25/11/10

Inimigos Ideológicos do Cristianismo III

Falamos do gnosticismo. Aquilo que o gnosticismo é na religião, o idealismo é na filosofia. Tal expressão não é empregada aqui no sentido que tem na linguagem cotidiana. De maneira mais geral, o idealismo é a escola da Ontologia (estudo do ser enquanto ser) segundo a qual a realidade é composta de ideias, não de matéria. Duas formas historicamente influentes do idealismo foram o pitagorismo e o platonismo (ambos se fundindo depois no neoplatonismo, também adversário histórico do cristianismo, um corpo misto de religião, misticismo e metafísica), ambos precursores e influenciadores do gnosticismo.
Se o idealismo é uma visão radical e reducionista da realidade por afirmar ser apenas reais as ideias, há também outra visão extremada da realidade. Chama-se materialismo. Novamente, não se trata da acepção vulgar do termo. O materialismo assume muitas formas, mas, também de modo geral, expressa-se na opinião de que tudo o que existe é composto pela matéria, e nada além, entendendo-se matéria aqui em um sentido um pouco mais amplo do que aquele empregado pela Física.
Para o materialista, até mesmo os nossos pensamentos são resultados das interações da matéria. A tendência do materialismo é findar em um fatalismo ou determinismo, que eliminam o arbítrio do homem (e, portanto, também a responsabilidade por suas atitudes). De modo geral, é incoerente na visão materialista acreditar em justiça, bem, moral e valor; para o materialista, tais ideias não são objetivas, mas são resultados de processos históricos.
Já falamos do comunismo na primeira dessas postagens. Em um certo sentido, o comunismo marxista é uma grande síntese do utopismo gnóstico e do materialismo. Não é à toa que Marx chamasse sua forma de pensamento de materialismo dialético. Possuindo o revolucionário comunista a gnosis necessária à transformação, ele observa o presente com os olhos daquilo que deseja ser a verdade. Assim, toda ação no presente é justificada por uma ordem ainda inexistente; o comunista acredita tão cegamente em sua revolução que, no presente, até matar é justificado. Sua percepção da realidade está tão alterada que a simples constatação de que o comunismo não funcionou em nenhum país não altera sua fé cega.
Não há como culpar uma só pessoa pelos erros do século XX, mas certamente um culpado foi o luterano Immanuel Kant. Se traçarmos uma genealogia das ideias, vemos que grandes ideologias políticas contrárias ao cristianismo tem sua origem remota em Kant. Não, não me refiro apenas à crença de Kant no progresso. Dentre os culpados estão os intérpretes e críticos de Kant.
filosofia moderna (que se inicia no século XVI), de modo geral, é uma tentativa de reconstruir a filosofia do zero. Assim, Thomas Hobbes inicia sua obra de política, o Leviatã, com uma elaboração de psicologia (filosófica) e epistemologia; nada mais natural para quem está começando do nada e não pode se basear em nada anterior. Do mesmo modo, enquanto a filosofia medieval (a exemplo de Tomás de Aquino) tentou construir uma metafísica que se inicia nos sentidos e somente depois passa à realidade não sensorial, Descartes (e, depois, Espinosa, Leibniz e Wolff) tentou construir uma metafísica à moda da Matemática, sem fazer referência à realidade sensorial (em seu caso, derivando a metafísica do Cogito ergo sum); Leibniz claramente declara a necessidade de utilizar, para a Metafísica, o método matemático, em seu Tratado sobre Metafísica; a mais famosa obra de Espinosa chama-se, sem espanto, “Ética demonstrada à maneira dos geômetras”.
Kant inicia sua crítica à metafísica partindo da concepção moderna de Metafísica (metafísica dedutiva), não da concepção medieval/tomista (metafísica indutiva). Embora Kant no prefácio de sua “Crítica da Razão Pura” (sua obra mais conhecida) afirme que sua escola, o Criticismo, poderia eliminar o materialismo, fatalismo, ateísmo, livre pensar, fanatismo, superstição, idealismo e ceticismo, o tiro saiu pela culatra. A influência que Kant produziu na filosofia moderna, através da crença de que ele houvera demolido as bases da Metafísica (ou daquilo que se entendia por Metafísica na filosofia moderna), foi exatamente o fortalecimento de tais ideias que ele pretendera refutar. Um dos mais famosos seguidores de Kant, Hegel, era ele mesmo um idealista.
Quando se elimina a Metafísica, o resultado é o relativismo. O relativismo está disseminado na cultura pós-moderna, cheia de confusões (dentre as mais absurdas, a confusão entre o relativismo e a Teoria da Relatividade de Einstein). Embora o relativismo “absoluto” seja impossível (ainda que afirmado por muitos), tal pensamento expressa-se na ideia de que não há uma realidade objetiva a ser conhecida; todas as coisas são subjetivas.
