01/04/10

TULIP - Bíblico?

Chama-se "TULIP" o acrônimo dado pelos calvinistas à síntese das doutrinas defendida pelos Cânones de Dordt. Cada letra representa uma doutrina defendida pelo calvinismo. "Tulip" significa tulipa em inglês, e é necessário dar o nome em inglês para cada doutrina. Não adoto nem a posição arminiana, nem calvinista. Me aproximo mais da visão luterana acerca da predestinação. Já fui calvinista por doutrina, mas descobri que alguns pontos doutrinários do calvinismo não condizem com as Escrituras. Apresento abaixo a descrição das doutrinas conforme o calvinismo as defende. Como pretendo mostrar, concordo com alguns pontos, mas não com outros.


T - Total depravity (depravação total): Toda a humanidade está perdida, sem qualquer condição de se aproximar de Deus. Significa que cada pessoa está escravizada pelo pecado de tal modo que não tem condições de escolher servir a Deus, ou aceitar o Evangelho.

U - Unconditional election (eleição incondicional): Deus de antemão selecionou e decretou dentre a humanidade depravada uma "lista" de indivíduos seriam salvos. Chama-se 'incondicional' porque não depende de nossas próprias obras, mas da vontade de Deus.
L - Limited atonement (expiação limitada): O sacrifício de Cristo só é eficiente sobre os eleitos, não sobre todos.
I - Irresistible grace (irresistible grace): Ao ser humano que estiver na "lista" não é dada a opção de de rejeitar o decreto de salvação feito por Deus. Inevitavelmente em algum momento irá se converter e receber a salvação. Essa doutrina diz respeito particularmente ao momento da conversão.
P - Perseverance of the saints (perseverança dos santos): Significa que a graça concedida garante que a pessoa nunca perca sua salvação. É aquilo que hoje em dia se resume como "uma vez salvo, salvo para sempre". Diante de tal doutrina, aqueles que se desviam do evangelho e nunca retornam na verdade nunca foram salvos.


Em um certo sentido, tanto arminianos quanto calvinistas crêem no primeiro ponto, o da depravação total, e eu também. É pressuposto em muitos textos bíblicos (como Romanos 5); muitos textos famosos das Escrituras, como Romanos 3:19,23 ou Gálatas 3:22, implicam em tal ideia. No entanto, a forma como o calvinismo entende esse ponto creio ser a mais correta: o homem não pode cooperar com Deus para a obtenção da graça para si. No entanto, considero a possibilidade de que o trabalho da Igreja na comunicação da graça seja um ponto a se considerar (como trato mais adiante); não obter a graça para si, mas suplicar a graça para outrem.

No entanto, a depravação total, conforme ensinada pelo Calvinismo, depende da doutrina do pecado original herdada de Agostinho e do Catolicismo. Como eu mostrei em outra postagem, não me alinho a tal ensinamento. Assim, concordo com a depravação total na medida em que ela não depende do pecado original. É preciso notar a diferença, existente na língua grega, entre ἁμαρτία (a intenção do pecado) e ἁμάρτημα (pecado ou transgressão individual). Aquilo que leva a morte não é um pecado individual (como o de Adão), mas (cf. Romanos 5:12; 7:20, onde a palavra é ἁμαρτία).

Quanto ao segundo ponto, ele pode ser resumido em uma palavra: predestinação. O verbo predestinar está bem presente no Novo Testamento: Romanos 8:29,30; Efésios 1:3-6,11-13. O texto de Romanos é muito especial por apresentar a ordo salutis paulina:

Conhecidos -> Predestinados -> Chamados -> Justificados -> Glorificados

Veja que se a doutrina arminiana estivesse correta, creio que o chamado viria antes da predestinação. Há também outros textos que pressupõem a predestinação dos eleitos de Deus (Atos 13:48; 2 Tessalonicenses 2:13,14). Veja que a eleição dos predestinados para a salvação implica na rejeição dos demais (Romanos 9:13-24; 2 Pedro 2:12). No entanto, o decreto de predestinação é apenas para os eleitos; para os não-eleitos, trata-se de uma consequência tanto da predestinação quanto de seus próprios pecados.

  A obra da graça de Deus (sempre insondável) na predestinação é muito misteriosa. Segundo Jesus, é Deus quem alimenta as aves do céu (Mateus 6:26). Mas o observador humano não vê a mão de Deus nisso; vê a intuição das aves. Do mesmo modo, segundo Jesus, é Deus quem veste os lírios do campo (Mateus 6:28-30). Mas biologicamente falando, se dá por divisão celular. Há aqui uma contradição entre a forma como Deus realiza sua soberania sobre a Criação e a observação dos fatos? Nenhuma. O que existe é um insondável mistério.

