12/02/11

Sobre o Batismo

Há um tempo atrás escrevi o artigo 'Por uma Teologia Sacramental Bíblica', em que enfatizo o caráter sacramental do batismo. Entretanto, há alguns pontos aos quais se faz necessário salientar.

Naquele tópico, as teses (acompanhadas de suas devidas fundamentações) sobre o batismo foram, em suma, as seguintes:

  1. O batismo é o meio de incorporação à Igreja de Jesus Cristo.
  2. O batismo liga o cristão à morte e ressurreição de Jesus, por meio dos quais ele se
  3. O batismo traz a remissão dos pecados.


Acredito que o texto que segue deve trazer uma luz sobre esses pontos.

Embora muitos cristãos acreditem que o batismo seja uma prática exclusiva de sua religião, também ocorre batismo no judaísmo e mandeísmo. Na realidade, o batismo cristão é um resíduo de uma prática muito mais ampla que se origina no judaísmo. É necessário observar que quando nós cristãos nos referimos a “batismo”, geralmente tratamos do rito cristão de batismo, que difere do rito judaico e do rito mandeu.

A palavra “batismo” em si não era diretamente ligada ao ato do batismo antes de João Batista, sendo utilizada anteriormente com diversos sentidos (imergir, banhar ou diversos sentidos metafóricos). Entretanto, a prática do batismo antecede a João e se origina, em certo grau, nas determinações da Torá sobre a purificação do corpo. Determina a Lei que o povo judeu deveria praticar certos banhos para purificação da carne devido à imundícia ritual (contato com corpos mortos). Podemos citar Êxodo 29:4; Levítico 14:8,9; 15:5-27; 16:4,23-28; 17:15,16; 22:6; Números 8:7; 19:7,8,12,19,21; 31:23; Deuteronômio 23:11. Daí o judaísmo pratica tais banhos até hoje, aos quais chama mikveh.

Há três coisas importantes a se dizer sobre o mikveh. A primeira delas é que ele é praticado também quando um gentio (considerado impuro) é convertido ao judaísmo. A segunda delas é que, nessa situação, tal gentio é considerado como tendo uma nova vida, como uma criança recém-nascida. A terceira é que o mikveh é praticado diversas vezes em diversas situações, enquanto o batismo cristão só é realizado uma vez.

Embora a partir de João Batista (conforme retratado nos Evangelhos, de família sacerdotal) vejamos se consagrar o uso da palavra “batismo”, diversos grupos na época também praticavam o batismo.

Segundo Josefo (Guerra dos Judeus, 2.137-142), aqueles que se convertiam à seita dos essênios (uma seita menor do judaísmo na época de Jesus) não praticavam nenhum rito iniciatório imediato. Ele deveria passar um ano fora da seita, em observação; após isso, deveria participar de um banho de purificação; e, após isso, sendo testado por mais dois anos, poderia entrar na comunidade. Ou seja: embora os essênios fossem parte do povo judeu, seria necessária tal purificação para que eles pudessem participar de tal seita. Era parte concreta do processo de conversão.

Os Essênios de quem fala Josefo são costumeiramente identificados com a seita de Qumran (aquela responsável pelos Manuscritos do Mar Morto). Na chamada Regra da Comunidade (1QS) o batismo é precedido pelo arrependimento (5:13-14) e ligado diretamente ao perdão de pecados (3.6-12). A associação do batismo ao arrependimento e perdão dos pecados é igualmente encontrada em João Batista e na pregação cristã (Mateus 3:11; Marcos 1:4; Lucas 33:3; Atos 2:38; 3:19; 22:16)

Na realidade, a época a que nos referimos (a do essenismo, dos manuscritos do mar morto, de João Batista, de Jesus e do cristianismo primevo) é uma de grande ebulição escatológica, embora aqui 'escatologia' não signifique aquilo que popularmente se expõe. Esperava-se a todo momento o aparecimento do Reino de Deus para livrar o povo judeu de todas as forças que o oprimiam (personificadas no Império Romano). Diversas seitas surgiam inspiradas nessa esperança, e diante dessa esperança havia uma mais profunda busca pela santificação à luz da Torá; práticas como purificação, jejuns, orações e diversos rituais eram sempre vistas à luz deste fervor escatológico, como uma forma de preparação para irrupção do Reino de Deus. Textos como Isaías 1:16; Ezequiel 36:25 (cf. 16:9); Zacarias 13:1 mostravam que o agir escatológico divino incluiria a purificação do seu próprio povo e como isso estaria ligado a “água” (que, ainda que simbólica em tais textos, se substanciava no ato concreto do batismo).

