15/02/11

Purgatório em 1 Coríntios 3?

Um dos textos classicamente utilizados por católicos romanos em defesa do dogma do Purgatório é o capítulo 3 da 1ª cara aos Coríntios, mais especificamente o trecho dos versículos 11 a 15. Para entender tal passagem bíblica é necessário ter em mente, em primeiro lugar, um pouco a situação em que Paulo escreve a 1ª carta aos Coríntios. Na realidade, a 1ª carta aos Coríntios que temos em nossas bíblias não é a primeira carta que o apóstolo escreve àquela igreja (cf. 1 Coríntios 5:9). Trata-se de uma igreja extremamente problemática no ministério do apóstolo, uma que lhe trazia ao mesmo tempo diversas alegrias e preocupações.

Uma das dificuldades (na realidade, a primeira da epístola) tratadas por Paulo na carta é o das divisões surgidas no seio daquela igreja. No texto de 1 Coríntios 1:10-16, o apóstolo trata exatamente disso, visto que os coríntios observavam mais os pregadores da palavra que à mensagem pregada, dividindo-se em razão disso; isso leva Paulo naturalmente a tratar (metadiscursivamente, é claro) do tema de sua pregação até o fim do capítulo e no seguinte, concluindo ser tal pregação espiritual, e, por isso mesmo, loucura. Porém (e aqui inicia-se o capítulo 3), os próprios coríntios não eram espirituais: a presença de dissenções era uma evidência disso (1 Coríntios 3:1-4). Daí seguimos à próxima secção, a qual se apresenta a seguir:

5 Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?
6 Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.
7 Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.
8 Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão (μισθὸν) segundo o seu trabalho.
9 Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício (οἰκοδομή) de Deus.
10 Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica (ἐποικοδομεῖ) sobre ele; mas veja cada um como edifica (ἐποικοδομεῖ) sobre ele.
(1 Coríntios 3:5-10)

No texto o apóstolo utiliza duas metáforas em referência ao seu apostolado na Igreja, assim como dos demais (v. 9): a da lavoura (vv. 6-9) e a do edifício (vv. 9-13). Ambas metáforas são respostas à pergunta retórica “quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros...?”. Perceba-se, porém, que em ambas as metáforas a Igreja é o objeto do trabalho (lavoura, edifício) e não o trabalhador, se confiando a tal trabalhador uma recompensa (vv. 8,14) conforme sua obra. Na primeira metáfora, Paulo planta e Apolo rega. Na segunda, Paulo lança o fundamento e alguém (Apolo, por correspondência) edifica. Embora a segunda metáfora seja mais ampla com respeito ao segundo trabalhador, ainda assim a própria igreja é a obra em si. Isso é muito importante por dois motivos: o primeiro é o de que apenas assim tais figuras podem ser uma resposta à questão de Paulo; o segundo é o de que assim se esclarece o texto em questão.

Os versículos finais do capítulo (vv. 16-23) reconectam as duas ideias já apresentadas: a da loucura da pregação e a de que não deve haver dissensões, novamente no contexto apostólico (Paulo, Apolo, Cefas, em 3:22 assim como em 1:12). Também o contexto posterior, 1 Coríntios 4:1-5, fala de tais ministros.

1 Que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus.
2 Além disso requer-se dos despenseiros que cada um se ache fiel.
3 Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo.
4 Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor.
5 Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará (φανερώσει) os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor.
(1 Coríntios 4:1-5)

Portanto, é claro que tanto o contexto anterior a 1 Coríntios 3:11-15 quanto o posterior falam de diferentes apostolados em sua contribuição missionária para a edificação do Templo de Deus, a Igreja.

O apóstolo Paulo esperava que ele e os demais pregadores do evangelho recebessen de Deus, na vinda de Jesus, um prêmio (μισθός, traduzido como 'galardão'), de acordo com o seu trabalho; tais textos evidenciam o mesmo que se encontra em 1 Tessalonicenses 2:19,20 (cf. Filipenses 4:1). Tendo tudo isso em mente, vamos ao texto de 1 Coríntios 3:11-15.