Portanto, a predestinação de Deus não elimina o livre-arbítrio. Se você não aceita a mensagem, do ponto de vista humano a culpa é sua, não de Deus. Você simplesmente não quis. Do ponto de vista divino, não há culpa, porque você já era um depravado. Deus apenas te sentenciou, não pecou por você. É mais um mistério insondável. O problema nas discussões atuais é que de ambos lados há o pressuposto ontológico de que a causa da aceitação só deve ser uma, pelo simples motivo de que não podemos entender como a escolha poderia ser ao mesmo tempo de Deus e do homem. Mas não se torna irracional pelo motivo de que não sabemos exatamente como ocorre.

Um texto muito interessante das Escrituras, com o qual nos deparamos no "Cristianismo Puro e Simples" de C. S. Lewis, é Filipenses 2:12,13. No final do v.12 consta que nós devemos operar a nossa salvação (κατεργάζομαι, KATERGAZOMAI significa "trabalhar em função de algo"; KATA = com, ERGON = obra; mesmo verbo em Romanos 5:3; 7:8,13, etc). Se não fosse um texto da Bíblia, não tenho dúvida de que um calvinista (assim como um luterano, um batista ou um arminiano) me crucificaria por afirmar que o cristão deve trabalhar pela sua salvação. Me chamariam de católico, de pelagiano ou de algo semelhante. No entanto, o texto não termina aí: Paulo continua, dizendo que o motivo ("... PORQUE ...") disso é que na realidade é Deus que trabalha em nós (cf. Filipenses 1:6). Misterioso é saber como exatamente isso ocorre, mas para Paulo isso não é contraditório.

Há também um fato que considero fundamental: o trabalho da Igreja. Na qualidade de Corpo, é preciso que todos os membros estejam unidos para que continuem vivos; se um padece, os outros sofrem conjuntamente. Embora o comando venha da Cabeça (Cristo), é preciso que este ou aquele órgão esteja ligado a outro. Os dedos estão ligados às mãos e precisam delas. Creio que o papel da Igreja na evangelização (já prevista e planejada por Deus antes da fundação do mundo) seja aqui fundamental. Paulo pede, por exemplo, que os crentes orem para que a porta da palavra lhe seja por Deus aberta (Colossenses 4:3), e afirma orar pela salvação dos seus irmãos israelitas (cf. Romanos 11:1). Aqueles que estão condenados no mundo não tem condições de se aproximar de Deus porque seu entendimento está cego, mas creio que as orações da Igreja, os pedidos que fazemos (que Deus já conhecia antes de existirmos) tenham algum efeito sobre a escolha de Deus. Deus pode escolher exatamente aqueles que queremos escolher. Do ponto de vista humano, então, a culpa seria nossa pelos não convertidos (por não orarmos, não intercedermos, não jejuarmos, não quebrantarmos os nossos corações diante do Deus que antende ao pedido do coração quebrantado; Salmos 51:17), e não apenas, como se crê, pelos não alcançados (por não pregarmos). Conferir também: Filipenses 1:29; 2 Tessalonicenses 2:13.

O terceiro ponto, creio, é difícil de averiguar nas Escrituras. Não encontro nenhum texto que CLARAMENTE defenda uma posição ou outra. Me parece que há, nas Escrituras, tanto um aspecto particular quanto um geral. Enquanto em 1 João 2:2 é dito que o sacrifício de Jesus faz a propiciação pelos pecados tanto dos crentes quanto dos não-crentes, Mateus 20:28; 26:28 coloca o efeito remissivo da morte de Jesus sobre muitos, não todos. Compare a Apocalipse 5:9.

O quarto ponto também é difícil, mas considero que a visão calvinista seja incorreta. Pelo que creio entender das Escrituras, é possível resistir ao chamado da salvação. Creio que não seja diferente do caso do povo judeu, que resistia ao Espírito Santo na conversão (Atos 7:51). Em Atos 16:14, Deus age sobre o coração de Lídia para que ela ouça o Evangelho, para sua própria conversão, mas o texto não vai além disso. Novamente entra aqui em jogo o mistério que há entre a predestinação de Deus e as nossas decisões. Falta um texto que diga claramente que é impossível resistir no momento da conversão. Como gosto de dizer, o homem está cego por Satanás (2 Coríntios 4:4); Deus ilumina os nossos corações para que vejamos a Cristo (2 Coríntios 4:6). Mas um cego depois de curado ainda pode tornar a ser cego, e ainda pode fechar seus olhos para a verdade.

