08/02/11

Rudimentos de Eclesiologia - Parte III

Um dos problemas da interpretação do significado da “igreja” é a concepção platonizada de uma igreja 'invisível'. Como sabemos, no pensamento platônico há um corte essencial entre a experiência fenomenal e a realidade ôntica última, de modo que aquilo que se vê é meramente uma representação fragmentária de uma ideia transcendente e perfeita. A platonização da eclesiologia (da qual Lutero foi justamente acusado) cria um corte entre as igrejas como as vemos (em sua multiplicidade, imperfeição, incompletude) e a Igreja, como ela deveria ser (e como se espera que seja, um dia). Desse modo, não todos aqueles que se dizem cristãos realmente o são.
O problema centra dessa platonização é que ela deshistoriza a Igreja. Substitui-se o conceito medieval de igreja militante e igreja triunfante (historizado: a igreja militante é a igreja do presente, enquanto a triunfante, a do futuro), por uma igreja “de baixo” (visível, mas aparente) e uma igreja “de cima” (invisível, mas real). Enquanto na relação original havia um progresso (ainda que miraculoso) entre uma e outra, na concepção de igreja invisível há um abismo.
Na realidade, pode-se chegar de muitas maneiras a crer em uma Igreja invisível. Uma delas é o dogma calvinista da “Perseverança dos Santos”, segundo o qual todos os eleitos serão absolutamente preservados até o fim e necessariamente perseverarão para a Salvação. Se a Igreja invisível é composta apenas dos verdadeiros santos, nenhum cristão é capaz de saber se outro (ou ele mesmo) é parte dela. Diante de perseveranças frustradas (isto é, diante dos cristãos confessantes que deixam a fé, apostatam, etc), a eclesiologia tende ir de uma igreja visível a uma invisível. O predestinarianismo também é fonte do mesmo dogma para Wycliffe, que é o grande responsável pela terminologia da igreja “invisível”. Os reformadores, de modo geral, endossaram tal perspectiva, de modo que a temos por herança.
Tal doutrina padece de um platonismo incurável. É, de fato, curioso que a doutrina da predestinação do platonista Agostinho não sofra dessa mácula. Como Agostinho não acreditava na 'perseverança dos santos' do Calvinismo (acreditava, sim, que toda perseverança depende do decreto divino – mas não acreditava que a perseverança é concedida a todos os eleitos), podia prontamente crer que todos os seus contemporâneos que se diziam cristãos realmente o eram. Assim, não havia distinção (ao menos não no modo que se concebe hoje) entre a Igreja visível e a invisível.
Mas o calvinismo (ou, mais amplamente, o predestinarianismo, seja calvinista ou não) não é a única fonte de tal doutrina. Semelhantemente no arminianismo (ou, mais amplamente, o sinergismo), a doutrina da igreja invisível pode tomar a forma de rigorismo donatista: só seria parte da Igreja aquele que está em santificação (na forma como o arminianismo a concebe). Tal rigorismo é induzido ao mesmo erro que a divisão predestinária platônica. Enquanto sabemos que Cristo prepara para si uma Igreja perfeita e sem qualquer falha (Efésios 5:27), tal não é a definição da Igreja, mas o seu telos, o seu fim-meta, que alcançará pela graça de Deus.
Que problemas tal 'eclesiologia platônica' causa?
Primeiramente, destrói o sacramento do Batismo, o qual, como já visto em outro artigo, é o meio pelo qual o indivíduo é trazido ao Corpo de Cristo.
Em segundo lugar, destrói a autoridade visível e o seu poder disciplinatório. Se a Igreja é 'invisível', toda autoridade passa a ser humanizada, visto não se poder saber, a priori, se determinado lider é ou não parte da Igreja. Caótico, de fato.
Mas um dos maiores problemas é que tal doutrina é um dos maiores empecilhos para a unidade cristã. Enquanto os cristãos protestantes continuarem pensando que são todos parte de uma Igreja invisível que é una (a despeito de suas diferenças), em nada contribuirão para a unidade da Igreja visível.

G. Montenegro.

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