03/03/11

Em que creio sobre Eleição e Predestinação

Pela primeira vez na vida trago abertamente tudo o que creio sobre esse dificílimo tema. Eu poderia rechear o presente texto de citações bíblicas, mas pretendo deixar o texto correr como me vem. Trata-se de uma confissão, e não de uma obra exegética. Na realidade, também não creio que aquilo que aqui expresso esteja igualmente exposto ao longo das Escrituras. Tem seu ápice nos escritos joaninos (Evangelho, epístolas) e nos Atos dos Apóstolos, mas mantém-se também nos escritos paulinos e, em menor grau, ao longo dos demais textos do Novo Testamento e da Bíblia.


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Creio que na humanidade operam duas forças contrárias (o Espírito e a carne) que visam se sobrepor à vontade. Agindo o Espírito como uma força extrínseca e a carne como uma força intrínseca, a condição natural do homem é a da servidão do pecado. O homem natural quer e deseja o pecado (ainda que em graus diferentes cada um), que é sua egocêntrica satisfação. Deste modo, nego o semipelagianismo: o homem não é, de si mesmo, capaz de desejar as coisas de Deus. Tanto o início da fé quanto o prosseguimento na fé são um dom de Deus. Todo desejo nesse sentido se origina na graça. E mesmo o próprio desejo é suprimido pela lei do pecado, de modo que o homem, mesmo desejando o bem, faz o mal. Assim, a condição humana é de perpétua servidão; ou servir ao pecado (livrando-se de Deus), ou servir a Deus (livrando-se do pecado).

Creio que Deus tenha predestinado um determinado número antes da fundação do mundo para serem seus filhos, isto é, para participar da redenção, para serem progressivamente livrados de tal servidão através de Jesus Cristo. Creio que tal modo se dá não apenas por uma eficácia externa (Molina), mas principalmente interna (Agostinho), embora creia na participação de ambas as coações.

Não creio na eleição incondicional calvinista, mas também não creio na eleição condicional arminiana. Isso é, não creio que a eleição divina não tenha absolutamente nada a ver com o próprio eleito (nego calvinismo), mas também não creio que o critério da eleição seja a posterior livre aceitação da graça, isto é, não creio que o livre arbítrio condicione a eleição (nego arminianismo). Creio na eleição condicional, mas condicionada a motivos ocultos e não totalmente revelados, mas absolutamente santos e justos em si mesmos. O critério parcial não é o que há de bom, mas o que há de desprezível em nós (e.g. 1 Coríntios 1:26-28). Mas a origem última de tais critérios resta em Deus e provém de Deus, e não em nada que seja de nós mesmos, sendo completamente além do nosso poder e totalmente sujeitas à soberania de Deus. De qualquer maneira, as condições estipuladas por Deus nos são parcialmente ocultas (sabemos que tem como início, meio e fim sua própria Glória, mas não nos é revelado exatamente como; sabemos que são justas, mas não sabemos exatamente como).

Não creio na dupla predestinação, isto é, não creio que Deus haja predestinado alguns para a salvação e outros para a perdição. Creio que Deus haja predestinado um número desconhecido (que pode ser de alguns poucos tanto quanto toda a humanidade; Deus o sabe, e eu não) para a salvação, e sobre os demais que simplesmente não haja predestinado desta maneira. A condenação divina sobre estes se dá pelos seus próprios pecados; a culpa do pecado (e, consequentemente, o motivo da condenação) não é a ausência da eleição divina, mas a própria vontade do homem em pecar. Confesso não ter qualquer resposta para a questão do porquê de Deus não predestinar a todos mesmo desejando a salvação de todos (- sim, confesso que Deus deseja a salvação de todos -), mas reconheço também que tal paradoxo não se limita à eleição para a salvação: não sabemos porque Deus protege a um e deixa ao outro perecer. Meramente reconhecemos sua soberania e nos calamos.

Não creio em duas predestinações dispensacionais (uma de judeus e outra mista de judeus e gentios), mas em uma única predestinação, em que, no presente momento, os gentios tomam o lugar dos judeus, sendo enxertados na Oliveira de Deus.

Não elimino o paradoxo entre predestinação e livre arbítrio. Creio em e confesso a ambos. Creio, porém, que a predestinação se dá na esfera da ótica divina, isto é, na realdiade última de todas as coisas (ontologia), enquanto que o livre arbítrio se dá na percepção individual. Aqui, inverto a ordem kantiana (Kant colocava o livre arbítrio no noumeno e a determinação no fenômeno; faço o contrário).

