27/11/10

Sobre a Graça e o Livre Arbítrio - Parte I



Ao longo da história do cristianismo foi constante o debate acerca de como a graça de Deus opera no homem a salvação, se por cooperação, se a graça seria suficiente, se esta seria condicionada pelo livre arbítrio, se este estaria condicionado pela própria graça e qual seria o papel desempenhado pelas obras em tudo isso. O título deste tópico é o mesmo de um livro escrito no século V por um dos grandes envolvidos no debate deste tema: Agostinho de Hipona.

O debate, na época, era entre Agostinho e Pelágio, ambos clérigos, defendendo posições que viriam a se chamar agostinianismo e pelagianismo, dada a influência que esses dois pensadores tiveram na Igreja em sua época. Contemporâneo a ambos era o monge João Cassiano, que defendia uma posição posteriormente chamada de semipelagianismo (o que é discutível).
No ocidente, o agostinianismo venceu, sendo de modo geral reconhecido no 2º Concílio de Orange (529 d.C.). Embora nem toda a teologia de Agostinho tenha sido ratificada pela Igreja Latina, as linhas gerais de sua doutrina da graça foram confirmadas e mantidas. Tal modo de conceber a graça se tornaria um lugar comum com o pensador medieval Tomás de Aquino, e, com algumas modificações, os reformadores Lutero e Calvino. Tais desenvolvimentos não teriam o mesmo efeito no oriente: as igrejas ortodoxas não reconheceram o 2º Concílio de Orange, tendo uma doutrina própria a esse respeito (às vezes também chamada de semipelagiana, o que também é discutível).
Uma doutrina da graça mais elaborada foi apresentada pelo Catolicismo Romano no Concílio de Trento, o que, porém, não encerrou o debate no âmbito latino, que se reacenderia com a disputa trazida pelo Jansenismo. Semelhante ao debate travado entre o jansenismo e os jesuítas (no catolicismo) foi aquele que surgiu entre o calvinismo e o arminianismo (no protestantismo).
Neste tópico pretendo tratar o tema do ponto de vista meramente histórico, isto é, apresentar as doutrinas defendidas por esses teólogos cristãos sem entrar no mérito da verdade das respostas apresentadas por cada grupo. Não se discutirá a questão do ponto de vista da exegese bíblica, mas da história da doutrina. Não que não seja importante; apenas fica para outro dia.
Um grande problema com a reconstrução histórica das doutrinas é o fato de que os relatos muitas vezes são unilaterais. Como a doutrina de Pelágio foi condenada, o pelagianismo que encontramos refutado por Agostinho ou Jerônimo não necessariamente corresponde àquilo que Pelágio de fato acreditava, mas sim ao modo como os seus adversários o representaram.
É bom que se tenham em mente, antes de tudo, que a concepção que temos de “livre arbítrio” é essencialmente cristã. Os pagãos dos tempos de Paulo não tinham a mesma concepção que seria defendida pelos teólogos cristãos; uma das escolas de pensamento dominantes, o estoicismo, defendia exatamente o contrário, isto é, o determinismo, estando o ser humano sujeito à operação de todo tipo de forças. Também os gnósticos negariam tal possibilidade de livre arbítrio.

Há duas posições principais a serem adotadas na questão, que nos servem de norte na explicação daquilo que vem posteriormente: monergismo e sinergismo.
  • Monergismo (ou, mais propriamente, o monergismo divino, já que seria possível um monergismo humano) é a posição segundo a qual toda a obra salvífica é operada por Deus, independentemente de qualquer cooperação por parte do homem.
  • O Sinergismo seria, em oposição, a crença segundo a qual a obra salvífica resulta de uma cooperação entre Deus e o homem.

