02/03/11

Vanitas vanitatum

...Tudo é vaidade!, diz o pregador.

Repetidas vezes vi a palavra 'vaidade', conforme aparece na Bìblia, ser utilizada popularmente em um sentido que não é propriamente aquele que o texto bíblico (seja em grego, seja em hebreu) apresenta. O leitor bíblico deve estar atento a que a tradução das Escrituras tem sua própria tradição. É já histórico traduzir o primeiro fragmento de Eclesiastes 1:2 como "Vaidade de vaidades". Isso não indica, porém, que a palavra vaidade aí terá o mesmo significado que tem no linguajar cotidiano.

Estamos acostumados a entender "vaidade" como 'cuidado com a aparência ou beleza';  e isso se dá por um empobrecimento sofrido pelo significado dessa palavra no português brasileiro coloquial. Não é esse o significado primário de "vaidade" na Bíblia, e mais especificamente em Eclesiastes. Originalmente, 'vaidade' indica a inutilidade, futilidade, ausência de propósito ou sentido. A expressão hebreia (abaixo representada) indica exatamente isso, significando mais propriamente "vapor". Trata-se da qualidade daquilo que é passageiro, que não dura, que é frágil em sua condição temporal.

הֶבֶל
HEBEL
(vaidade)


Quando da tradução de Eclesiastes 1:2 para o latim, utilizou-se da expressão 'vanitas', que expressa a mesma ideia. Por derivação do latim para o português, apareceu 'vaidade' nas traduções. O mesmo ocorre na Septuaginta, que traz ματαιότης, de mesmo significado. Trata-se, portanto, não de um erro de tradução, mas de mudança no significado de uma palavra na língua portuguesa. Vaidade era a qualidade daquilo que é vão.

Veja-se, por exemplo, Jó 7:16: "A minha vida abomino, pois não viveria para sempre; retira-te de mim; pois vaidade (הֶבֶל) são os meus dias". 

Seria de fato absurdo pensar que Jó se queixa aí de sua vida estar cheia de "cuidado com a beleza". Queixa-se, aí sim, de sua vida (aos seus olhos) não ter mais propósito, ou não ser duradoura: "pois vaidade são os meus dias" significa "pois meus dias são [como] um vapor". O mesmo conceito hebreu é apresentado no texto grego de Tiago 4:14. Idem nos Salmos 39:5; 144:4.

No contexto de Eclesiastes, trata-se de um grave problema existencial vivido pelo Pregador. "Vaidade de vaidades" (hebel hebelim) é a forma analítica do superlativo hebreu; é como dizer "vaidadíssima" ou "grandíssima vaidade". Não há superlativo sintético em hebreu, como há em português, e por isso o superlativo é expresso sempre analiticamente, repetindo-se a expressão no plural (vaidade de vaidades, rei dos reis, santo dos santos, etc). Tudo [o que vejo] é sem sentido, é fútil, diz o Pregador.


G. Montenegro.

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