Há conexão real entre os banhos rituais e o batismo cristão? Há principalmente duas.

A primeira delas é Hebreus 9:10 conecta tais práticas de banhos de purificação ritual da Torá ao Batismo cristão pelo uso linguístico. Esse texto utiliza a expressão βαπτισμοῖς (batismos), ao que a versão Almeida Corrigida e Fiel traduz como “abluções”. Tal uso linguístico comprova que uma mesma categoria se aplica tanto à prática judaica quanto à cristã, evidenciando a derivação de uma à outra.

A segunda evidência é o texto de João 3:25,26.

25 Houve então uma questão entre os discípulos de João e os judeus acerca da purificação (καθαρισμοῦ).
26 E foram ter com João, e disseram-lhe: Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando, e todos vão ter com ele.
(João 3:25,26)

Tanto o contexto anterior (vv. 22,23) quanto o posterior (v. 26) tratam do batismo. A ambos os textos há conexão por conjunção (οὖν, καί). Purificação é o mesmo conceito empregado nos textos citados da Lei. Embora o batismo cristão não diga mais respeito à purificação da imundícia da carne (1 Pedro 3:21), não se trata de uma oposição ao banho judaico, mas uma ressignificação sua.

Dito isto, há alguns textos em que é necessário tratar.

O primeiro deles é Efésios 5:25,26, que diz:

25 Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela,
26 Para a santificar, purificando-a (καθαρίσας) com a lavagem (λουτρῷ) da água, pela palavra,
(Efésios 5:25,26)

Em primeira olhada, o texto parece indicar que o significado do versículo 26 é de que a Palavra de Deus é o veículo da purificação, por meio do qual Cristo traz a santificação à sua esposa, a Igreja. Interpreta-se a purificação como sendo puramente espiritual.
Na realidade, tal interpretação não está incorreta. Entretanto, não pode ser absolutizada. Um dos grandes erros de interpretação das Escrituras é sempre supor que uma interpretação figurativa e uma literal estão em oposição. Na realidade, muitas vezes a interpretação literal é uma concretização da figura. Em Ezequiel 16:9, claramente aparece figurativamente o banho ritual; entretanto, tal figura só é possível porque os judeus praticavam o banho ritual de fato. A literalidade e a figura manteriam relação direta.

O que quero dizer é que o significado de Efésios 5:26 não é o mesmo de João 15:3. “Pela palavra” (ἐν ῥήματι) não significa necessariamente aquilo que parece significar em português. Há duas expressões gregas que podemos traduzir por “palavra”: LOGOS (λόγος) e RHMA (ῥῆμα), embora em sentidos distintos. Enquanto LOGOS (primariamente) é o próprio discurso, isto é, aquilo que é falado, o assunto tratado, RHMA são as próprias palavras, os sons e as frases.

Dentre as duas, a que aparece em Efésios 5:26 é RHMA (diferente de João 15:3, em que é LOGOS). Embora em alguns contextos essa expressão grega possa se referir à palavra de Deus (a exemplo de Mateus 4:4), ela nunca aparece isoladamente com esse sentido, isto é, RHMA nunca significa “a palavra de Deus” quando o texto não diz isso explicitamente. A expressão utilizada é sempre LOGOS.

Seguem os pontos em que “a palavra” aparece isoladamente, isto é, sem algum complemento que a identifique, como, por exemplo, “a palavra de Deus”, “a palavra de Cristo”, “a palavra de verdade” e equivalentes.