Há, porém, diversas formas de monergismo e sinergismo, e uma explicação mais detalhada, já que ainda não entrou em jogo a questão da graça, das obras e do livre arbítrio.
Nosso problema começa com Agostinho e Pelágio. Antes de entrarmos naquilo em que eles discordavam, tratemos daquilo em que concordavam.
  • Primeiro, Agostinho e Pelágio eram sinergistas, isto é, defendiam a posição de sinergismo, tratando a salvação como uma cooperação entre Deus e o homem. Não, Agostinho não era calvinista (embora sua doutrina da graça e da predestinação guarde muita semelhança com a deles, como veremos quando tratar do calvinismo).
  • Segundo, Agostinho e Pelágio concordavam em que a graça de Deus é absolutamente necessária à salvação. Não, Pelágio não era um monergista humano.
  • Terceiro, Agostinho e Pelágio concordavam em que todos os homens serão julgados pelas suas obras, dando Deus a uns a vida eterna e a outros a condenação eterna segundo tal julgamento.
  • Quarto, Agostinho e Pelágio concordavam que as crianças deveriam ser batizadas.
  • Quinto, Agostinho e Pelágio acreditavam no livre arbítrio.

A divergência surgia quando era levantada a questão sobre qual tem precedência na salvação: a graça de Deus ou a escolha (livre arbítrio) do homem?


Agostinho argumentaria (como ele explicita em três de suas obras: “A Predestinação dos Santos”, “O Dom da Perseverança” e “Sobre Graça e Livre Arbítrio”) que a graça de Deus tem a precedência sobre o livre arbítrio. Embora Agostinho creia que o homem seja capaz de fazer o bem, o próprio desejo de fazê-lo e a realização deste desejo seriam frutos da graça de Deus. Pela graça de Deus o homem receberia o dom da fé, sendo salvo.
Agostinho admitia a possibilidade de que alguém caísse da graça, isto é, que, embora por um tempo salvo através desta graça, pudesse perder a salvação. Para que permanecesse nesta salvação, precisaria receber de Deus o 'dom da perseverança' (isto é, a graça suficiente para perseverar). Nada que o homem fizesse poderia lhe garantir tal dom; embora o homem devesse orar para receber tal graça, o próprio ato de orar pedindo pela perseverança seria resultado da graça. Assim, Agostinho explica o fato de alguns perseverarem por pouco tempo, outros por muito tempo e outros até o fim através da perseverança, que a uns foi concedida pouco, a outros muito e a outros até o fim.
Tal graça seria responsável pela santificação do homem, pela sua boa conduta, por resistir às tentações (assim como não pecar) e por todas as boas obras. Segundo Agostinho, todas as nossas boas obras procedem de Deus, e, portanto, devem ser a ele atribuídas, e não a nós mesmos.
Agostinho acreditava que por fim a vida eterna seria dada, conforme a graça divina, sendo o homem julgado pelas obras que desempenhou através da graça. Defendia também que, embora o nosso livro arbítrio seja moldado pela graça, ainda assim o homem tem a opção de escolher. Tal escolha, porém, é sempre resultado da graça.
Assim, Agostinho defendia a predestinação, segundo a qual Deus já tem estabelecido (segundo sua própria escolha, e não segundo nossas ações), desde o princípio, quais indivíduos serão salvos (embora não tenha determinado quais não serão). Tal predestinação não seria baseada em obras, ou seja, a escolha de Deus não seria pautada no comportamento que nós iriamos desempenhar; nós nos comportamos bem porque fomos predestinados, e não fomos predestinados porque nos comportamos bem. O motivo da escolha seria um mistério divino.
Por fim, Agostinho defendia a ideia de pecado original, uma de suas ideias que maior influência teve no ocidente, primeiramente no catolicismo e posteriormente herdada por grande parte dos grupos protestantes. Para Agostinho, toda a humanidade carrega o fardo do pecado de Adão, já nascendo todos pecadores, necessitando do batismo até mesmo as crianças, para que recebam perdão pelos seus pecados.

