28/01/11

A Ressurreição

Uma boa forma de iniciar o tema é com a questão: "A ressurreição é física?". O sentido da pergunta (que poderia muito bem ser outro) é o seguinte: "O corpo da ressurreição é tangível e ocupa lugar no espaço?".

Nesse sentido, cumpre observar o exemplo central de ressurreição no Novo Testamento: Jesus. Embora diverso textos falem da ressurreição, poucos tratam dela com mais detalhes. Mesmo nos Evangelhos ainda são poucos os detalhes sobre a ressurreição (em primeiro lugar Lucas, seguido de João, depois Mateus e Marcos). Ainda assim, tratando de situações distintas, os textos são claros quanto à ressurreição de Jesus ter sido física, visto Jesus ter sido tocado diversas vezes e até se alimentado (Mateus 28:9; Lucas 24:39-43; João 20:20,27). Em realidade, tudo se dá em cumprimento à sua própria promessa de elevar seu próprio corpo ao terceiro dia (João 2:19-21). No supracitado texto de Lucas a descrição em realidade é exatamente a que buscamos: Jesus convida seus apóstolos a lhe tocarem e verem que ele tem carne e ossos, diferente de um espírito.

Um aspecto importante é o de que, em seu corpo ressurreto, Jesus podia desaparecer e atravessar paredes (Lucas 24:31; João 20:26), característica a que Tomás de Aquino chamou subtilitas, 'sutileza' (Summa th., suppl., Q. 83). Entretanto, tal característica não contradiz à percepção geral de que o corpo de Jesus, nos relatos dos Evangelhos, é um corpo físico, no sentido de ser tangível. Entretanto, esse corpo não tem as mesmas limitações espaciais que tinha antes da ressurreição. É uma transformação do primeiro corpo (que, apesar disso, ainda guarda as marcas de sua crucifixão: João 20:24-27). Embora distintos, o corpo da morte e o da ressurreição não são diversos. O corpo com o qual Jesus ressuscitou não apresenta falsas cicatrizes e perfurações, mas aquelas mesmas por meio das quais sofreu na Cruz. Trata-se mais de um progresso em relação ao corpo anterior que um corpo inteiramente criado a partir do nada.

A conexão entre a ressurreição de Jesus e a ressurreição geral dos justos é evidenciada por diversos textos. O texto mais forte talvez seja aquele de Romanos 6:1-7, que mostra como pelo batismo os crentes são ligados à morte e ressurreição de Jesus, de modo que estes experimentam de seus efeitos (já agora, porém também depois como se vê em 1 Coríntios 15). O apóstolo Paulo fala ainda da ressurreição de Jesus como "primícias" (1 Coríntios 15:20), denotando a semelhança de ordem e natureza entre a ressurreição dos justos e a de Jesus. Veja-se também Romanos 8:11; 1 Coríntios 15:48,49; 2 Coríntios 4:14; Filipenses 3:21; Colossenses 3:4. Textos como 2 Coríntios 8:9 apresentam figurativamente a mesma ideia.

O conjunto desses textos mostra claramente que o apóstolo Paulo acreditava que os cristãos experimentariam exatamente o mesmo tipo de ressurreição que Jesus (sendo a progressiva identificação entre o cristão e o Cristo um dos temas centrais em sua soteriologia, assim como ao longo do Novo Testamento).

O texto neotestamentário que mais claramente trata da ressurreição é 1 Coríntios 15, em que o apóstolo Paulo busca corrigir ao erro de alguns que acreditavam ter a ressurreição já acontecido. Uma leitura completa e detalhada do texto é indispensável (embora aqui não seja lugar para um comentário textual). Faz-se, porém, necessário apresentar alguns detalhes que ajudam a uma leitura mais fluida.

Enquanto Paulo claramente conecta a ressurreição de Jesus com a dos crentes, refere-se ao corpo da ressurreição como "espiritual", em contraposição ao corpo "animal" (vv. 44-46). Essa última expressão não indica aquilo a que normalmente nos referimos como animal. A tradução utilizada, Almeida Corrigida e Fiel, assim como diversas outras Bíblias em português (tanto católicas quanto protestantes). A tradição de traduzir assim esse texto vem desde a Vulgata Latina, que traz em sua leitura: "seminatur corpus animale surgit corpus spiritale si est corpus animale est et spiritale ... sed non prius quod spiritale est sed quod animale est deinde quod spiritale".

