12/10/11

O que Jesus não era - Parte I


(1) Não um revolucionário

Não é incomum ver Jesus sendo tratado (especialmente por pós-cristãos) como um tipo de “revolucionário” (e como se isso fosse algo de bom). A confusão se deve a uma compreensão ingênua, superficial, naïve, do que seja um revolucionário. Pensa-se num revolucionário como alguém que "revoluciona", que causa uma mudança profunda na realidade (intelectual, política, etc). Entretanto, quando dizemos “um revolucionário, não se trata disso. O motivo mais evidente é o de que nem todo revolucionário de fato causa essa mudança.

Mas também não podemos descrever o revolucionário sob o aspecto subjetivo, como aquele que deseja de fato essa mudança. Esse aspecto é ininvestigável. É óbvio que nem todos os revolucionários desejavam mudança na realidade; muitos desejavam apenas uma posição de poder mais favorável (a despeito da miséria alheia), embora empregassem uma retórica .

Na acepçãoorrente, revolucionário é aquele que está engajado (por qualquer motivo que seja, altruísta ou egoísta) na mudança da realidade pela via política (seja a política visível, hard power, seja os meios subreptícios). Essa definição se aplica a todos os genuínos revolucionários (o que não significa dizer “revolucionários sinceros”), como Lênin, Trótski, Stalin, Mao, Guevarra et caterva. Mas tal definição definitivamente não se aplica a Jesus.

Não se enganem: A proclamação de Jesus é ela mesma eminentemente política. Mas tal pregação é radicalmente contrária ao discurso revolucionário. Jesus proclama em todo tempo a vinda do Reino de Deus. É difícil ler os Evangelhos (especialmente os sinóticos) sem se deparar com parábolas de Jesus sobre a iminência do Reino de Deus, Reino de justiça e paz. Mas adverte: “Meu reino não é deste mundo” (João 18:36). Nada há que se possa fazer para “trazer” ou “criar” este reino, “imanentizar o eschaton” na linguagem voegeliniana. Todo esforço possível é para entrar no reino (herdá-lo), não para torná-lo atual.

Assim, Jesus ou seus discípulos não estavam engajados em uma mudança da realidade pela via política. De fato, muita gente na época de Jesus estava. Diversos movimentos messiânicos e quase messiânicos, proféticos e quase proféticos, estavam envolvidos em uma revolta dos judeus contra o Império Romano, para que fosse garantida a unidade e independência do povo judeu (todos, evidentemente, falharam). Eram eles revolucionários genuínos.

Um conceito chave no atual discurso revolucionário é o de “justiça social”, que nada mais seria que uma forma de redistribuição das riquezas segundo o princípio da “igualdade” (o conceito revolucionário de igualdade é assaz distinto do conceito cristão, mas não é momento de discutir o tema). De fato os discípulos de Jesus são exortados à justiça e ao amor aos pobres, de modo que o cristão que não ajuda ao seu próximo na miséria peca.

Mas o pressuposto fundamental dessa justiça e amor é uma transformação interior em Deus, e não uma ordem de poder político criadora de justiça. Não se trata de uma justiça criada pela força ou pela violência, mas pelo Espírito Santo. O discurso revolucionário prega a expropriação (que é uma forma de roubo) e a violência “justificada”. Não há nada na pregação de Jesus que se aproxime, mesmo remotamente, disso. Não pode existir uma “sociedade boa” sem homens bons em si. E a história confirma que todos os revolucionários levaram ao terror e ao extermínio das massas.

Então não, Jesus não era um revolucionário.


G. Montenegro.

8 comentários:

  1. Gyordano não sabia que vc tinha um blog. Deus te abençoe, muito bom!

    Ingra

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  2. Sr. Montenegro o texto de genesis 3:15 diz respeito a Jesus como se comenta no meio cristão?

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    1. Gênesis 3:15 não fala de Jesus. Fala do descendente da mulher (a humanidade).

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  3. Mas porque dizem tratar de uma profecia que representa Jesus que viria da mulher e pisaria na cabeça de satanaz? Teria como explicar pondo os pontos onde erram nessa questoa

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  4. Ainda estou com a pulga atras da orelha kkkk até eu imaginava se tratar realmente de Jesus, por favor sr. Montenegro explique detalhadamente o por que não se trata de Jesus e como a descendecia(humanidade) pode firir a cabeça da serpente? Como o sr. interpreta esse versiculo

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    1. A serpente dos Gênesis é um animal. É isso que o texto diz (3:1). Não é o diabo. A ideia de que a "descendência" da serpente é Jesus se baseia em uma oposição entre Jesus e o diabo. Mas na realidade a oposição é entre o ser humano e o animal serpente. O texto não dá nenhuma indicação de ser uma profecia.

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  5. Como assim a oposição é entre o ser humano e a serpente? Fiquei confuso.

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    1. Não entendi qual é a dúvida. Segundo o texto de Gênesis, existe oposição entre o animal serpente e o ser humano, e um luta contra o outro.

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