28/12/10

Rudimentos de Eclesiologia - Parte I

O que é a Igreja? O conceito cristão da Igreja como um corpo unificado emerge do Antigo Testamento, embora em transformação, ao se aplicar a ela as categorias escatológicas apocalípticas. Assim, a “Igreja” deve ser entendida em um sentido escatológico-redentivo.
Os textos do AT que em português geralmente lemos como “congregação” (exemplo: Êxodo 12:3) foram traduzidos para o grego na LXX em diversos pontos como ἐκκλησία, palavra traduzida no Novo Testamento como “igreja”. A “igreja” do Antigo Testamento é o povo de Israel como um todo, geralmente reunido em um determinado propósito (ex: ouvir Moisés ou realizar uma celebração). Não deve ser ignorado o impacto que a história do Êxodo tem sobre o imaginário cristão primitivo, no modo como tal história é transplantada para a realidade cristã (cf. 1 Coríntios 5:7; 10:1-4). Assim a congregação foi levada a por Moisés à terra de Israel (seu Êxodo, sua Páscoa), a Igreja é levada por Cristo à sua final redenção (nosso Novo Êxodo, nossa Páscoa). Assim como Moisés e Josué estabeleceram divisões entre as doze tribos (embora tal separação os predatasse), Cristo separou seus doze apóstolos em referência às mesmas (cf. Mateus 19:28).
Uma das características principais do Antigo Testamento é a visão segundo a qual Deus haveria eleito o povo de Israel e separado dentre as nações para ser um povo seu, separado e santo. O apóstolo Paulo aplica à Igreja o conceito judaico da eleição e predestinação do povo de Israel nos capítulos 9 a 11 de Romanos; assim como tal eleição passar por um Concerto (o Antigo Testamento), a nova eleição passa por um Concerto (o Novo Testamento). Semelhantemente, a promessa feita a Israel em Êxodo 19:6 (cf. Deuteronômio 7:6; 14:2) é repetida em 1 Pedro 2:5,9 com relação aos cristãos, a saber, a promessa de que seria um povo santo, separado de todas as nações. Nesse sentido, a Igreja assume o caráter de Israel de Deus (Gálatas 6:16), não um Israel segundo a carne, mas no interior (Romanos 2:29; cf. Deuteronômio 10:6). Assim como Israel tinha um sumo sacerdote que intercedia pelo povo, Cristo é o sumo sacerdote da Igreja (Hebreus 4:14; 6:20). Tendo Moisés sido o mediador do primeiro testamento, Cristo é o mediador do segundo (Gálatas 3:19; 1 Timóteo 2:5; Hebreus 8:6; 12:24).
A Igreja aparece em alguns textos do Novo Testamento como um instrumento extremamente poderoso do Reino de Deus. Recordo-me de uma declaração de uma amiga, a qual repito conforme me permite a memória: “Naquela época, eu estava afastada de Cristo. Não, não afastada de Cristo. Afastada da Igreja.” Embora na época eu talvez concordasse, hoje não mais, por motivos estritamente bíblicos. Em uma declaração que talvez possa causar comichão aos ouvidos de muitos, o apóstolo Paulo se refere à Igreja (o corpo de Cristo) como “a plenitude daquele que cumpre tudo em todos”, ou seja, a plenitude de Cristo (Efésios 1:22,23). Semelhantemente, assim como Cristo é referido nas Escrituras como o Caminho (João 14:6), também o nome primitivo da Igreja é o Caminho (Atos 9:2; 19:9,23; 24:22; notar como no texto grego o substantivo é articulado, evidenciando tratar-se de um nome próprio). Por fim, a Igreja é referida como coluna e firmeza da verdade (1 Timóteo 3:15).
Embora os que estão fora ou afastados da Igreja de Cristo não estejam absolutamente fora de Cristo, a comunhão com Cristo não pode ser desligada da comunhão dos cristãos uns com os outros (ou seja, a comunhão com a Igreja de Cristo), a qual passa, por exemplo, pelo partir do pão (1 Coríntios 10:16,17; cf. 1 João 1:7), ao que levantamos a pergunta: Pode ser uma mesma Igreja aquela que não parte o mesmo pão? Ver, por exemplo, o artigo sobre teologia sacramental. A eclesiologia paulina poderia ser quase inteiramente derivada da doutrina paulina sobre Cristo, as últimas coisas, a salvação e os sacramentos (nomeadamente a Ceia ou Eucaristia e o Batismo).
