15/10/10

Inimigos Ideológicos do Cristianismo

Antes de tudo, é preciso justificar esse título “combativo”. O Cristianismo sempre teve diversos inimigos, dentre os quais nós mesmos, cristãos, além de seu inimigo por excelência, que recebe, justificadamente, o título de Inimigo. Tal tópico não se refere a tais inimigos... diretamente. Indiretamente, tudo aqui diz respeito a tais inimigos.
Ademais, não encontrei nenhuma palavra tão apropriada quanto 'inimigo', ainda que sob a condição de uma explicação: trata-se de inimigos ideológicos. Tais inimigos não são pessoas, mas ideias. É evidente que tais ideias não surgiram em um vácuo, mas vieram da cabeça de alguém. Entretanto, várias dessas ideias se enraizaram na cultural de modo tão forte que, se eu quisesse acusar alguém, acabaria o fazendo com respeito a alguém já falecido.
Tais inimigos ideológicos não tem sua existência em função do cristianismo, mas muitas vezes sua origem. Entenda-se aqui o “cristianismo” em um sentido mais amplo, incluindo não só a religião per se, mas o conjunto de valores e princípios que são encontrados mesmo em uma sociedade pós-cristã, isto é, os valores que o cristianismo enraizou quando fundou a sociedade ocidental (um cristianismo 'de fundo'): o Ocidente é uma unidade originalmente cristã. Alcançou sucesso mais duradouro na unificação do Ocidente a Igreja Católica que o Império Romano. Ainda que tais formas de pensamento em um dado momento estejam emancipadas do debate com o cristianismo, são formas de pensamento que combatem o cristianismo. O cristianismo não surgiu como inimigo de tais ideologias, mas exatamente o contrário.
Também é bom que se tem em mente que nem todos esses inimigos ideológicos se autoproclamam inimigos. Em realidade, boa parte deles surge no seio do próprio cristianismo ou se utiliza do cristianismo. Um exemplo disso é o nacional socialismo alemão, ou nazismo, que se utilizou da religião cristã e da igreja estatal alemã como massa de manobra.
O caso que mais claramente expressa o que digo é o gnosticismo. Na forma a que aqui me refiro, o gnosticismo é uma heresia surgida no século II da era cristã. A despeito da existência de um gnosticismo anterior, ainda no judaísmo, o gnosticismo ao qual me refiro é precisamente aquele de Valentino, Cerinto e dos heresiarcas posteriores.
Em síntese, o pensamento gnóstico é uma reação platônica ao pensamento judaico-cristão. Na visão judaica e cristã, todo o universo é a Criação de Deus e foi criado essencialmente bom, a despeito do atual estado de coisas. Assim, tudo aquilo que vemos, todas as coisas, tem em sua origem algo bom e puro. Por algum motivo (as explicações são diversas, mas de modo geral um afastamento entre o gênero humano e Deus), a Criação passa no momento por uma 'crise', mas tal crise é momentânea, e em um dado momento escatológico Deus restaurará todas as coisas ao estado de glória inicial. Cumpre ao homem crer em Deus e fazer a Sua vontade; no mais, a transformação do mundo é feita por Deus.
De que modo o gnosticismo reage a tal pensamento? Com uma total modificação dos pressupostos do cristianismo. Observando a mesma situação (a não espiritualidade e decadência do homem, o afastamento entre a criatura e o Criador, etc), dá uma interpretação que visa dizer exatamente o oposto do que o cristianismo defende. Segundo os gnósticos (seguindo aqui o platonismo), o mundo é por demais perverso, mau e imperfeito para ser criação de Deus, que é bom. Somente algo bom e perfeito poderia vir de Deus. Logo, o mundo teria sido criado por um ser inferior, o demiurgo. Consideravam também que, dentro de alguns havia uma iluminação especial, uma semente divina, uma gnose, que permitiria que esses transcendessem toda a “realidade” e pudessem chegar até Deus. Para o gnóstico, o principal não seria a fé, mas tal conhecimento superior, tal gnose. Não haveria um momento escatológico em que Deus restauraria todas as coisas e traria a sua ordem; os gnósticos, superiores a todos os demais humanos, seriam os únicos capazes de, por algum processo de espiritualização, transcender até Deus.
Assim, enquanto o cristão acredita na Ressurreição dentre os mortos, que ocorrerá no futuro, tal doutrina é, para o gnóstico, aberrante. Ele crê, antes, em um processo espiritual que permite deixar o corpo, que é mau, e ir até Deus apenas em espírito. Além disso, o gnóstico é também doceta. Para o docetismo, o corpo de Cristo não é um corpo real, já que a matéria é má. Seria um corpo meramente ilusório, de modo que não haveria real sofrimento na cruz. Vê-se, portanto, o quão contrárias ao cristianismo são as conclusões do gnosticismo. Usando aqui a mesma metáfora por meio da qual Chesterton compara o Budismo e o Cristianismo, podemos dizer: o gnosticismo é centrípeto (interiorizado, tendente para a experiência interior), o Cristianismo é centrífugo (exteriorizado, tendente para a experiência exterior).
O gnosticismo altera a percepção da realidade: enquanto o cristianismo cria distinções (a distinção entre o Criador e a criatura, mas com identidade entre eles, a criatura carregando a marca do Criador), o gnosticismo cria radicalidades (o Ser supremo que sequer é criador, e o universo totalmente distante dele). Enquanto o cristão acredita que nele próprio há algo mau e pecador, o gnóstico não consegue crer nisso. Precisa crer, antes, que em realidade o que há de mau é tudo ao redor; ele próprio é bom e divino.
O princípio do qual se pode derivar todo esse imaginário gnóstico, como vimos, é o da rejeição, ódio, desprezo pela realidade, por tudo aquilo que nos cerca, e até mesmo o nosso próprio corpo, porque, para o gnóstico, nenhuma dessas coisas provém de Deus. Tudo o que o gnóstico deseja é deixar esse mundo; o que o cristão deseja é que Deus o transforme. São respostas distintas diante da questão: por que o mundo sofre?