Por que na Vulgata Latina se apresenta tal leitura? O texto original grego faz oposição entre ψυχικός (traduzido como "animal") e πνευματικός (traduzido como "espiritual"). A primeira expressão, ao que poderíamos traduzir, mais literalmente, por "psíquico" (ainda que a expressão grega não carregue todo o sentido a palavra apresenta no Português), deriva de ψυχή ("alma"), a qual pode significar a) o fantasma que deixa o corpo, b) a mente humana, c) a respiração enquanto sinal de vida fisiológica. As expressões latinas que se lhe correspondem são anima (substantivo ) e animale (adjetivo), de onde deriva o português "animal". Inexistindo em português um exato correspondente para ψυχικός (ou animale), verter o texto se utilizando de um correspondente próximo (vinculado mais em grafia que em semântica) preserva o texto, mas atrapalha o contato do leigo com o significado (que geralmente desconhece o grego ou o latim).

Assim, ψυχικός é aquilo que se qualifica em relação à ψυχή, cujo significado é dado acima. Entretanto, há um problema aqui: πνευματικός (e seu correspondente latino spiritale) pode apresentar o mesmo significado. Spiritus (de onde deriva spiritale) também pode indicar o fantasma que deixa o corpo, a mente humana e a respiração (ou sopro, brisa...). Assim, aparentemente a apresentação de Paulo criaria uma contradição entre quase-sinônimos.

Acontece que não é a primeira vez na epístola em que Paulo se utiliza de tais expressões. Em 1 Coríntios 2:14,15 também aparece a mesma oposição, entre o homem natural (ψυχικὸς ἄνθρωπος) e o homem espiritual ( πνευματικὸς). Um dos problemas da versão Almeida é ter apresentado para ψυχικὸς uma leitura em 1 Coríntios 2:14,15 e outra em 1 Coríntios 15:44-46, o que é problemático para o leitor sem acesso ao texto grego (erro esse não cometido por Jerônimo na Vulgata, que apresenta o animalis homo em oposição ao spiritalis). Assim, enquanto o "animal" seria o "natural", aquilo que é de baixo, aquilo que não está em comunhão com o Espírito, o "espiritual" seria aquilo que tem o seu viver movido pelo Espírito.

Veja-se que Paulo, no v. 45 a Gênesis 2:7, texto que trata do homem como alma vivente por ter recebido sopro de vida como respiração (isto é, respiração enquanto sinal de vida). Entretanto, o ressurreto vive a partir do Espírito; sua vida fisiológica não depende do 'respirar' natural (ao que englobaria todo seu ciclo de vida, não apenas aquilo que chamamos normalmente de 'respirar'), mas sim de um poder sobrenatural. A oposição de que Paulo fala não seria entre um corpo físico e um não-físico, mas entre um movido por forças naturais e outro por forças sobrenaturais. Sobre isso lemos em outros textos (e.g. Apocalipse 7:16).

Mas a dificuldade não termina aí. A declaração de Paulo no v. 50, a de que "carne e sangue não podem herdar o reino de Deus" parece contradizer aquilo que até agora eu escrevi e aquilo que os Evangelhos testemunham sobre a ressurreição do próprio Jesus, a saber, que ele tinha carne e osso (Lucas 24:39,40). Entretanto, Paulo também declara, no mesmo versículo, "nem a corrupção herda a incorrupção". No texto que segue (vv. 51-54), Paulo mostra que aquilo que é corruptível não é substituído, mas revestido. Portanto, é preciso observar o estado de coisas antes e depois da ressurreição.

É a ressurreição dentre os mortos que dá continuidade à vida. Tratar a alma como o verdadeiro ser humano e o corpo apenas como seu receptáculo é ceder ao mito pagão, platônico e gnóstico. Embora a consciência, nas Escrituras, não finde com a morte, a completude do ser humano depende do corpo. Por isso mesmo o corpo participa do processo redentivo (Romanos 8:23; 1 Coríntios 6:13,20; 2 Coríntios 4:10; 1 Tessalonicenses 5:23).

A famosa citação de Lewis cai pelo mesmo erro: “You don't have a soul. You are a Soul. You have a body.” ["Você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo."] Não sou nem de perto um especialista em C. S. Lewis, mas se essas palavras significam aquilo que parecem significar (e, mais ainda, se trazem o sentido que habitualmente se atribui a elas), a ideia do indivíduo se platonizou completamente. Na filosofia de Platão, o ser humano acaba por se resumir à alma; a verdadeira libertação constituiria na ascensão da alma a um reino metafísico. Entretanto, as Escrituras em nada corroboram com tal perspectiva, senão em uma forma limitada, já apresentada em textos anteriores (vide aqui).