Creio na distinção de Pedro Lombardo entre a suficiência do sacrifício e a eficiência. O sacrifício de Cristo é suficiente para todos (e, neste sentido, Cristo morreu por todos) e eficiente apenas para os eleitos (e, neste sentido, Cristo morreu pela Igreja). O efeito sacrifício de Cristo não é recebido em parte por cada um, mas completamente por cada crente (isto é, por cada eleito).

Não creio na 'perseverança dos santos' conforme o calvinismo. Creio, assim como Calvino e Agostinho, que toda a nossa perseverança procede de Deus, e não de nós mesmos, de modo que o perseverar ou não perseverar depende dEle. O motivo último pelo qual continuamos tendo fé e aperfeiçoando a santificação é a graça de Deus, e não nós mesmos. O fato de desejarmos a santificação procede da transformação operada pelo Espírito Santo: passamos a desejar o que é bom e continuamos a desejar o que é bom em virtude da graça de Deus. Portanto, toda perseverança é um dom de Deus.

Entretanto, concordando com Agostinho e discordando de Calvino, creio que aqueles que receberam a graça podem cair da graça inicial, enquanto outros podem receber o dom para continuar perseverando. Ou seja: todos os cristãos visíveis são escolhidos de Deus. Porém embora tal perseverança dependa ontologicamente da concessão de Deus (a quem Deus concede persevera, a quem Deus não concede não persevera), do ponto de vista humano depende de nossos próprios esforços e lutas (que, retornando ao ontológico, só existem porque Deus opera em nós 'tanto o querer quanto o efetuar'). Em segundo plano, tal perseverança deve ser pedida a Deus (e de fato é pedida, quando dizemos, conforme nos ensinou o Senhor, 'Não nos deixeis cair em tentação'). Se não perseveramos, nós mesmos somos os culpados (e não Deus), visto que por um lado não lhe pedimos forças para perseverar e por outro ativamente desejamos nos desviar dele; mas se perseveramos, Deus é o autor (e não nós), visto que apenas recebemos dele.

Afirmo, por fim, que devemos orar pela salvação dos outros (e por sua perseverança) indistintamente e pregar a o evangelho a todos indistintamente. Embora possamos reconhecer na Igreja os visivelmente eleitos, do ponto de vista humano todos podem ser salvos e ninguém está completamente. Mesmo aqueles que não estão interessados na salvação (e, na realidade, mesmo aqueles que estão completamente interessados na destruição do Evangelho, como foi o caso do apóstolo Paulo antes de sua conversão) são alvos da pregação do Evangelho. Sabemos aqueles que visivelmente são escolhidos de Deus, mas não sabemos por quanto temo tais escolhidos irão perseverar (e, assim, não sabemos quais escolhidos irão perseverar até o fim).

Ademais, confessor que para a conversão é absolutamente necessário que o Espírito Santo convença o homem de seus pecados e de sua necessidade de regeneração. Assim sendo, a conversão não é algo natural, não é algo que o homem possa desejar ou realizar de si mesmo, mas um acontecimento que tem origem no divino (ainda que se demore a frutificar ou aperfeiçoar no homem). Tal convencimento se dá, novamente, no plano ontológico. Na percepção humana, porém, a pregação do Evangelho envolve não apenas a apresentação do Evangelho, mas efetivamente também a persuasão, como repetidas vezes lemos nos Atos dos Apóstolos. Cabe ao pregador não apenas mostrar a mensagem, mas persuadir o ouvinte a respeito dela. Tal persuasão não opera o arrependimento (que é operado por Deus), mas dá margem para que tal arrependimento ocorra, isto é, coloca o ouvinte mais diretamente em contato com os seus próprios erros; não propõe promover o arrependimento, mas mostrar aquilo de que deve-se arrepender. O convencimento por parte do Espírito Santo e a persuasão por parte do pregador não estão em contradição, mas em paradoxo, que é exposto (mas não ainda resolvido) lembrando-se que o primeiro existe no plano ontológico último (isto é, na perspectiva de Deus), enquanto o segundo no plano fenomenal (isto é, na perspectiva do homem). Ocupam lugares distintos harmonicamente (ainda que com respeito a um mesmo objetivo), e não o mesmo lugar concorrentemente.


G. Montenegro.

2 comentários:

  1. Parabéns pela excelente explanação! foi o que de melhor achei na rede, apesar de, como vc falou, tratar-se de uma confissão e não de uma obra ou estudo exegético.

    Mas ainda tenho dúvidas em mim, mas como diz o Kim, da banda Catedral: "me sinto bem quando eu duvido... me sinto mal quando acredito sem pensar."

    Izaias Filho - izaiasmaf@hotmail.com

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