05/04/11

Disciplina e Excomunhão - Parte I

A mudança das palavras do latim para o português não é suficiente para ocultar completamente a etimologia dessa palavra, ainda que não seja suficiente para que seja intuitiva. “Disciplina” deriva, originalmente, de “discípulo”. Trata-se do cuidado e correção repressivos e condutivos necessários à instrução.

A ideia de 'disciplina' deriva de dois conceitos:
a) Eclesiologia empírica objetiva.
b) Sacralidade da experiência eclesiástica.

Ambos os conceitos foram destruídos no evangelicalismo contemporâneo. Não é à toa que a prática da disciplina se torne a cada dia mais destoante da praxe. O caráter empírico e objetivo da Igreja (conceito “a”) foi, até agora, superficialmente esboçado nos tópicos anteriores sobre Eclesiologia (aqui, aqui e aqui) e, em suma, trata-se do caráter da Igreja em ser reconhecível (empírico) e delimitada pelo do sacramento (objetivo).

O evangelicalismo contemporâneo perdeu quase por completo o sentido do sagrado, tão caro à igreja antiga e à medieval. Embora se admita o conceito de 'santidade', tal expressão em geral denota meramente uma perfeição moral (afastado do pecado). Por isso pretendo falar em 'sagrado' e 'sacralidade' (embora reconhecendo que as expressões originais gregas e hebraicas abarcam ambas as coisas sem exclusão).

A sacralidade é uma propriedade originária de Deus: Ele é sagrado, significando isso que nada impuro pode se colocar em Sua presença (puro é aquilo que pode se colocar na presença do sagrado, mas não é sagrado em si mesmo). Porém a sacralidade 'transborda' em Deus e atinge os seres que estão em comunhão como ele: o Jerusalém é santa, porque nela há o Templo, que é santo, porque nele há uma arca, que é santa, porque nela habita um Deus que é santo. Do mesmo modo, Deus chama ao povo de Israel para ser um povo santo. A santidade não se esgota meramente na 'separação'; trata-se sempre de uma separação em direção a Deus, dedicada a Deus, em que o objeto (seja um lugar, uma pessoa, um povo, um bem) adquire um status novo que serve ao propósito divino, não mais fazendo parte da esfera mundana. O conceito de sacralidade é expresso nas palavras de Jesus: Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas” (Mateus 7:6). Embora indubitavelmente os conceitos de 'puro' (ou 'limpo') e 'impuro' (ou 'imundo') se relativizem no cristianismo (Mateus 15:11; Lucas 11:41; Romanos 14:14,20; Tito 1:15), não se pode confundir isso com a antítese 'sagrado' e 'profano', que é suficientemente distinta.

O elemento de delimitação objetiva da Igreja é o sacramento do pão e vinho. Considerando que tal sacramento consiste em uma participação no altar (Hebreus 13:10; cf. 1 Coríntios 10:16-21), e levando em conta a sacralidade de tal altar (expressa em ambos os textos), a participação no sacramento (e, como consequência, na vida da Igreja) não pode ser aberta, mas restrita. Embora haja um convite geral para a participação em tal comunhão, ela depende de certas condições. A comunhão é sagrada.

Entretanto, não somente a admissão à Comunhão da Ceia se reveste de requisitos, mas, seguindo o caminho inverso, é possível que aqueles que já foram uma vez admitidos à participação venham, em seu comportamento, pecar drasticamente, necessitando ser afastados de tal participação, para que não maculem o sacramento (em analogia ao levedar a massa de 1 Coríntios 5:6). Entretanto, o Batismo só é praticado uma vez. Não se admite a repetição do batismo como uma readmissão à celebração cúltica maior. Assim sendo, a lógica dos dois conceitos, quando admitidos, leva inevitavelmente à disciplina como medida corretiva. Não se trata de uma medida corretiva em relação aos pecados per se, mas tendo em vista o próprio sacramento. Na disciplina, o foco não é a conduta do disciplinado isoladamente, mas ela sob a ótica da Igreja como um corpo. É a pureza da própria igreja que está em jogo (evidenciada pelo pastor Doug Wilson aqui).