Há um ponto essencial no gnosticismo: para que a resposta oferecida pelo gnosticismo seja consistente, é necessário rejeitar toda a tradição e todas as instituições tradicionais. Assim, na visão dos gnósticos, eles próprios seriam os sucessores dos apóstolos, e não os bispos cristãos.
O gnosticismo não morreu na antiguidade, mas, de uma maneira ou de outra, chegou até os nossos dias, tendo influenciado figuras como Aleister Crowley e Carl Jung. Esse é o gnosticismo histórico. Diz respeito àqueles que professam a crença gnóstica conscientemente (ainda que nem sempre conscientes de sua origem). Entretanto, na contemporaneidade podemos encontrar um gnosticismo cultural. Está maciçamente presente na literatura, na música, no cinema, nos movimentos sociais, nas ideologias políticas, nas “novas religiões”, nos movimentos “Nova Era”, na auto-ajuda (a própria ideia de que alguém pode ajudar a si mesmo é em si, além de contraditória, essencialmente gnóstica), no esoterismo, na medicina alternativa (na realidade, em quase tudo que é alternativo). Acontece que geralmente está lá despercebido. São ideias sobre individualismo (certamente um inimigo do cristianismo; não confundir com a individualidade), sobre uma essência divina interior, sobre mudar o mundo, sobre a perplexidade diante do mundo, sobre a generalizada perversão das instituições.
Diversos cientistas políticos, como Eric Voegelin e Igor Shafarevich, identificaram o gnosticismo na Política. O Socialismo (incluindo aqui o Nazismo), o Comunismo (incluindo aqui o Marxismo) seriam formas desse gnosticismo. Tanto o Nazismo quanto o Marxismo partem do pressuposto de que o atual estado de coisas é em si deplorável, mas que pode ser transcendido através de um conhecimento (a ciência biológica darwinista, no caso do Nazismo, e a ciência econômica marxiana, no caso do Marxismo), de modo que seria possível transformar o mundo ao redor. Tal transformação cabe a uma elite: no caso do Nazismo, à nação alemã e o seu Reich; no caso do Marxismo, à classe proletária e sua respectiva ditadura. Ambas as formas de pensamento são utópicas. Se na visão cristã não somos capazes de transformar o mundo porque primeiro precisamos ser transformados por Deus, na visão utópica não cabe a ideia de que há em nós algo mau que nos impede disso. Não é à toa que o Marxismo tenha, em si, uma escatologia: a de que, assim como a burguesia (capitalismo) sublevou o feudalismo, o comunismo sublevará o capitalismo. Na visão cristã, o progresso é trazido por Deus, e acontece no futuro, no eschaton, no fim dos tempos; na visão utópica, pelo próprio homem.
O utopismo político, tal ideia de que é possível construir uma sociedade perfeita, um céu na terra, sem que tal mudança se dê pelo milagroso agir de Deus, é sempre contrário ao cristianismo. Isso não significa que o cristianismo seja contrário à ação em favor dos que sofrem, dos que são inferiorizados, dos que são discriminados, dos mais aflitos. O cristão é, pelo contrário, incentivado a agir em prol dos demais. Foi a doutrina de Cristo que moveu William Willberforce, Thomas Clarkson, Charles Middleton e outros cristãos em direção à abolição do trabalho escravo. Cristo e César, porém, não podem sentar-se no mesmo trono. Na pregação de Cristo, algo marcante é sua ênfase no discurso sobre o Reino de Deus, uma promessa profética de um Reino perfeito, sendo Cristo o seu rei. Aqueles que, como Virgílio, entronizam César, destronam a Cristo.
Há outros inimigos do Cristianismo. Um deles é o Anarquismo. Embora historicamente houvesse cristãos anarquistas – a exemplo de Tolstoi – o anarquismo atinge um ponto fundamental da doutrina cristã: a ideia de que a humanidade é de tal modo pecadora que necessita de redenção. Enquanto o gnosticismo responde distintamente do cristianismo à pergunta acerca da origem do mal no homem, o anarquismo nega o sentido da própria questão. Para o Anarquismo, uma sociedade sem Estado é mais desejável que uma com Estado. Para isso, é preciso negar aquilo que há de mais evidente na doutrina cristã, aquilo que podemos observar e descobrir sem precisar da Escritura: que todos são pecadores, e que precisam de libertação. Uma sociedade com o Estado humano não é perfeita nem desejável para o cristão – ele deseja o Reino de Deus – mas certamente o Estado é mais desejável que uma sociedade sem Estado. Mas, de fato, o problema não é o Estado, mas a negação da corrupção do gênero humano. Além disso, por vezes o Anarquismo (assim como o Comunismo, a exemplo do comunismo presente na República de Platão) tende a abolir instituições que o Cristianismo preza, a exemplo da família, na acepção conservadora do termo.
Materialismo (não a matéria), Naturalismo (não a natureza), Individualismo (não a individualidade), Anticlericalismo, Informalismo (não a informalidade), Irreligiosismo, Relativismo (não a relatividade), Ceticismo, são todos, em certo sentido e entendidos de uma certa maneira, inimigos do cristianismo. Em um outro momento poderemos analisá-los de mais perto.

