22/03/11

Dons Espirituais

Eu não sou cessacionista. Não sabia como começar este texto, então comecei assim. Não sou cessacionista. Não há qualquer texto bíblico ou indício de que os dons espirituais tenham cessado com a era apostólica ou com a formação do cânon bíblico. Nunca, em nenhum lugar, aparece tal sugestão.

Antes de mais nada, afirmo isso não por ser parte de algum grupo pentecostal. É verdade: sou pentecostal. E, entretanto, como se pode ver em diversas postagens anteriores, penso diferente da maioria dos pentecostais, e completamente diferente de todos os pentecostais com quem convivo. Pentecostais não acreditam em predestinação; eu sim. Pentecostais não são sacramentalistas; eu sim. Pentecostais não tem eclesiologia elevada; eu sim. Em todas as divergências em relação ao pentecostalismo, adotei esta ou aquela postura por acreditar estar seguido o que dizem as Escrituras contra toda a tradição humana (incluindo-se aqui a tradição batista herdada pelo grupo pentecostal em que fui 'gerado na fé'). E, neste ponto, não posso ser cessacionista.

Na realidade, toda a defesa do cessasionismo passa por exclusivamente UM texto bíblico, que, de fato, fala sobre o fim dos dons espirituais.

8 O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
(1 Coríntios 13:8-12)

O texto trata especificamente de três dons dentre nove a que o apóstolo se refere em 1 Coríntios 12:8-10: Profecia, línguas e ciência. Entretanto, não há qualquer conexão no texto entre o cessar de tais dons e o fim da era apostólica ou a formação do cânon bíblico, como alegam cessacionistas. Ou seja, esse texto isolado só pode significar aquilo que os cessa

Mas, na realidade, tal conexão é logicamente impossível. O motivo é bastante simples: todos esperavam estar vivos quando da segunda vinda de Jesus, a parusia, e isto inclui, inicialmente, os apóstolos.

Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. (1 Tessalonicenses 4:15)

Cf. 1 Coríntios 1:7. Se o texto de 1 Coríntios 13 fosse interpretado como indicando como fim dos dons o término da era apostólica, então, na realidade, todos saberiam que Jesus só poderia voltar quando os apóstolos morressem. Mas sabemos que isso é falso.

Tudo o que o v. 8 do texto de 1 Coríntios 13 nos diz é que tais dons cessariam; não nos dizem quando. Mas os versículos 10 e 12 nos fornecem uma indicação: cessariam quando aquilo que é perfeito vier a substituir aquilo que é em parte. Segundo tais cessacionistas, tal 'perfeito' seria a Bíblia. Entretanto, o texto em si não faz tal sugestão. Trata-se, portanto, de uma interpretação particular de tal profecia. Ademais, a declaração 'conhecerei como também sou conhecido' não se torna verdadeira com a formação do cânone bíblico. Primeiro porque tal fechamento se deu após a morte do apóstolo Paulo, e, portanto, ele não poderia experimentar tal 'conhecimento' (isto é, conhecer como é conhecido). Segundo porque mesmo com o fechamento do cânone bíblico, os crentes não 'conhecem como são conhecidos': há diversos mistérios sobre Deus que não foram revelados na Bíblia, assim como o fato de estarem revelados na Bíblia não nos garantem o nosso pleno conhecimento.

Mas o argumento tortuoso dos cessacionistas ainda cai em outro erro. Qual foi o último livro a figurar no cânon do novo testamento? O Apocalipse de João. O que é o livro de Apocalipse? Um livro de profecia (Apocalipse 22:7,10,18). Portanto, a próxima existência do livro de João depende da continuidade da profecia. O sentido dos vv. 8-9 se perde completamente se aquilo que é perfeito for exatamente aquilo que há em parte.

Em segundo lugar, o dom de profecia não está diretamente ligado ao cânon. O profeta Ágabo (um 'mero' profeta, em não um apóstolo) aparece por duas vezes no livro de Atos: na primeira, profetiza uma fome que haveria de acontecer (Atos 11:28); na segunda, profetiza sobre as aflições que o apóstolo Paulo haveria de sofrer (Atos 21:10,11). Tais profecias não tem qualquer relação com a progressão da doutrina; dizem respeito a problemas enfrentados pelos crentes, que estão diretamente relacionados a problemas que os crentes também enfrentam e sempre enfrentarão.


