02/02/11

Rudimentos de Eclesiologia - Parte II

Não é suficiente dizer aquilo que a Igreja é. Precisamos tratar ainda daquilo que ela não é. Enquanto está absolutamente correto dizer (a) "nós, os cristãos, somos a Igreja", comete um erro tanto etimológico quanto exegético quem afirma (b) "a Igreja sou eu" ou (c) "cada um de nós é a Igreja". Mas é muito comum que quem diz a queira, com isso, dizer b ou c, mesmo que veladamente.

Como um resultado do "Iluminismo" (que a nada iluminou, antes obscureceu), nosso tempo é extremamente individualista. Quando lemos "nós", na realidade lemos "cada um de nós, individualmente", e não "todos nós, como um só". Não somos mais capazes de compreender a comunhão (e, por isso, não somos mais capazes de compreender o significado da Igreja). O efeito disso, quando penetra na pregação do Evangelho, é devastador. Pensamos que somos capazes de trilhar o caminho de Deus sozinhos. Eis o nosso pecado, nossa arrogância. "É entre mim e Deus" é um dos sintomas desta patologia, deste câncer.

No Novo Testamento, a palavra 'Igreja' (com respeito à Igreja Cristã) é empregada em dois sentidos alternadamente, ora denotando a totalidade do povo de Deus em Cristo, ora uma comunidade particular sob uma delimitação geográfica (a Igreja de Corinto, a Igreja de Filipos, etc). Ou seja: um sentido geral (a Igreja) e um sentido particular (uma igreja), sendo o particular sempre uma partição do geral.

Entretanto, aparece algo interessante na linguagem do Novo Testamento. A palavra "Igreja" designa os cristãos (seja em sua totalidade, seja em uma localidade) em um propósito específico, que é o cúltico. Assim como é correto dizer "nós somos a Igreja", também é dizer "nós vamos à igreja". Na realidade, o fato de que os cristãos se reúnam liturgicamente em um lugar para celebração do Senhor faz com que não apenas o grupo de pessoas, mas a reunião de per si seja chamada "igreja".

Compare-se, por exemplo, em Atos 11:26; Romanos 16:5; 1 Coríntios 11:18; 14:19,23,28,35; 16:19; Colossenses 4:15; Filemom 2. Alguns desses exemplos são muito interessantes porque, mostrando que os cristãos se reuniam em suas casas (isto é, a imitação do modelo sinagogal ainda não se cristalizara), evidenciam, porém, duas coisas: a primeira, que a própria reunião litúrgica (e não apenas aqueles que se reúnem) era chamada de "Igreja" (o que era o sentido mais próprio da palavra 'igreja', que designa a congregação como um todo); a segunda, que havia um lugar específico (tal casa, e não outra) para tal reunião. O significado da Igreja só se completa em tal reunião (somente assim a palavra "igreja" faz jus à sua etimologia).

Na realidade, em um certo sentido, somente em tal reunião a Igreja tem seu ser. Levando adiante a metáfora da Igreja como 'Corpo de Cristo' (Colossenses 1:24), a associação que o apóstolo Paulo faz entre a comunhão com Cristo e a comunhão com a Igreja (indivisas em 1 Coríntios 10:16,17, "...todos somos um só corpo, porque participamos de um mesmo pão."). Na literalidade de tais palavras, celebração da Ceia do Senhor é o que faz com que sejamos um só corpo.

G. Montenegro.

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