24/01/11

Ir para o céu?

Para a cristandade ocidental, o destino final dos cristãos pode muitas vezes ser descrito como "ir para o céu", e que tal destino é alcançado após a morte. Enquanto tal opinião não é de todo falsa (como alegam certos grupos sectários), não é uma perfeita descrição da 'escatologia pessoal' presente no Novo Testamento e nos escritos dos primeiros cristãos. Estes não davam primazia à escatologia pessoal, mas à escatologia geral: acreditavam na Ressurreição dos mortos.

A doutrina da Ressurreição dos mortos é, em realidade, uma doutrina bastante... transgressora. Ela contradiz tudo aquilo que sabemos sobre o ciclo da vida humana. Os pagãos com os quais os primeiros cristãos se defrontaram podiam aceitar a imortalidade da alma, mas não a ressurreição dos mortos. Os primeiros defensores do cristianismo eram constantemente instados a demonstrar a razoabilidade de tal doutrina frente às críticas que sofria.

Embora no ocidente nunca (...não nunca, de fato...) se tenha deixado de acreditar na Ressurreição dos mortos, esse artigo da fé cristã perdeu sua ênfase diante da imortalidade da alma. A Ressurreição dos mortos e a Imortalidade da alma, embora visando ambas a imortalidade, caminham em direções opostas. A Ressurreição dos mortos representa uma vitória sobre a morte, ao passo de que a imortalidade da alma representa uma entrega à morte.

Se Deus pretende trazer justiça e redenção à sua Criação, premiando aqueles que fizeram a Sua Vontade, bem como punir todos aqueles que trouxeram mal e injustiça, a morte é um problema a ser levado em conta. Só podemos entender duas formas de lidar com a morte: vencendo-a, ou unindo-se a ela. Crer que Deus se importa com o bem do mundo e levar essa crença até às últimas consequências implicará na ressurreição dos mortos (para que sejam punidos ou premiados no corpo) ou na imortalidade (ainda que condicional) da alma (para que sejam punidos ou premiados fora do corpo). Do contrário, Deus seria um criador que não se importa com sua Criação.

Entretanto, no Novo Testamento a morte não é algo a ser simplesmente aceito. O próprio Jesus, diante de sua morte, pedia a Deus para que o cálice fosse passado (Mateus 26:39). A morte é representada como o último inimigo de Deus a ser derrotado (1 Coríntios 15:21-26,54-57). Embora em um certo sentido a morte faça parte dos planos de Deus (o qual criou todas as coisas), ela também representa algo a ser desfeito nesses mesmos planos. A morte representa a sujeição das criaturas de Deus (e, em especial, o ser humano) a um poder que O desafia.

A ressurreição dos mortos, porém, é parte de um plano maior. Como já tratado anteriormente, o plano redentor de Deus, ainda que tendo o ser humano como um foco, inclui toda a sua Criação (Romanos 8:19-23). E isso inclui aquilo que o Trito-Isaías e Apocalipse tratam: Novos Céus e Nova Terra. De nenhuma maneira os planos de Deus incluem entregar a terra ao Anticristo ou ao diabo, como a escatologia pré-tribulacionista descreve, enquanto os justos estariam no céu, mas sim recriar, do antigo céu e da antiga terra, novos céus e nova terra, assim como faz em cada indivíduo, transformando de um antigo ser humano em um novo.

Não há texto no Novo Testamento que descreva o destino dos cristãos como o céu. Há, é verdade, dois textos no Novo Testamento que fazem parcial descrição do destino dos justos após a morte: a promessa ao ladrão na cruz de que naquele mesmo dia estaria com Jesus no Paraíso (Lucas 23:43) e a esperança do apóstolo Paulo de morrer e estar com Cristo (Filipenses 1:21-24). São totalmente falhas as tentativas de interpretar esses dois textos de outra maneira. Porém, é preciso que fique claro que nenhum desses dois textos descreve o destino final, nem tampouco afirmam a imortalidade da alma.

Assim sendo, o destino último não é "ir para o céu". A descrição apocalíptica é precisamente o contrário disso: a morada de Deus desce do céu à terra (Apocalipse 21:1-3), isto é, o céu desce à terra (uma constante na teologia bíblica, presente na encarnação de Jesus, na celebração da Ceia do Senhor e, como vemos, no eschaton). Textos como João 14:1-4 e Filipenses 3:20,21 precisam ser explicados nessa mesma perspectiva escatológica: a mora dos cristãos, preparada por Deus, é um destino que é trazido por Deus do céu à terra. Afinal, o que é que faz com que o Céu seja o Céu? Deus está lá. Nada mais.