11 Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.
12 E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício (ἐποικοδομεῖ) de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha,
13 A obra de cada um se manifestará (φανερὸν γενήσεται); na verdade o dia (ἡ ... ἡμέρα) a declarará, porque pelo fogo será descoberta (ἀποκαλύπτεται); e o fogo provará qual seja a obra de cada um.
14 Se a obra que alguém edificou (ἐποικοδόμησεν) nessa parte permanecer, esse receberá galardão (μισθὸν).
15 Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento (ζημιωθήσεται); mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo.
(1 Coríntios 3:11-15)

Toda a passagem é determinada pela metáfora do edifício (v. 12 ἐποικοδομεῖ, v. 14 ἐποικοδόμησεν, assim como nos vv. 9,10). Paulo, enquanto missionário, lançou o 'fundamento' (a pedra sobre a qual é erguida o prédio) daquela Igreja, enquanto os pastores daquela igreja edificam sobre ele. O prédio, como já esclarecido, são os próprios crentes. Tal prédio pode ser construído com diversos materiais (a qualidade do trabalho apostólico). Entretanto, tais materiais serão provados pelo fogo: alguns materiais resistirão ao fogo, outros não, e os construtores serão premiados de acordo com a qualidade de tal obra. Assim como o material que se desfaz no fogo a ele sobrevive são metáforas, também o fogo o é.


Quando será provada tal obra? De acordo com a doutrina católica, após a morte. De acordo com a Escritura, naquele Dia (v. 13). Também 1 Coríntios 4:5, assim como em 1 Tessalonicenses 2:19,20. Trata-se de de um evento de escatologia geral, não individual.


Aqui há uma brutal divergência em relação à doutrina católica. Ensinam os defensores do catolicismo romano que os cristãos com pecados veniais passarão por tal fogo "purgatorial" para que tais pecados sejam removidos.  No texto, quem passa pelo fogo são as obras dos missionários (e não eles mesmo), mas o texto fala da salvação deles (e não de suas obras).


Há uma segunda diferença muito importante: Ensinam os defensores do catolicismo romano que a função de tal fogo é expurgar os pecados. Entretanto, o texto em si em lugar algum fala de pecados. Fala, pelo contrário, da provação da obra missionária. Na mesma epístola Paulo declara com outras palavras a mesma premiação:


16 Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!
17 E por isso, se o faço de boa mente, terei prêmio (μισθὸν); mas, se de má vontade, apenas uma dispensação me é confiada.
(1 Coríntios 9:16,17)

Comparando-se tal texto com 1 Coríntios 3:11-15 a conclusão é óbvia. Os pregadores da palavra, missionários, seriam salvos; entretanto, poderiam receber ou não receber o prêmio. O que se discute não é a influência dos pecados na salvação, mas a variabilidade da premiação (o mesmo em relação à metáfora da lavoura no v. 8). A função do purgatório católico seria preparar para a vida eterna; a de tal 'fogo' escatológico bíblico seria discernir quem recebe e quem não recebe o galardão.


Digo "defensores do catolicismo romano" porque há grande diferença dos defensores do tradicionalismo católico (geralmente sem formação na área) e os exegetas católicos profissionais. Há muitos exegetas católicos (e.g. Joseph Fitzmyer, Raymond Brown) que sabem perfeitamente que tal texto não tem qualquer relação com purgatório.



G. Montenegro.

4 comentários:

  1. Muito Bom! e muito útil
    Parabéns Irmão!

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  2. Bem Gyordano, achei um texto muito bom e cheio de esclarecimentos, mas ainda fiquei com certas dúvidas. Entendi toda a identificação de obras como detrimento ou adição do galardão, mas o que quer dizer o final "será salvo ainda que pelo fogo". Além disso, como você interpretaria Lucas 12 a partir do verso 35 onde fala da vinda do Senhor e a vigilância do servo, quando se fala das poucas chibatadas e muitas chibatadas?

    Esperando uma resposta santa e cheia do Espirito do Senhor,

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    1. 1Co 3 refere-se aos ministros do Evangelho. O que o texto diz é que eles serão salvos independentemente de seu trabalho ter sido bom ou mau, isto é, ainda que suas más obras passem pelo fogo, no juízo de Deus.

      Lucas 12 gradua a pena dos condenados proporcionalmente ao seu erro (ignorância).

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