G. Montenegro.



PS: O fato de não ser cessacionista não significa nem um pouco que eu concorde com a prática dos dons conforme é veiculada pelos grandes ministérios pentecostais. Há sim muito desvio, muita enganação e muita distorção.

22 comentários:

  1. Seja bem-vindo ao UBE. Gostaria de ser seu amigo.Pode acompanhar as minhas notícias e se tornar membro do meu blog no:
    http://radiopentecostal.blogspot.com/

    Qualquer coisa estamos por aí.

    Marivan.

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  2. Poderia criar um post sobre abusos que considera no campo dos dons espirituais?

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  3. Olá !!! Gostei de seu blog e suas postagens. Percebi que temos visoes semelhantes e, atualmente me envolvi nesta questao em relaçao aos dons espirituais e o fechamento do cânon.

    tenho um blog. PALAVRA A SÉRIO

    http://palavraserio.blogspot.com/

    gostaria que voce estivesse nele. Será uma honra em te-lo lá. O Palavra a sério é um blog com apenas dois meses de vida e, estamos indo já para 5.000 acessos e 36 seguidores.

    CONFIRA !!!!!!!!

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  4. Gyordano,

    Então o ofício de profeta referido em Ef 2:20 como sendo dado (junto com o ofício apostólico) para fundar a Igreja se referiria à profecia com o objetivo de progressão da doutrina?

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    1. De modo algum. O propósito da profecia neotestamentária não é a progressão da doutrina, mas "edificação, exortação e consolação" (1 Coríntios 14:3).

      De fato, tal dom era concedido por Deus a pessoas sem qualquer posição oficial na Igreja, de modo que não seriam capazes de representar a "progressão na doutrina", como as filhas de Felipe (Atos 20:8,9).

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    2. Nesse caso, onde se encaixaria o Apocalipse? E quanto à revelação do mistério da salvação dos gentios, que, segundo Paulo, foi dado tb aos profetas (Ef. 3:5)?

      Parece-me que há dois tipos de profecia no NT: uma com o objetivo de revelação da doutrina e outra para a condução da vida do crente, para "edificação, exortação e consolação", como vc citou. No primeiro caso, a profecia cessou. No segundo, não.

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    3. A profecia do livro do Apocalipse não se encaixa em lugar algum, porque não faz parte dos dons carismáticos. Trata-se de uma autêntica revelação.

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  5. "quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado."

    Creio que Paulo está se referindo ao momento em que o reino de Deus for estabelecido. Num dado momento histórico onde constataremos o que foram previamente conferido por Paulo em I Cor 15:55-57: "Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão?".

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    1. O Sr. está correto, exceto em um ponto: não se trata do momento em que o Reino de Deus será estabelecido, mas sim entregue (1 Coríntios 15:24-26).

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  6. Sr. Gyordano Paulo diz para procurar com zelo os melhores dons e ele mostrara uma caminho ainda mais excelente(1Cor.12:31), qual a interpretação desse verso? e no capitlulo 14:39 como procurar com zelo o profetizar?

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    1. O caminho mais excelente é o do capítulo 13.

      Procurar profetizar com zelo quer dizer, em primeiro lugar, que se deve pedir a Deus o profetizar, e em segundo lugar, que deve-se profetizar criteriosamente, julgando as profecias.

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  7. Como pode a pessoa profetizar e ela mesma julgar criteriosamente a profecia ? Exortar, edificar e consolar, quais são as definições bíblicas para esses três tipos de julgamento?

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    1. O julgamento da profecia é feito pelos demais (1 Coríntios 14:29). Os dons espirituais pertencem à Igreja, não aos indivíduos.

      Exortar, edificar e consolar não são julgamentos.

      Edificação é a promoção do crescimento espiritual. Exortação é encorajamento. Consolação é conforto.

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  8. Bom dia Sr. Gyordano, Paulo fala aos Romanos que os dons e a vocação são sem arrependimento (Rm 11:29) o que significa isso?

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  9. Não entendi ... Deus não se arrepende do que? De derramar os dons e a vocação? Mas se a pessoa não faz o uso correto desses?

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    1. 21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

      22 Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

      23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.

      (Mateus 7:21-23)

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  10. Prezado amigo Gyordano! Primeiramente, faço-me grato pela resposta em questionamento anterior. Procurei estudar, pela graça de Deus, as referências em Gálatas, nesse fim de semana. E, também pela graça de Deus, minha interpretação foi em comum com a sua (citada em outro artigo).

