24/12/10

Humildade na Interpretação

O dogma protestante da Sola Scriptura, segundo o qual a Escritura Bíblica é completa e suficientemente para a salvação, não precisando ser complementada, pode assumir uma forma muito simplória, muito comum e muito perigosa.
Tal forma pode ser expressa na opinião segunda a qual, sendo a Bíblia suficiente, e sendo o Espírito Santo ajudador de todos os cristãos, não seria necessário um processo de interpretação científico (isto é, um processo de interpretação que levasse em conta conhecimentos históricos, linguísticos e culturais inacessíveis ao homem médio), bastando uma dedicação espiritualizada para que se chegasse à interpretação correta.
Certa vez, um conhecido (pseudonimamente tratado como “João”) me contou de que, ao consultar um pastor sobre que comentário bíblico deveria comprar, teve com conselho comprar um manuscrito “histórico-cultural”, que forneceria aquilo que ele não seria capaz de encontrar na própria bíblia, já que um comentário do próprio texto bíblico se faria necessário porque o Espírito Santo poderia ajudar João tanto quanto ajudou ao escritor do comentário.
Essa opinião tem alguns problemas. O primeiro é o de que isso não é confirmado pela experiência. A experiência confirma o seu oposto, aquilo que eu digo sem nenhum pudor: não existe nenhuma evidência de que Espírito Santo ajude a todas as pessoas igualmente em sua leitura e estudo das Escrituras. Peço a quem puder provar o contrário que o faça. Não podemos sequer estabelecer como regra que o Espírito Santo ajudará sempre, em todas as leituras da Escritura (ainda que recessivamente). Assim fosse, veríamos as Igrejas caminhando cada vez mais para a unidade doutrinária; o que vemos, pelo contrário, é suas distâncias cada vez mais largas. Existem aproximações aqui e ali, mas a situação geral é muito clara: o fator humano é muito predominante.
Veja-se, por exemplo, o problema da disputa entre Calvinismo e Arminianismo, no âmbito protestante. Podemos dizer, sem sombra de dúvida, de que de ambos os lados há cristãos sinceros interessados na verdade, entregando-se sinceramente a Deus e buscando, em oração, respostas pelo Espírito Santo. Mas a divergência permanece, porque em ambos os lados há o fator humano na interpretação.
O segundo problema é o de que as Bíblias que temos são em si traduções. Seja qual for a versão que se tenha em mãos, de sua edição provavelmente participou uma equipe de linguistas, teólogos, exegetas, e talvez até mesmo manuscritólogos, especializados na tradução do Grego e do Hebraico, para que o Novo e o Antigo testamentos pudessem ser vertidos a nossas línguas. É muito simplório pensar que o Espírito Santo não iria ajudar a interpretar a Bíblia escrita em outro idioma (fazendo o papel do tradutor), mas ajudaria a interpretar a Bíblia escrita em um idioma conhecido (fazendo o papel do comentador). “Mas ele poderia”, responderia quem ainda assim tentasse manter a hipótese. O problema é que as duas situações são igualmente prováveis, mas uma delas é impossível de fingir (não se pode fingir entender uma Escritura em grego se não se entende essa língua). A segunda situação, porém, é fácil de fingir. É muito fácil fingir que se está sento ajudado pelo Espírito Santo para chegar à interpretação verdadeira. É até fácil de fingir isso para si mesmo.
O ponto é que não existe mais motivo para crer que o Espírito Santo está sempre ajudando a interpretar a Bíblia em uma língua conhecida do que parar crer que o Espírito Santo está sempre ajudando a interpretar a Bíblia em uma língua desconhecida (como o seu original grego ou hebreu). Em ambas situações o Espírito Santo estaria ajudando o intérprete a fazer aquilo que não consegue.
O terceiro problema é transformar uma hipótese em um fato. É a falácia de que, uma vez que o Espírito Santo pode, ele o fará. Nesse sentido, o intérprete se coloca acima de todos os cristãos que já cometeram erros interpretativos. Dos três problemas, esse é o pior. É um problema de arrogância e soberba. Se somos ensinados a considerar cada um como superior a nós mesmos (Filipenses 2:3), pensar “eu posso interpretar tão bem quanto qualquer comentador, porque o Espírito Santo me ajuda do mesmo modo” é, sem dúvida, incoerente. Além disso, sabemos que a Igreja de Jesus Cristo é constituída de diversos ministérios, dentre os quais está o dos doutores (1 Coríntios 12:28,29; Efésios 4:11; cf. Mateus 23:34), aos quais, obviamente, está confiada a doutrina, para que ensinem a Igreja. E isso não depende da vontade de cada um, ou de sua santidade, ou de sua dedicação a Deus; depende do dom que se recebe de Deus. É arrogante aquele que não é doutor, mas pensa que é “tão capacitado pelo Espírito Santo” quanto um.
Espero que tenha ficado claro que minha posição não deriva de uma opinião pobre sobre o Espírito Santo. Creio que o Espírito Santo não esteja ajudando a todos, em todo tempo, igualmente, não porque ele não possa, mas exatamente porque ele pode, e o resultado do agir do Espírito Santo não poderia ser uma falha, mas infalivelmente um acerto. Não também porque eu creia que o Espírito Santo não possa ajudar e capacitar tanto quanto a um comentador, mas exatamente porque eu creio que o Espírito Santo pode capacitar tanto quanto a um comentador e a um linguista. Mais uma coisa deixo claro: em momento algum disse ser desnecessário ou secundário o Espírito Santo.
Pelo contrário, os mais famosos intérpretes e comentadores das Escrituras (Crisóstomo, Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino e muitos outros) eram todos eles pessoas dedicadas ao serviço de Deus, que buscavam servi-lo com humildade (a despeito de outros defeitos e pecados). É, no mínimo, um exercício de humildade ler o que aqueles que vieram antes de nós escreveram e ter sempre em consideração aquilo que eles disseram ("É eu e Deus" é sempre presunção), assim como considerar o que nos podem dizer a Teologia, a Historiografia contemporânea, a Linguística, etc. Exaltação da ignorância não é sabedoria.

G. Montenegro.

2 comentários:

  1. Bom dia, ouvi um evangelico dizer que há diferença entre meditar na Palavra e ler-a, pelo fato do Espirito Santo ajudar a interpretá-la por isso não tem necessidade de dedicar-se a leitura. Se não me engano acho que é da congregação cristã, o Sr. poderia colocar como o Sr. vê esse erro deles interpretar, por favor.

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  2. De fato a referida seita ensina isso. Todas as igrejas protestantes históricas rejeitam essa heresia.

    O fato é que diversos grupos clamam a mesma coisa: que o Espírito Santo os ajuda em sua interpretação. Mas esses grupos discordam entre si quanto à interpretação das Escrituras. Essa discordância resolve-se retoricamente, sob o manto da PREPOTÊNCIA: "O Espírito Santo está aqui, e não aí".

    Já conheci um sujeito que dizia exatamente isso, que o Espírito Santo ensinava a interpretar, mas não demorou para que sua ignorância das Escrituras se tornasse patente.

    De qualquer forma, esse problema não pode ser discutido em abstrato assim, "o Espírito Santo dá a interpretação ou não?". É preciso mostrar ao herege que sua interpretação de UM TEXTO BÍBLICO ESPECÍFICO está errada e não pode ser verdadeira.

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