20/01/11

Legumes

(Este texto é diretamente inspirado no paper 'Communion and Koinonia' de N. T. Wright, disponível aqui)

Romanos 14 é um texto central com respeito à 'tolerância' no Novo Testamento. O modo como esse texto é interpretado determina o modo como o limite da unidade deve ser tratado. Entretanto, assim como em diversos outros textos, o leitor geralmente adentra à interpretação com uma preconcepção já formada sobre o modo como tal tema deve ser considerado.

Por que esse capítulo 14 trata de um grupo de pessoas (aparentemente sem referência nos demais capítulos da carta) distinto por comer apenas... legumes?

Na realidade, há nas Escrituras um precedente para isso, e, na realidade, um precedente louvado pelas próprias Escrituras: o momento em que Daniel e seus companheiros hebreus se abstiveram do manjar real e comeram apenas vegetais (Daniel 1:8-16). A situação é bem simples: a comida real era considerada 'contaminada' (impura). De algum modo os legumes seriam comida pura. Qual é a explicação?

Os judeus vivem sob regulamentos alimentares estritos (kashrut) que dizem respeito a quais alimentos são considerados 'puros' e quais 'impuros'. Tais regras aparecem em diversos textos bíblicos, como Levítico 11 e Deuteronômio 14, e tem grande influência na cultura e auto-compreensão judaica. As definições de pureza e impureza alimentar nem sempre estão diretamente ligadas ao fato do alimento ser "sujo" ou "limpo" no sentido corrente dessas expressões; certos animais eram considerados por natureza imundos (a exemplo da carne de porco), independentemente de terem sua carne adequadamente tratada.

Essas leis alimentares, ao lado do Sábado e da circuncisão, eram e até hoje são práticas dos judeus que os diferenciam de outros povos, e isso é um ponto de extrema importância. Não faltaram pagãos na antiguidade acusando os judeus precisamente por essas práticas, assim como não faltaram judeus se diferenciando (e, por vezes, se colocando como superiores) dos gentios por essas práticas.

Leis alimentares são relativamente fáceis de se cumprir quando se está em um ambiente agropastoril em que se sabe a origem de tudo aquilo que se come. Em um ambiente urbano, porém, não é tão simples. Com relação ao alimento, um judeu comprando de outro judeu teria mais facilidade de encontrar alimento considerado puro. Porém, vivendo entre gentios, haveria maior suspeita. Era esse o problema dos judeus na diáspora. Levando em conta que diversos animais dos quais os gentios se alimentavam eram impuros (a exemplo do porco), assim como diversas vezes havia sangue na carne (também proibido), e levando em conta também que diversos alimentos eram sacrificados aos ídolos , é natural que alguns judeus (leia-se, cristãos de origem judaica) decidissem comer apenas legumes, em obediência à Lei.

Assim, os comedores de legumes em Romanos 14 seriam cristãos de origem judaica que decidiam (assim como o fez Daniel) comer apenas legumes para não se contaminar (evitando de todas as maneiras consumir carne impura). Veja-se que o tema da 'imundice' está claro no texto de Romanos 14:14,15, em direta ligação coordenativa com o tema alimentar. Paulo se refere a esses judeus que, tendo por base a Lei, constrangiam outros cristãos a comerem apenas legumes (evitando comida impura).

Qual é a importância disso? Afeta diretamente o modo como entendemos o capítulo como um todo. Ao longo de toda epístola o Apóstolo discute (e continua discutindo, por exemplo, em Romanos 15) a relação entre a Fé e a Lei, e sobre o modo como o cristão deve se posicionar nesta relação. Romanos 14 não é um texto isolado na epístola em que o apóstolo passa a discutir a tolerância para com os irmãos. Pelo contrário, trata-se de um texto em que o apóstolo continua discutindo a relação da lei com a fé, embora desde o capítulo 12 o faça de modo mais prático (isto é, aquilo que ele explica em nível teórico nos capítulos 1-11 coloca em prática nos capítulos que sucedem), e o que nos dá certeza disso é exatamente entender o problema dos legumes no texto. Há duas consequências imediatas (ou corolários).

A primeira consequência é a de que a referência a "fazer diferença" entre os dias é, sem sombra de dúvida, uma referência os cristãos de origem judaica que constrangiam os demais cristãos a guardarem o shabat. Enquanto seria lícito a um grupo de cristãos continuar guardando tais práticas, seria inconcebível que um grupo julgasse ao outro por isso. Ou seja, em Romanos 14 Paulo explica o mesmo que explicou em Colossenses 2:16, embora em outros termos e em uma outra situação. A Lei servia como separação (Efésios 2:14-16) entre judeus e gentios, de modo que o judeu se jactava diante do gentio, considerando-se superior. Cai por terra, portanto, qualquer tentativa de grupos sabatarianos em defender a prática do shabat como obrigatória.

A segunda consequência é a mais precisa interpretação daquilo que Paulo diz sobre julgar o próximo. Enquanto nesse texto de Romanos 14 ele condena a prática de um grupo julgar a outro, em 1 Coríntios 5:9-13; 6:1-5 julgar ao próximo é obrigatório. Até onde um cristão deveria tolerar as práticas do outro? Entender que as leis alimentares (assim como o Sábado) eram formas do judeu se diferenciar do gentio e (em diversos casos) se considerar privilegiado, ou seja, eram uma forma de preconceito étnico (enraizado, sim, na Lei, mas tendo fim em Cristo), fica evidente que Paulo fala de dois tipos de julgamento.

Em Romanos 14, Paulo condena a prática de um grupo julgar ao outro tendo por base privilégios étnicos: o Sábado e as leis alimentares (assim como a circuncisão em diversos outros textos). Não se trata de práticas éticas, mas privilégios étnicos (ligados ao próprio povo judeu). Quando trata de imoralidade, nos capítulos 5 e 6 de 1 Coríntios (assim como ao longo das duas epístolas aos Coríntios), julgar ao próximo é obrigatório (embora, evidentemente, sempre com amor). O problema em Romanos 14 não é julgar alguém por não obedecer aos mandamentos, mas julgar por acreditar que alguém deveria seguir aquilo que nem mesmo é mandamento.


G. Montenegro.

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