Mateus 13:20-23*; Marcos 2:2; 4:14-20; 16:20**; Lucas 1:2; 8:12-15*; Atos 4:4; 6:4; 8:4,21; 10:44; 11:19; 14:25; 16:6; 17:11; 1 Coríntios 1:5; 2 Coríntios 8:7; Gálatas 6:6; Efésios 6:19; Filipenses 1:14; Colossenses 4:3; 1 Tessalonicenses 1:6; 1 Timóteo 6:17; 2 Timóteo 4:2; Tito 1:3,9; 3:8; Tiago 1:22; 1 Pedro 2:8.

Ou seja: RHMA nunca aparece isoladamente significando “o Evangelho”. É sempre LOGOS, e isso em diversos textos bíblicos, de diversos autores e em diversas situações geográficas. Ademais, a total ausência do artigo antecedendo o substantivo indica não se tratar de uma construção especial, de uma RHMA distinta das demais.

* Os textos de Mateus 13:20-23 e Lucas 8:12-15 são importantes, porque demonstram a pragmática geral de transpor “a palavra de Deus” (ou semelhante) para “a palavra”, utilizando-se LOGOS.

** Embora o trecho de Marcos 16:20 não conste dos manuscritos mais antigos do Novo Testamento, o presente uso desde versículo independe disso, já que visa demonstrar apenas o uso linguístico.

ἐν ῥήματι pode significar “com uma palavra”, “por uma palavra”. Ademais, as expressões utilizadas no texto são as mesmas que se utiliza em relação ao batismo (καθαρίσας, λουτρῷ). Tanto os verbos ἁγιάζω (santificar) quanto καθαρίζω (purificar) aparecem no aoristo, tempo verbal inexistente no português, mas que indica uma ação isolada no tempo, e não um processo. Portanto, fala-se da Igreja como santificada e purificada em uma ação. Veja-se que o texto fala da Igreja como um todo e não de cada crente individualmente; ela é o macrocosmo da regeneração espiritual que se reflete no microcosmo da individualidade através do ato batismal.

Portanto, estou convencido de que o significado do texto não é o de que a Palavra produz tal santificação e purificação (embora de fato produza; apenas não é esse o significado desse texto), mas sim de que santificação deseja é produzida pela purificação (já ocorrida – uma vez no tempo) 'com uma palavra'. Isso se encaixa completamente no rito batismal cristão que pronuncia a fórmula 'Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo', interpretação que encontramos, por exemplo, em João Crisóstomo.

Linguagem semelhante aparece em:


E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados (ἀπελούσασθε, aoristo), mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.”
(1 Coríntios 6:11)

Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem (λουτροῦ) da regeneração (παλιγγενεσίας)* e da renovação do Espírito Santo,”
(Tito 3:5)

Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado (λελουσμένοι) com água limpa (ὕδατι καθαρῷ),
(Hebreus 10:22)

Vistas à luz do fervor escatológico do judaísmo antigo contemporâneo a Jesus, tais passagens bíblicas demonstram a contexão entre o batismo o agir salvífico, o agir escatológico (παλιγγενεσίας também em Mateus 19:28) e o agir purificador. O mesmo campo semântico perpassa tais textos e se integra perfeitamente ao modo como apareciam tanto na Torá quanto no judaísmo antigo (essênios, manuscritos do mar morto, etc). Em um protestantismo anti-sacramentalista como o contemporâneo, mas o movimento cristão não surgiu em meio ao anti-sacramentalismo, mas em meio à esperança do Reino de Deus e em preparação para ele. A ênfase cristã se dá no carater cristocêntrico da prática (como na maioria dos textos citados tanto aqui quanto no supracitado texto sobre teologia sacramental): é um ato exterior por onde Cristo (e não o ministro) produz a salvação no crente. Não há como opor a “salvação apenas por Cristo” (Solo Christo) à “salvação através do batismo”: em 1 Pedro 3:20,21 ambas as ideias estão em perfeita conformação (“...vos salva, o batismo … pela ressurreição de Jesus Cristo”). Cristo está sempre no centro; discutimos apenas o meio da graça, não a natureza da própria graça.

