argumento muito prevalente no meio evangélico, que é o de que devemos nos alegrar exclusivamente no Senhor, e que, portanto, toda outra forma de prazer é proibida. Esse argumento é sustentado por uma verdade, mas essa verdade é corrompida no próprio argumento. A verdade é que sim, devemos ter em Deus toda a nossa felicidade. Mas a conclusão falsa é de que, por isso, não poderíamos nos alegrar também com nossos amigos, nossos irmãos, nossos parentes e a própria Criação de Deus. Todas essas coisas são presentes de Deus para a nossa felicidade nele (e não para nossa felicidade sem ele).

Quando nos alegramos vendo a Criação de Deus, sua beleza, sua aprazibilidade, e dela desfrutamos (sem a degradarmos, é claro), estamos nos alegrando em algo que Deus nos deu. Todas essas coisas dependem de Deus e nele encontram seu sustentáculo e fundamento. Quando nos alegramos na Criação rejeitando a o Criador, sim, pecamos. Espero que tenha ficado evidente que podemos ter diversos prazeres sem que eles interfiram no prazer maior e último (no sentido ontológico), a glória de Deus, desde que esses prazeres menores dele diretamente dependam e para ele se dirijam. Os prazeres sexuais não são proibidos; são para ser desfrutados, respeitando-se os limites divinamente estabelecidos.

Se no Antigo Testamento ao menos três grupos não consumiam bebidas alcoólicas (sacerdotes no exercício de funções litúrgicas, nazireus e recabitas), no Novo Testamento não encontramos nenhum grupo, nenhuma restrição particular. Temos, sim, a bebedice como pecado, mas disso já tratamos. O único caso no Novo Testamento é de João Batista (não um grupo, mas uma pessoa específica), que não consumia “vinho, nem bebida forte” (Lucas 1:15). Mas o caso de João Batista confirma exatamente a tese de que não havia condenação geral à bebida alcoólica. De fato Jesus se contrapõe a João Batista dizendo:

33 Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;
34 Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.
(Lucas 7:33,34)

O exemplo fala por si mesmo. É evidente que os inimigos de Jesus exageraram, qualificando como “bebedor de vinho”, mas o real problema não é esse. Não mentiam afirmando que Jesus bebia vinho, porque ele próprio o reconhece.

Um segundo texto muito importante é 1 Coríntios 11:21. Texto muito conhecido por preceder o associado ao “texto da Ceia”. Que diz o texto? Diversos cristãos coríntios abusavam da Ceia do Senhor, não a celebrando com o devido temor, mas para se saciarem como em uma orgia, de modo a se embriagarem com o vinho da Ceia. A resposta de Paulo? Cada um beba e coma em sua casa (v. 22). Porque não condena explicitamente o embriagar-se em si? Porque permite-os beber em casa? Tal não faz sentido na lógica de abstinência das igrejas evangélicas.

Pretendo tratar de alguns argumentos contrários à tese aqui exposta na próxima postagem, bem como o uso da palavra “vinho” nas línguas bíblicas.


G. Montenegro.

4 comentários:

  1. O assunto é muito interessante e de extrema importância para argumentar diante das pessoas que bebem, mas qual bíblia de estudo o irmão usou na composição desses argumentos?Quero me aprofundar pois meus pais não são cristãos e sempre eles estão me perguntando algo como esse tema.

    André Ricardo, Cabo de Stº Agostinho-PE
    email: ricardoliveira2105@hotmail.com

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  2. http://carlosxavier25.blogspot.com.br/2008/07/bebida-alcolica-pra-muitos-uma-delicia.html

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    1. Bobagem. Não se proíba aquilo que Deus permitiu (Deuteronômio 14:26).

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