O ser humano é, de fato, uma alma (no sentido semítico do termo, isto é, um vivente), mas também é um corpo. Tanto o corpo quanto a alma são a totalidade do ser humano, mas sob aspectos distintos. O ser humano não é completo sem algum desses aspectos (não partes).

G. Montenegro.

10 comentários:

  1. Jesus quando saiu do sepulcro, foi tocado por Maria Madalena? E, ao ser assunto aos céus, foi em corpo glorioso, de carne e osso, em espirito? Por favor, me explique.

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    1. Quanto a Maria Madalena, a Escritura não diz se Jesus foi tocado. O que ele nos diz é que Jesus lhe ordena: "Μή μου ἅπτου", Não me toques (João 20:17). O texto não esclarece se isso se dá por Maria ter tentado tocá-lo, se por ela tê-lo feito ou se ela sequer o havia cogitado.

      Quanto à segunda pergunta (se eu a entendi), a Bíblia não relata nenhuma mudança no corpo de Jesus após os eventos em que ele aparece aos apóstolos em carne e osso, guardando as marcas da crucificação.

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  2. Sr. Gyordano sendo a ressurreição de Cristo como "primícias", Mateus relata em 27:52-53 esses santos que dormiam e foram ressuscitados eram quem? Digo, não teriam que terem aceitado Cristo para serem salvos? Entraram em que cidade santa? Apareceram a muitos nessa cidade santa ou que foram ressuscitados? Poderia me explicar por favor?

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    1. A promessa da ressurreição é para todo o povo de Deus, tanto para os santos do Novo Testamento quanto para os do Antigo (cf. Isaías 26:19; Daniel 12:2).

      A Cidade Santa é Jerusalém (cf. Neemias 11:1; Isaías 52:1; Mateus 4:5; Apocalipse 11:2). Tanto a primeira Jerusalém quanto a Jerusalém futura são chamadas "cidade santa" nas Escrituras (cf. Apocalipse 21:10).

      Na realidade usei esse texto apenas para exemplificar que a ressurreição ocorre no lugar da sepultura.

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  3. Então os santos do Antigo Testamento tiveram a promessa da ressurreição, mas não estavam supostamente "salvos" por causa da salvação passar pela aceitação de Cristo? Se sim, a biblia diz algo sobre como se derá essa "salvação"

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    1. É bom ter em mente que a justificação do homem não mudou com o advento de Jesus. Abraão foi justificado pela fé (Gênesis 15:6; cf. Romanos 4:ff).

      Em segundo lugar, salvo não é algo que você "está". Na Bíblia, salvo é um particípio, não um adjetivo! Ser salvo não é uma QUALIDADE da pessoa, mas um EVENTO no qual se é colocado. Trata-se de algo que aconteceu no passado ou acontecerá no futuro.

      Em terceiro lugar, só há um caminho para o Pai: Jesus (João 14:6). Por isso, todo o que é salvo, de qualquer época, é salvo através de Jesus. No Antigo Testamento isso se dá por meio do Pacto (Aliança, Concerto, Testamento, etc) entre Deus e o povo de Israel, por meio do qual Deus gratuitamente fez promessas ao povo de Israel, nas quais participam todos que permanecerem fiéis ao Pacto. Somos justificados pela fé, mas a forma tomada é a forma delineada pelo Pacto.

      O Antigo Testamento culmina em Cristo, mesmo que os que estavam sob este pacto não tivesse qualquer consciência disso.

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  4. Sr. Gyordano, então essa idéia de que Cristo desceu ao inferno e pregou a salvação aos que morreram antes da vinda dele é errada? Poderia me explicar. Por favor.

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  5. Então esses "espirito em prisão"(v.19) não sâo os mortos do Antigo Testamento, são esses anjos caídos? E esses do 4:6 são os mortos do A.T.? Em relação a sua colocação na resposta anterior, os santos que dormiam e foram ressuscitados foi através do pacto?

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    1. Provavelmente ESSES espíritos em prisão são humanos (v. 20), assim como os de 4:6.

      Sim, os santos que foram ressuscitados o foram através do pacto. Mas veja, não havia previsão de que eles fossem ressuscitar naquele momento. É um evento totalmente inesperado.

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