Muitas metáforas e símbolos são usadas nas Escrituras em referência à Igreja: a noiva do Cristo, o corpo de Cristo, os ramos de uma árvore (sempre metáforas sobre coisas visíveis, é bom que se note), mas há uma metáfora muito interessante, a metáfora militar. Embora nas Escrituras a Igreja não seja literalmente descrita como um exército, em diversos pontos ela aponta para isso. Em 2 Timóteo 2:3,4 há direta referência ao pregador (Timóteo) como um soldado alistado para a guerra (cf. 1 Coríntios 9:7a; Efésios 6:10-18). O apóstolo Paulo utiliza a expressão συστρατιώτης (soldado companheiro) em Filipenses 2:25 e Filemom 2, o que em si já aponta para uma metáfora militar do trabalho apostólico. Se levarmos a metáfora militar adiante, comparando a Igreja a um exército, a consequência é óbvia: o sucesso de um exército depende de sua unidade, assim como de sua hierarquia (que passa pela lealdade dos que são inferiores na hierarquia aos que estão em postos de maior autoridade). Um soldado que quiser formar um “exército paralelo” é um traidor.
Assim como a palavra “Igreja” aparece diversas vezes no Novo Testamento no singular, também acontece de surgir no plural (e.g. Atos 9:31; 15:41; 16:5; Romanos 16:4,16, etc). Porém, é bom que se note que, embora hajam no Novo Testamento diversas igrejas, tais igrejas são nada além da expressão local de uma mesma igreja universal (Efésios 4:4-6). Tenha sido tal igreja evangelizada por Paulo ou por outro apóstolo, todas eram parte de um mesmo corpo. A Igreja de Antioquia e a Igreja de Jerusalém, sob o comando dos doze, e as Igrejas de Éfeso e Corinto, nas quais Paulo pregou, eram todas uma mesma Igreja. Embora pudessem ocorrer divergências doutrinárias (como aquela evidenciada em Gálatas), tais divergências não eram permitidas e eram suprimidas pelas autoridades eclesiásticas. Se de um lado se permitia distinção entre os crentes por suas práticas menores (ex: Romanos 14), o apóstolo Paulo exorta os crentes a pregarem em uma só voz e terem uma mesma opinião (Romanos 12:6a; 1 Coríntios 1:10-13; 2 Coríntios 13:11; Filipenses 2:2; cf. Atos 4:32).
É preciso distinguir entre uma Igreja local (que são muitas, como as bíblicas de Roma, Corinto, Galácia, Éfeso, etc) e uma determinada denominação. Enquanto o Novo Testamento trata das primeiras, não há qualquer abertura para as segundas. Igreja local é meramente a circunscrição geográfica (ou seja, local) da Igreja universal de Cristo.
Já se tornou banal a eclesiologia evangélica segundo a qual a verdadeira Igreja de Cristo é invisível (presente desde Wyclif). É parte de um discurso protestante que objetiva manter (ainda que de uma forma... invisível) uma unidade entre as milhares de denominações com doutrinas distintas. Porém, de tal invisibilidade nada falam as Escrituras. A “igreja” do Antigo Testamento era um povo visível e discernível, distinto tanto por seu modo de ser e agir quanto pelo território que habitava. Podemos reconhecer com o apóstolo Paulo que o que caracterizaria o Israel de Deus (a Igreja do Novo Testamento) seria não a marca exterior, mas sim a interior (Romanos 2:29). Entretanto, não podemos ser demasiado enfáticos e literalistas em tal asserção. Sendo o propósito da Igreja trazer luz ao mundo (sendo Cristo essa luz), é óbvia a conclusão de que uma igreja absolutamente invisível não traria ao mundo tal esperança.
Não nego que cristãos de diversas denominações sejam parte dessa Igreja, de uma mesma Igreja. Porém a unidade é mandatária (Efésios 4:3). O próprio Cristo orou para que a unidade dos seus seguidores fosse a mesma que há entre ele mesmo e o Pai (João 17:20-23). Somente na unidade a Igreja é capaz de realizar plenamente a sua missão, visto que o Corpo necessita de que todos os membros estejam em unidade e harmonia (1 Coríntios 12:11-25). Como seria possível tal unidade na diversidade de denominações cristãs que vemos hoje?
Há um importante corolário na ideia de uma Igreja visível. E esse corolário é o de que pessoa alguma tem o direito de fundar uma nova igreja, por mais bem intencionado que seja. Diariamente nos deparamos com ditos “ungidos de Deus” que decidem fundar seu próprio ministério, e que afirmam ter sido chamados para tanto pelo Espírito Santo. As Escrituras em ponto algum o endossam. Como bem diz o início do Salmo 127: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”.

G. Montenegro.

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