Dá-se o nome de “excomunhão” ao ato de “colocar para fora” da comunhão, excomungar. Não há texto bíblico clara e explicitamente proibindo algum crente à participação na Ceia; podemos deduzir de 1 Coríntios 5:9,11,13 (não vos associeis; com o tal nem ainda comais; tirai dentre vós). Entretanto, tampouco há subsídio para separar a comunhão entre os membros da Igreja e a comunhão na ceia. A comunhão da Igreja é a comunhão no pão e vinho, e vice versa, como expresso em 1 Coríntios 10:17. Assim sendo, os textos que se aplicam à disciplina na Igreja em geral (isto é, separação entre os penitentes e os impenitentes) também se aplicam à comunhão no pão e vinho. Portanto, a excomunhão é uma prática eminentemente social (os crentes não deveriam se associar e nem mesmo comer com o excomungado, embora devesse recebê-lo sempre com amor); sua consequência é não só o impedimento à participação na Ceia, mas também ao exercício do ministério.

Em que situações é admitível a excomunhão? A Bíblia dá diversos exemplos. Relações sexuais ilícitas, avareza, idolatria, maledicência, bebedíce, furto (1 Coríntios 5:11), dentre outros motivos. É natural que a excomunhão seja antecedida da repreensão pública (e.g. 2 Coríntios 2:5-8; 1 Timóteo 5:20), para que haja arrependimento.

É necessário que se tenha em mente que a excomunhão não implica na “condenação” do excomungado. É admissível que aqueles que tenham sido postos para fora da comunhão visível da Igreja sejam participantes do reino de Deus; Ele decidirá. Um dos motivos é que a autoridade da Igreja pode falhar nesse ato, ou pode ser lenta; outro motivo é que somente Deus conhece de fato a impenitência do coração. Isso não significa que a excomunhão não produza nenhum efeito na caminhada espiritual individual. Considerando que somente atos realmente graves ensejem a excomunhão, ela é, em si mesma, uma forma de advertir o excomungado para que corrija sua prática, isto é, chamá-lo ao arrependimento. Ademais, considerando que a excomunhão é feita na autoridade da Igreja, a rejeição da excomunhão é rejeição à obediência, o que é também pecado.

Levando adiante tal lógica, enquanto a excomunhão é a medida lógica para a impenitência, a readmissão é a medida lógica para a penitência. O crente que demonstra seu arrependimento à Igreja através de suas obras (frutos dignos do arrependimento), confessando seu pecado, reconhecendo sua culpa, rejeitando seu mau comportamento, desfazendo seu próprio erro. Na Igreja primitiva a readmissão (acompanhada de confissão pública) à comunhão podia levar até anos; a congregação precisaria estar convicta de tal arrependimento. Considerando que a excomunhão não se desse sem a prévia repreensão, seria natural que tal medida disciplinatória durasse bastante tempo, visto que só seria efetivada na hipótese de que a obstinação fosse tão grande que a autoridade da Igreja fosse completamente negligenciada.

Embora no início da reforma protestante haja uma ênfase na ideia do arrependimento como um movimento interno, uma mudança de mente, e embora as palavras gregas empregadas no Novo Testamento e traduzidas como “arrependimento” (μετάνοια, μετανοέω) indiquem etimologicamente uma mudança na mente, nas Escrituras há uma forte exigência de que esse arrependimento frutifique: a árvore que não der fruto será cortada (Mateus 3:8,10). Portanto, tal arrependimento deve produzir um comportamento penitente, como consequência da “tristeza segundo Deus” (2 Coríntios 7:10; cf. 2 Timóteo 2:25).




G. Montenegro.

2 comentários:

  1. Ótima postagem! Outro dia entrei em um determinado blog e encontrei alguns comentários sobre este assunto, fiz alguns comentários, mas confesso que fiquei um tanto perdida, daí resolvei deixar pra lá. Hoje ao deparar-me com este texto puder ter uma melhor clareza do que eu já pensava!
    Deus o abençõe pelas postagem!
    Claudinéia
    Do blog Gente Evangélica
    http://pingofeliz.blogspot.com/

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