Pelágio responderia diferentemente. Para Pelágio, a graça divina ajuda, revela e conduz o homem, mas em todo momento a escolha do homem é determinante. Como ele bem diz em um dos fragmentos de sua Defesa do Livre Arbítrio, “Que nós sejamos capazes de fazer o bem procede de Deus, mas que nós de fato o façamos, procede de nós”. Em outro fragmento, esclarece Pelágio crer que, embora Deus tenha capacitado a todos os homens com a capacidade de fazer e desejar o bem, a escolha de fazê-lo é individual. A salvação seria uma escolha própria; a graça divina seria um auxílio instrumental.
Para Pelágio, as boas obras seriam um resultado da vontade humana, Deus concedendo apenas a capacidade de desejar o bem. Assim, Deus nos concede a capacidade de desejar o bem (ficando-nos facultado desejar ou não) e nos auxilia em desempenhar o bem (ficando-nos facultado o desempenhar ou não), mas é absolutamente necessário que o homem escolha de si mesmo realizar tal bem. O homem não seria de si mesmo capaz de desejar e realizar nada bom.
Pelágio não acreditava no pecado original. O batismo infantil teria a função de introduzir as crianças no Reino de Deus e terem vida nova.



João Cassiano, que não estava diretamente envolvido no debate, apresentou em seus escritos uma perspectiva interessante. Em suas conferências, apresenta a opinião de alguns monges sobre diversos assuntos. Dentre essas conferências, a 13ª trata precisamente dessa questão.
Diferentemente de Agostinho e Pelágio, que tratavam a questão de modo uniforme, o abade Chaeremon (retratado na referida 13ª conferência) acreditava que Deus poderia agir, na salvação dos indivíduos, de diversos modos. Ele apresenta, de modo geral, três grupos de pessoas: o primeiro grupo de pessoas deseja fazer o bem; o segundo grupo de pessoa é indiferente; e o terceiro grupo não deseja o bem.
Quanto ao primeiro grupo, opina Chaeremon que eles teriam um fragmento de bondade em si. Tal fragmento seria uma graça que Deus haveria concedido a toda a humanidade. Esse fragmento de bondade levaria tais pessoas a desejar o bem. Deus, por sua vez, tem misericórdia dessas pessoas e lhes concede a graça para que sejam salvas. A salvação não é iniciada por esse fragmento de bondade; ela é iniciada pelo agir misericordioso de Deus diante do esforço dessas pessoas em desejar o bem. Aqui, tal doutrina se assemelha à de Pelágio.
O segundo grupo e o terceiro grupo de pessoas não estão ativamente desejando o bem (ou mesmo lutando contra ele). Deus, por sua graça e bondade, transformaria o comportamento dessas pessoas para que desejassem o bem, os convertendo, e tal graça capacitaria tais pessoas a continuar a salvação. Aqui, tal doutrina se assemelha à de Agostinho.
Tal posição é peculiar justamente porque encontra um jeito distinto de balancear a relação entre obras e graça. Enquanto a eleição divina não dependeria de obras (já que mesmo os eleitos sem obras e que não desejam a salvação seriam convertidos), ainda assim tais obras poderiam ter influência.

A posição conhecida como semipelagianismo não deriva de João Cassiano, embora guarde semelhança. Para os semipelagianos, a salvação é iniciada pela escolha do homem. Depois de tal escolha, porém, opera a graça divina e toda a continuação da salvação é dependente dela.

O pelagianismo e o semipelagianismo foram condenados nos cânones do 2º Concílio de Orange.


G. Montenegro.

8 comentários:

  1. Basicamente, a diferença entre o semipelagianismo e o pelagianismo é quanto à capacidade de desejar o bem, que, segundo o primeiro, pode ser originada do próprio homem, enquanto o outro afirma que essa capacidade vem única e exclusivamente de Deus?

    Ana Júlia

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    1. Falando bem simplificadamente, no pelagianismo o homem decide ter fé e decide perseverar nela.

      Já no semipelagianismo, o homem decide ter fé (initium fidei), mas a perseverança nela (incrementum fidei) é dada por Deus.

      No agostinianismo, tudo isso é dado por Deus.

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  2. Com certeza não concordo com Agostinho.

    Bem, faça o favor de publicar a Parte II logo! haha
    ;*

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  3. Calvino era amilenista ou pós milenista????

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    1. Não me julgo habilitado a responder a essa pergunta. De toda forma, a separação entre amilenismo e pós-milenismo é posterior a Calvino.

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  4. Boa noite irmão abençoado. Voce poderia me informar a bibliografia utilizada no discurso acima?

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  5. Boa noite novamente. O meu email: alexandremadsun@gmail.com ou se preferir whatssap 21 999694217. Obrigado...

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