    Por algum tempo me veio à mente, em um pedido de auxilio ao Pai (concernente às dúvidas constantes em mim) a mensagem clara de ler/compreender 1 Coríntios 14.

    A cerca disto, o que seria o "Dom de línguas"? A falácia/discurso incompreensível (ou seja, sem qualquer tradução ou aproximação com qualquer idioma legível e entendível - ou como se refere: "com sentido")? Ou a capacidade (pela graça de Deus) de evangelizar em locais de línguas distintas das nossas nativas (ou seja, "com sentido")?

    Mais uma vez, faço-me grato pela gentileza.

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    1. No Novo Testamento, o falar em línguas é apresentado de dois modos: línguas inteligíveis (como em Atos 2) e línguas que só são entendidas por Deus (I Coríntios 14). Mesmo essas línguas que são entendidas apenas por Deus podem ser interpretadas através do dom específico, pedido a Deus.

      Nas Escrituras, o dom de línguas nunca é usado intencionalmente com o propósito de evangelizar.

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  11. Entendo o ponto que abordou e tenho certeza que compreende as Escrituras muito melhor do que eu. Mas, assumo não conseguir ver distinção entre as línguas citadas em Atos 2 e 1 Coríntios 14. Pois, ao ver :

    9. "Assim acontece com vocês. Se não proferirem palavras compreensíveis com a língua, como alguém saberá o que está sendo dito? Vocês estarão simplesmente falando ao ar.
    10. Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido.
    11. Portanto, se eu não entender o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim."

    e:

    18. Dou graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vocês.
    19. Todavia, na igreja prefiro falar cinco palavras compreensíveis para instruir os outros a falar dez mil palavras em língua.

    e:

    21. Pois está escrito na Lei: "Por meio de homens de outras línguas e por meio de lábios de estrangeiros falarei a este povo, mas, mesmo assim, eles não me ouvirão", diz o Senhor."

    Não quero que soe por duvidar de sua verdade, não é isso. Só não consigo ver como coisas distintas, mas como o mesmo dom. Ou seja, Deus, nos concede pela Sua graça, dons espirituais, dentre estes, o dom de línguas (línguas estrangeiras e compreensíveis = idiomas - afinal, "1 Coríntios 14:10: Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido".).

    Sempre grato, mais uma vez.

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    1. I CORÍNTIOS 14
      2 Pois quem fala em língua NÃO FALA AOS HOMENS, mas a Deus. De fato, NINGUÉM O ENTENDE; em espírito fala mistérios.
      3 Mas quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens.
      4 Quem fala em língua A SI MESMO SE EDIFICA, mas quem profetiza edifica a igreja.

      Segundo o texto: quem fala em línguas: 1. não fala a nenhum ser humano; 2. fala unicamente a Deus; 3. edifica-se a si mesmo.

      Os trechos do mesmo capítulo citados pelo Sr. não dizem que as línguas faladas como dom SÃO ENTENDIDAS, mas sim que elas DEVEM SER ENTENDIDAS, isto é, deve-se orar para que haja interpretação. Se não houver interpretação, cada um deve orar em línguas de maneira particular.

      Isso porque o propósito do dom de línguas é orar (1Co 14:15). Se esse é o propósito, não faz diferença nenhuma o entendimento das línguas, quando a oração é particular. Mas quando a oração é parte do culto comum e não há interpretação, causa-se a confusão que havia na igreja de Corinto.

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  12. De fato! Mas pensemos: Se eu falo em línguas estranhas (idiomas estrangeiros), Deus, que pela Sua graça foi quem me concedeu o dom, compreenderá, mas aos homens não. Ninguém, de fato, entenderá! Apenas Deus. Vejo algumas igrejas colocando como o "Dom de línguas" um falatório embolado e sem sentido algum, no meio da própria pregação. Algum tipo de língua embolada, sem sentido até mesmo para quem o fala.
    Pensemos também: Se Paulo quisesse falar que o dom de línguas fosse algo diferente do dom que Deus concede de falarmos outras línguas (idiomas estrangeiros), por que ele citaria o versículo 10 de 1 Coríntios 14, e ainda complementaria com o versículo 21 que traz à tona as Escrituras?
    De fato, não cita-se que são entendidas, mas que devem ser ententidas/interpretadas. Mas isso não diz que não línguas existentes.
    Espero não estar transparecendo impertinência. É apenas algo que de certo modo busco compreender.

    Obrigado pela paciência.

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