Gyordano Montenegro Brasilino, peccator.

2 comentários:

  1. Uma ideia para que você pense a respeito: vocês PRECISAM desses "inimigos". Por que a ideologia cristã, seu conjunto de crenças, chame como bem entender, só funciona quando há um inimigo. Pois o inimigo pode ser culpado. É necessário um Judas. As pessoas tem que saber contra o que lutar. Por isso, hoje em dia, nos encontramos tontos: lutamos contra um inimigo invisível. Ninguém sabe qual é o inimigo. Vocês estão oferecendo alguns, em troca de fraqueza de caráter e submissão à sua religião, e para a maioria das pessoas isso é o melhor ao que elas podem chegar.
    A grande catástrofe que a religião trouxe ao mundo, mais especificamente a cristã, foi a ideia de perdão e culpa. Elas anulam qualquer responsabilidade. O sistema do cristianismo é toda uma grande justificativa. Peque, mas tenha fé: serás perdoado, terás vida eterna.

    "negação da corrupção do gênero humano" > obviamente, depois de termos criado a ideia de Deus, em toda sua perfeição, olhamos para nós mesmos e nos encontramos imperfeitos. O ser humano não é bom ou mal, esses são conceitos muito rígidos, muito idealistas, muito platônicos e muito subjetivos. Não somos corruptos. E, se formos em certa medida, não temos culpa.
    A culpa foi inventada por vocês, por que ela é a pior doença que pode acometer um ser humano, ela destrói qualquer pessoa. Ela permite controle.

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  2. Agradeço pelo comentário, mas sua opinião deixa de levar em consideração um fato já esclarecido: todos esses inimigos ideológicos são posteriores ao Cristianismo. Eles mesmos se colocaram contra o cristianismo, e não o contrário.

    Em segundo lugar, a culpa não foi inventada pelo cristianismo, nem é nada de rígido, idealista, platônico. A culpa é um estado inerente à condição humana; tudo o que o Cristianismo faz é relevar o fato de que o ser humano não pode ignorar essa culpa. É diretamente responsável por todos os seus erros. Mas vai além: o que o Cristianismo diz é que NÃO IMPORTA quão grande seja a sua culpa. Não importa que pecado você tenha cometido, quão grande seja. O perdão está sempre disponível, desde que haja o mais sincero arrependimento e contrição. Quer pregação mais forte contra a culpa?

    Agora dizer que o conceito de CULPA anula a responsabilidade? Não, absolutamente falso. A culpa significa exatamente que você é diretamente responsável por tudo aquilo que fez, AINDA QUE subjetivamente não o sinta, ainda que não se sinta culpado, é diretamente responsável.

    A doutrina cristã não ensina que "se tiver fé, não será punido", como a Sra. coloca. Isso não é a doutrina cristã. O Cristianismo ensina, isso sim que tal pena não será eterna; não ensina que a culpa simplesmente desaparece. Continuamos responsável por tudo o que fazemos.

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