20/10/10

Inimigos Ideológicos do Cristianismo II

_____Na postagem anterior, prometi observar mais de perto certas escolas de pensamento e ideologias que contribuíram e contribuem para a destruição, em diversos campos (filosofia, ciência, cultura, etc), da sociedade e sua consequente perda de valores cristãos. Entretanto, ainda há o que se falar sobre o gnosticismo cultural contemporâneo.

_____O gnosticismo faz um corte entre a realidade interior e a realidade exterior. No Cristianismo, o interior e o exterior, apresentam, ao mesmo tempo, distinção e correlação. Não há radicalização de nenhuma dessas duas esferas. O gnóstico, entretanto, radicaliza a esfera interior em detrimento da exterior. O gnosticismo é essencialmente dualista, acreditando em oposições estáticas. Não é à toa que o nome que damos a isso hoje em dia é maniqueísmo, originalmente o nome de uma seita gnóstica fundada por Mani.

_____É extremamente coerente a interpretação segundo a qual o Evangelho de João fora escrito em oposição a um “protognosticismo”. Tal evangelho se utiliza de temas que são gnósticos em sua natureza: a oposição entre o divino e o humano, o de cima e o de baixo, entre Deus e o mundo. Entretanto, ainda que os temas são gnósticos em sua aparência, são antignósticos em sua essência. Enquanto, na criação (João 1:1-3) de fato Deus tenha entregue a Criação ao seu LOGOS (Verbo), o Logos é Deus. Não se trata de um demiurgo, um ser inferior. Assim, a Criação é um plano do verdadeiro Deus, não de um falso.

_____O gnosticismo, como já dito anteriormente, é contrário à tradição. Tradição é algo essencial ao cristianismo e essencial à civilização. Tradição é a entrega daquilo que é antigo no presente. Pressupõe profundo respeito por aquilo que é antigo e pelo que os antigos fizeram de correto.

_____Nos tratamos educadamente porque isso faz parte de nossa tradição; fazemos fila porque isso é nossa tradição; também acreditamos na Bíblia porque é nossa tradição. Nada é errado apenas por ser tradição. Crermos no Evangelho é uma tradição; porém uma tradição correta.

_____Originalmente judeus, os gnósticos desprezavam o judaísmo. Chamavam ao Deus dos judeus (a quem consideravam o demiurgo, e não o próprio Deus) Saklas (tolo). Também esse elemento de desprezo pelo antigo (e consequente abertura acrítica ao novo) está presente em nossa cultura.

_____Uma das características da contemporaneidade é precisamente um desprezo, por exemplo, pela Idade Média. Levanta-se todos os tipos de mitos sobre tal período, como se houvera sido época de obscurantismo. A ideia de “Idade das Trevas” é essencialmente ideológica, e não histórica; se funda mais na polêmica do Iluminismo contra o Cristianismo. Não que a Idade Média não tenha sido repleta de graves erros; mas o século XX não está atrás. Matou-se mais no século XX em nome do Comunismo (fazendo exatamente a revolução que o comunismo quer) do que se matou em dez séculos em nome do Cristianismo (fazendo exatamente o oposto do que o cristianismo ensina). A elite do nosso tempo não é mais intelectual que a do século XII.

_____Pior: tal desprezo pelo antigo está muito presente no fanatismo dentro do protestantismo. Em realidade, grande parte dos fanáticos religiosos do nosso tempo é de pessoas que não gosta da palavra “Religião”. Tal palavra, na boca de tais fanáticos (e não só deles, como na de todos os demais afetados por tal cultura), religião é sinônimo de antigo (e, assim, algo que é mau), sinônimo de entediante e monótono. Renderam-se à filosofia do devir, da mudança; aceitaram as categorias que o mundo impôs.

_____Como tal tendência gnóstica é voltada para o centro do indivíduo e não para o mundo que o cerca, a sensorialidade é substituída pela sensitividade. Não a percepção das coisas como são notadas pelos nossos sentidos, mas como são sentidas pelo indivíduo. O efeito disso é o egocentrismo. O importante não é estar de fato bem, mas se sentir bem; não é fazer aquilo que é importante, mas aquilo que se sente ser importante. Isso é a destruição de toda a moral; todos se tornam sociopatas. Assim, os referidos fanáticos religiosos destroem a própria religião.

_____Mas há uma manifestação mais profunda do problema. No evangelicalismo contemporâneo, tal desprezo gnóstico pela criação se torna evidente na literatura não-acadêmica (como a série de ficção Left Behind, ou "Deixados para trás") e na música (ver, por exemplo, a canção "Eu vou subir", da cantora pentecostal Lauriete Rodrigues). Em realidade, tudo isso é favorecido pela escola do "Pré-Tribulacionismo". Não aparece uma mensagem de que será trazida justiça a este mundo por ocasião da vinda e do reino de Jesus Cristo; há uma mensagem dualista. É que se confundiu "mundo" e "criação"; enquanto a Criação é tudo aquilo que nos cerca, algo que se origina em Deus, o mundo é a estrutura diabólica que da Criação se apossou. Ignorar isso na interpretação da doutrina cristã histórica conduz a tal gnosticismo cultural (e ao gnosticismo histórico). Como vimos algumas vezes, a mentalidade gnóstica é resultado de um equívoco em responder a um problema por simplificação da realidade e erro em observar certas distinções. Neste caso não é diferente.

Gyordano Montenegro Brasilino, peccator.

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