25/12/10

O centro do Evangelho



Qual é o centro do Evangelho? Vi um vídeo recentemente em que foi feita uma interessante declaração sobre essa questão. Declarava o autor que “as boas novas do Evangelho são sobre como os pecadores podem estar quites com Deus”. Sem sombra de dúvida, é parte da mensagem cristã o modo como os pecadores podem se relacionar com Deus, e sobre como a morte de Jesus realiza um sacrifício pelos pecados da humanidade.
Entretanto, dada a devida vênia, eu discordo. Quando se compreende o significado que a palavra “Evangelho” tinha na época de Jesus e dos seus apóstolos, me parece incoerente afirmar que o centro do Evangelho seja o modo como os pecadores podem estar quites com Deus. É como afirmar que o centro do ser humano é o sol. O sol certamente é o centro do sistema solar, mas não do ser humano. O sol é vital ao ser humano, mas não é o seu centro. Os pecadores estarem quites com Deus certamente é importante, visto que é a esses pecadores que o Evangelho é anunciado; entretanto, o Evangelho não é isso.
A palavra “Evangelho” deriva do grego εὐαγγέλιον, palavra formada por εὐ (bom) + αγγέλιον (de αγγελος, mensageiro), significando “boa mensagem”, o que nós traduzimos por “boas novas”. Entretanto, tais não são quaisquer boas novas em um sentido genérico, como seu significado etimológico parece sugerir. Na época de Jesus, essa palavra assume um significado muito preciso, não dissociado da realidade social e política vivenciada pelos judeus palestinos e na diáspora.
Um pouco da história dos judeus ajuda a esclarecer esse problema. Como sabemos, por volta de 537 a.C. os judeus retornam do cativeiro babilônico, após várias décadas vivendo entre os gentios, punidos por Deus por conta de seus pecados, sua injustiça, sua idolatria. Entretanto, de certo modo, esse não foi o fim do cativeiro para os judeus. Foram dominados por diversos povos pagãos; a dinastia davídica não foi concretamente restabelecida e o povo não experimentou das diversas promessas feitas através dos profetas sobre as bênçãos que Deus lhes daria. A situação mais difícil talvez tenha sido aquela vivida pelos judeus na época de Jesus. O povo que havia sido eleito para ser diferente de todas as nações viva sob o poder de um império pagão aparentemente invencível. Esse fator histórico é importante. Embora continuassem crendo em seu Deus, e no poder de Deus sobre todos os soberanos terrenos (assim como sobre todas as forças e potências celestiais), parecia difícil crer na promessa de que Deus de fato reina sobre o seu povo.
Um segundo fator muito importante é uma forma de religião crescente, o culto do Imperador. Lemos na Eneida diversas declarações de Vergílio sobre como Augusto seria um escolhido do deus Júpiter para trazer a paz, a justiça e fé a todo o mundo; os romanos seriam, nesse modo de ver, um povo escolhido pelos seus deuses, e o imperador o seu salvador. O imperalismo romano era visto como uma amostra desse poder divino. O próprio imperador, após a sua morte, poderia ser elevado pelo senado romano ao status de divindade. A palavra “evangelho” (εὐαγγέλιον) era utilizada como referência ao nascimento da divindade do imperador, ou seja, as boas novas de que por meio dele haveria esperança e paz, uma nova era para o mundo.
Nesse contexto de oposição entre o Reino de Deus e o Império de César, é importante observar como soa a mensagem de Isaías 52:7, um dos textos principais do Antigo Testamento como referência a boas novas.

Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas,
que faz ouvir a paz,
do que anuncia o bem,
que faz ouvir a salvação,
do que diz a Sião: O teu Deus reina!
(Isaías 53:7)

É evidente que tais boas novas se referem ao intenso agir salvífico de Deus. É assim que tal agira muitas vezes se evidencia no Antigo Testamento: Deus livra ao povo de Israel de seus inimigos, lhes dá paz em sua terra por herança (cumprindo suas promessas) por sua própria justiça e reina sobre o seu povo. Esse é o significado primário de “salvação”: o agir de Deus em dar livramento ao seu povo de seus inimigos. Só posteriormente tal expressão assumiria a simbologia mais precisa presente no Novo Testamento.
Historicamente, a primeira proclamação do Evangelho feita por Jesus é aquela que se apresenta em Marcos 1:14,15, também em referência ao Reino de Deus. É preciso que se compreenda que a expressão “Reino de Deus” (assim como o seu equivalente no Evangelho de Mateus “Reino dos céus”) em lugar algum das Escrituras é utilizado como significando o lugar onde Deus mora ou reside, isto é, o céu. Significa, muito distintamente, o exercício do poder real de Deus assim na terra como no céu, isto é, o poder soberano de Deus de direito e de fato sobre a sua Criação. Não se trata do poder apenas em um sentido absoluto, mas também do reconhecimento desse Reino por parte da mesma Criação, referindo-se a nós, seres humanos, mas também a todos os espíritos (anjos).
Evangelho é a proclamação desse Reino. Não é à toa que diversas vezes a expressão aparece como “Evangelho do Reino” (Mateus 4:23; 9:35; 24:14; Marcos 1:14; Lucas 4:43; Lucas 8:1), assim como é evidente que o reino de Deus está no centro da mensagem de Jesus. Seja em suas parábolas, seja em seu modo de agir, seja quando repreende, seja como exorta, em todo tempo Jesus está falando, de uma maneira ou de outra, do reino de Deus, e de como esse Reino assume, para nós, a forma de uma indelével exigência de santidade e consagração, de amor e de arrependimento.
Por isso mesmo adquire importância reconhecer a Cristo como “Senhor” (Romanos 10:8-10; Filipenses 2:9-11). Reconhecer o Senhorio de Jesus não é uma fórmula mágica escolhida por Deus para dar salvação àquele que a repete. É, muito pelo contrário, reconhecer de fato aquilo que Cristo tem de direito: o Senhorio sobre a Criação de Deus. É evidente que Jesus Cristo morreu para o perdão dos nossos pecados; porém, esse não é o significado último do Evangelho e de tal mensagem, até mesmo porque o Evangelho foi proclamado pelo próprio Cristo antes dele morrer. O significado último da morte e ressurreição de Jesus é o próprio reino de Deus: morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos (Romanos 14:9). O centro do Evangelho não sou eu; não é como eu me chego a Deus. O centro do Evangelho é Deus, e como ele reina sobre todas as coisas (tanto ontologicamente quanto escatologicamente).
Hoje, 25 de dezembro, comemoramos o Natal. Tal comemoração é parte intrínseca do Evangelho. O Evangelho assume um caráter de intensa e perpétua celebração do nacimento, vida, morte e ressurreição do nosso Senhor Jesus Cristo, e de como isso nos torna participantes do Reino de Deus.

G. Montenegro.

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