O relativismo absoluto é impossível porque refuta a si mesmo: se não há verdade, como afirma o relativista, então o relativismo não pode ser verdadeiro. O relativista faria um melhor serviço (ao menos aos que o cercam) em dizer: eu não conheço a verdade. O conceito de “verdade” é o da correspondência entre o pensamento e a realidade. Ainda que não haja verdade (o que, ainda que seja absurdo, concedemos ao relativista por um instante), tal é o conceito de verdade (assim como há um conceito de unicórnio ainda que inexistindo tal animal). O relativista é um cruel ditador, e ilustro isso com um exemplo simples: quando digo que é verdade que há um computador em minha frente, declaro apenas algo contingente. Se há realmente tal computador, trata-se de uma verdade; se não há, não verdade. Entretanto, o relativista vai muito além da simplicidade contingente; se não há verdades, é totalmente impossível que haja tal computador, ou, do contrário, haveria uma verdade. O realista simplório declara algo meramente contingente; o relativista declara algo necessário (no sentido lógico/modal da expressão). Assim, o relativista acaba, sem saber, afirmando conhecer a realidade de uma maneira muito mais completa (até onisciente) que o mero realista.
O relativismo está na educação, por exemplo, através do Construtivismo. A visão conservadora de educação é a própria tradição (do lat., traditio, entrega, transmissão), ou seja, aquela segundo a qual o professor transmite ao aluno um conhecimento objetivo que este inicialmente não possuía (ou, o que aí também se inclui, lapida um conhecimento já possuído pelo aluno). Não se deve confundir isso com ensino autoritário; nada mais saudável e tradicional que ensinar o aluno a pensar por si mesmo e debater suas ideias, como ocorria nas universidades da Idade Média. Entretanto, para o construtivismo, todo conhecimento é construído (e, portanto, deve ser) pelo próprio aluno, não havendo um conhecimento objetivo que o professor possa lhe passar. É óbvio que o construtivismo finda em uma eliminação da tradição. Entretanto, uma leitura mais atenta (e crítica ao pós-modernismo, ou charlatanismo) permite ver que o construtivismo é uma eliminação da própria educação.
Um dos motivos pelos quais o construtivismo destrói a educação é o fato de que ele destrói a capacidade do conhecimento em ser progressivo. A religião e a ciência tem um fator em comum que está em sua estrutura reprodutiva mais básica, que é o seu acúmulo coerente de conhecimentos. A ciência, por exemplo, só é útil se for progressiva; se cada avanço for uma representação mais perfeita da realidade. A ciência seria pouco útil se qualquer coisa pudesse a afetar; sua utilidade vem da segurança que ela fornece em suas descrições. Para que uma geração possa realizar progresso em relação à anterior, é necessário que o estudante se adeque ao saber científico de seu tempo e o aprenda não como lhe parece, mas como está dado. Do contrário, teria o aluno que percorrer toda a história da ciência até aquele momento, o que inviabilizaria o ensino da ciência, e, consequentemente, a própria pesquisa científica.
Na religião funciona-se semelhantemente. Falando-se especificamente do Cristianismo, há um conjunto de questões que estão respondidas pela revelação divina; são preceitos fundacionais da religião (assim como nas ciências há princípios ontológicos que, se removidos, eliminam a própria possibilidade de tal ciência), de modo que seria irracional exigir que a própria religião. A partir de tal revelação, um leque de questões é respondido e um grande grupo é deixado em aberto. Através dos séculos, os teólogos, bispos e concílios responderam a tais questões abertas, dadas as necessidades do tempo (surgimento de novos problemas, por vezes inafastáveis), mas sempre procurando partir daquilo que já se sabia anteriormente. O repertório que é transmitido é a tradição. Destruindo a tradição, o construtivismo destrói tanto a religião quanto a ciência.
Em realidade, o construtivismo é parte de um projeto maior, que é o desconstrução dos valores e das estruturas presentes na sociedade ocidental. Novamente se apresenta o gnosticismo cultural. Um importante elemento do gnosticismo histórico é a ideia de que todos (exceto o gnóstico, que transcende tal realidade pela gnosis) estão presos sob uma estrutura mística de poder, que, ao mesmo tempo em que é material, controla a realidade material de modo imperceptível (a todos, exceto ao gnóstico). No gnosticismo cultural, tal estrutura de poder por vezes é o capitalismo (a exemplo das ideologias políticas que criticaram o capitalismo, como o Fascismo, o Nazismo e o Marxismo), mas pode ser também a linguagem. Tal fixação pela linguagem é um lugar comum na filosofia contemporânea.

G. Montenegro.

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