G. Montenegro.

12 comentários:

  1. Coloquei uma postagem no outro artigo (critica a pre tribulação)e só agora vi este kkk bem respondeu então, não vai morar no céu, porém é nesta terra mesmo?

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    1. Pôxa desculpe depois de ler novamente essa parte " mas sim recriar, do antigo céu e da antiga terra, novos céus e nova terra, assim como faz em cada indivíduo, transformando de um antigo ser humano em um novo.
      " já está respondida minha pergunta. Obrigado

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    2. A última descrição da vida eterna, a dos dois últimos capítulos do Apocalipse, descreve a realidade como uma unidade entre o céu e a terra, quando o céu desce à terra.

      Por isso se ora: Venha o teu reino.

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  2. Interessante Gyordano muito edificante seus textos e comentários mas me diga uma coisa, então os tjs estão certos quando dizem que o paraiso será aqui na terra? O que difere da interpretação dels?

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    1. Certos em parte, em parte errados.

      Na escatologia das TJs, na vida eterna permanece a separação entre o céu e a terra, ao contrário do que nos dizem os dois capítulos finais do livro do Apocalipse, em que há uma reunião entre o novo céu e a nova terra. Portanto, estão errados no ponto mais importante.

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  3. Amigo Gyordano! Peço a gentileza de uma possível explicação em torno do versículo Lucas 23:43: onde "dizem" (segundo interpretação de alguns) que a tradução foi feita "não corretamente". E que, de fato, Jesus não havia falado que ele (o ladrão) estaria "hoje no paraíso", mas havia dito naquele dia (afirmo hoje:...) Jesus o afirmava que ele (o ladrão) estaria no paraíso. Ou seja, o "hoje" seria concernente à afirmação de Jesus, não ao fato de o ladrão estará no paraíso. Segundo os mesmos que interpretam de tal modo, a confirmação disso se dá em outra passagem onde Jesus encontra as mulheres e diz que ainda não havia ido ao Pai. Poderia explicitar algo sobre o tema?

    Faço-me grato pela gentileza, mais uma vez. E peço perdão por possíveis erros de digitação (digitados em teclados de celular).

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    1. Ἀμήν σοι λέγω σήμερον μετ' ἐμοῦ ἔσῃ ἐν τῷ παραδείσῳ.
      (Amēn soi legō sēmeron met emou esē en tō paradeisō)


      O texto de Lucas 23:43 poderia ser traduzido das duas maneiras:

      a. Em verdade te digo hoje --- que --- estarás comigo no Paraíso.
      b. Em verdade te digo --- que --- hoje estarás comigo no Paraíso.

      Não é possível defender gramaticalmente nenhuma das duas traduções como absoluta.

      Penso que os motivos para aceitar a leitura tradicional são principalmente dois:

      1. A fórmula "Em verdade [te/vos] digo" aparece muitas vezes nos Evangelhos, e nunca acompanhada de qualquer qualificação ("hoje"), pois quem fala sempre fala "hoje".
      2. A tradução "b" é mais forte, pois nela as palavras de Jesus superam o pedido do ladrão, ao passo na leitura "a" as palavras de Jesus não querem dizer nada além de um "sim".

      É verdade que a leitura "b" parece contradizer as palavras de João 20:17, mas isso é outro evangelho.

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  4. Compreendo. Liga-se um evangelho ao outro às vezes por forma de melhor entendimento ou ligação de fatos para compreensão assertiva sobre algum ponto específico. Por isso citei João. Haveria algum contato onde disponibiliza a fim de compartilhamento bíblico direto? Peço perdão se, de algum modo, soo por inconveniente. Longe disso! Apenas quero compreender melhor diversas coisas. E, de antemão, ressalto que não deva se sentir constrangido em uma possível negação desse contato. Compreenderei perfeitamente e procurarei compreender em estudo.

    Minha gratidão, prezado amigo.

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    1. O Sr. pode me adicionar no Facebook:
      https://www.facebook.com/montenegrobrasilino

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  5. Obrigado, prezado! Não conseguirei adicionar, pois o meu Facebook é uma página e não adiciona, apenas as pessoas a seguem. Optei em converter para não mais ter acesso às postagens das pessoas e apenas disseminar a mensagem. Antes de postar aqui, cheguei a falar direto no "bate-papo" da sua página do Google+, mas acredito que não a veja constantemente. De todo modo, faço-me e farei-me sempre grato pelo auxílio.

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    1. O Sr. pode usar meu endereço de e-mail:
      abeceba@hotmail.com

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