Um aspecto importante a ser discutido é a questão do “nascer de novo”, “nascer da água e do Espírito” (João 3:3-7). A pregação pós-avivalista fez do 'nascer de novo' um sinônimo para o processo espiritual que segue a verdadeira conversão ao Evangelho. Entretanto, como vimos, o mikveh de onde se origina o batismo traz em si a noção (quando da conversão) de uma nova vida. Ademais, diversos textos, como Romanos 6:3-7; Colossenses 2:12; Tito 3:5; 1 Pedro 3:21, tratam da associação entre o batismo e a nova vida. Embora de fato não se possa negar a necessidade de uma conversão verdadeira, fundada no arrependimento sincero, utilizar-se da expressão “nascer de novo” em relação a tal batismo seria uma impropriedade exegética.

Entretanto, a linguagem do renascer não é universalmente aplicada ao batismo. Um texto de contraprova é 1 João 5:1, em que se diz que “todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus”, a mesma linguagem ecoando em João 1:13. Também Tiago 1:18 e 1 Pedro 1:23 falam da Palavra de Deus (LOGOS) como o meio do nascer de novo. Como conciliar?

Em primeiro lugar, é preciso que se note que o autor do Evangelho de João e das três Epístolas de João utiliza uma linguagem muito diferente da dos demais textos do Novo Testamento. A construção gramatical grega empregada em 1 João 5:1 (πᾶς + particípio articulado + ἐκ + genitivo + γεγέννηται) aparece em três textos:

"...todo aquele que pratica a justiça é nascido dele."
(1 João 2:29)
πᾶς ὁ ποιῶν τὴν δικαιοσύνην ἐξ αὐτοῦ γεγέννηται


"...e qualquer que ama é nascido de Deus..."
(1 João 4:7)
πᾶς ὁ ἀγαπῶν ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται


"Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus;..."
(1 João 5:1)
πᾶς ὁ πιστεύων ὅτι Ἰησοῦς ἐστιν ὁ Χριστὸς ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται

Uma leitura apressada do texto de 1 João 5:1a pareceria indicar que o único requisito para ser nascido de novo é crer que Jesus é o Messias. Entretanto, também o praticar a justiça e o amar estão aí incluídos. Na realidade, tais textos não falam exatamente dos requisitos para ser nascido de Deus, mas sim de características esperadas; não se trata de causação, mas de identificação. Portanto, o texto não pode ser absolutizado.

Em segundo lugar (e isso se aplica também a Tiago 1:18 e 1 Pedro 1:23), de fato se fala na regeneração como trazida pela palavra. Não há como discordar. Entretanto, a Palavra de Deus é uma realidade viva, que se concretiza em diversos atos. Dentre eles o sacramento do batismo.


G. Montenegro.

2 comentários:

  1. Irmão Montenegro,o Batismo é para a Salvação?é o BATISMO que nos ligar a Jesus?eu pergunto por isso porque muitos Evangélicos dizem que isso é errado,dizem que bastar crer para ser Salvo.dize que crer que o Batismo é para o perdão de pecados e para salvação é errado,dizem que isso tornar o Batismo uma Obra e eles dizem que Obras Não salvam e que só a fé em Cristo salva!
    Poderia me explicar isso?ficarei grato!

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    1. 1. Batismo é para a salvação (1 Pedro 3:21).

      2. Não é o batismo o que nos liga a Jesus. Quem nos liga a Jesus é Deus Pai (João 6:37). Deus nos liga a Cristo pela fé e pelo batismo, por isso podemos dizer "a fé nos liga a Cristo" ou "o batismo nos liga a Cristo", mas não podemos dizer "é a fé que nos liga a Cristo" (em oposição ao batismo) ou "é o batismo que nos liga a Cristo" (em oposição à fé). As duas coisas andam juntas (Colossenses 2:12).

      3. Basta crer para ser salvo (isto é, receber a salvação inicial). Entretanto, necessitamos da graça de Deus para chegarmos ao fim da jornada, e o batismo (assim como a oração e a comunhão) é um dos meios pelos quais Deus nos dá graça para a caminhada, para que cheguemos ao fim dela. A salvação inicial (conversão) é diferente da salvação final (glorificação).

      4. O batismo é para perdão de pecados (Atos 2:38), assim como crer é para perdão de pecados (Atos 10:43). Uma coisa não exclui a outra.

      5. Não faz diferença se o batismo é uma obra ou não. No batismo há uma promessa de Deus, é isso que importa.

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