O quinto ponto talvez seja a maior discordância entre a minha posição e o calvinismo (meramente um corolário do que eu afirmo sobre o quarto ponto): acredito que seja possível cair da fé. O texto bíblico que me levou a refletir sobre o assunto foi Gálatas 5:4. Paulo não fala meramente de alguém que não tem a graça, mas de alguém que tinha e perdeu por conta da corrupção do evangelho ("tendes caído"). Alguém que caiu de um prédio estava nele antes; alguém que caiu de uma montanha estava nela antes; alguém que caiu de uma bicicleta estava nela antes; alguém que caiu da graça estava nela antes. Ora, se antes tinham a graça e agora não têm, é evidente que nem todos os santos perseveram. Some-se isso ao que já foi dito sobre Filipenses 2:12. Outro texto que tenho em mente é Hebreus 6:4-6. Confira Romanos 8:13; 11:20; Gálatas 6:8; Filipenses 3:10-12; Colossenses 1:21-23; 1 Tessalonicenses 5:19; 2 Pedro 1:4-11; 2:20.

Em suma: embora eu rejeite o calvinismo, por motivos estritamente bíblicos, não adoto o arminianismo, também por motivos estritamente bíblicos, no que diz respeito à eleição.


Gyordano, peccator.

16 comentários:

  1. Respostas
    1. O ultimo ponto eu discordei de você, porque a obra que Deus começou ele há de terminar. então significa que se ele caiu, significa q a graça é resistivel e se for, a pessoa pode deixar de ser eleita?

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    2. Eu diria que se trata de uma generalização apressada do texto de Filipenses 1:6. Há gritante diferença entre dizer que Deus continuará até o fim a obra começada "em vós" e dizer que Deus continuará até o fim a obra em todos os que recebem a salvação. O apóstolo fala a um grupo específico (os crentes de Filipenses, mas, por extensão, a todos os eleitos); e eu acredito que os que caem da fé não fazem parte desse grupo.

      A pessoa pode deixar de ser eleita? Isso depende claramente do que se diz por "eleita". O apóstolo Paulo usa "chamados" e "eleitos" indistintamente (talvez em razão de sua missão como pregador), mas o Senhor Jesus faz uma distinção essencial entre os chamados e os eleitos (Mateus 20:16; 22:14). Nesse sentido de "eleito", não, não pode deixar de ser eleito. Mas isso não significa que os chamados não participem da obra da salvação pela graça de Deus; mas são esses os que caem da fé.

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    3. Meu amigo, peço que você estude outra vez o que é perseverança dos santos, não podemos tirar conclusões de apenas 1 ou 2 versículos. Te dou uma idéia use a hermeneutica para estudar meu irmão para ter compreensão exata, não como " eu acredito que..." Segunda a totalidade da Bíblia Deus preservar os eleitos constituídos desda eternidade, até a redenção da propriedade exclusiva, raça eleita e nação santa.

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    4. Segundo a totalidade da Bíblia? Cite um só exemplo.

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  2. excelente!! belas considerações. Deus abençoe.

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    1. Sugiro:

      http://cristianismopuro.blogspot.com.br/2011/03/em-que-creio-sobre-eleicao-e.html

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  3. Olá Gyordano já de cara discordo contigo entre a depravação total e o pecado original.
    Você disse que só por causa da linha de raciocínio de Agostinho de Hipona ser católico você discorda. Você disse que crê na depravação toral, mas elimina o pecado original. Mas eu te indago, como pode haver depravação "total" se não tem essa herança que herdamos de Adão que é o pecado original?

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  4. Eu não disse em nenhum lugar que "só por causa da linha de raciocínio de Agostinho de Hipona ser católico você discorda". Isso simplesmente não está dito em lugar algum.

    No mais, a dogmática reformada faz confusão entre duas coisas. Uma coisa é afirmar que o gênero humano herda a consequência do PECADO do primeiro homem, que é a inclinação para o mal (depravação) e, consequentemente, a morte. Outra coisa é afirmar que o homem herda a CULPA pelo pecado do primeiro homem. A primeira coisa é correta e bíblica; a segunda não está em nenhum lugar da Bíblia.

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  5. Gyordano os eleitos pecam como qualquer outra pessoa? Alguém pode se entender eleito por nascer de pais cristãos, viver como, cometer alguns deslizes que não prejudicam ninguém de certa forma, porém se sentir mau com isso ou algo assim?

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    1. Os eleitos podem pecar como qualquer outra pessoa.

      Ninguém deve "se entender eleito". Devemos ser apenas cristãos e perseverar em cumprir sua vontade. O segredo da eleição pertence a Deus.

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  6. Gyordano não sei se entendeu o que quero perguntar, esses eleitos, não sei se é correto mas teriam algo a mais por parte de Deus para os fortalecerem a não pecar da forma como os não eleitos?

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    1. Sim, com certeza. Deus os impede de cair em tentação, como pedimos na oração do Pai Nosso. Deus "é poderoso para vos guardar de tropeçar". Deus faz isso de muitas formas: Ele afasta de tentações a que não se pode resistir. Na tentação, Ele lembra de sua Lei e dá forças para resistir à sedução do pecado. Depois de pecar, Ele dá alegria aos que resistiram e dá arrependimento aos que caíram.

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    2. Leia a estes dois textos:

      1) http://cristianismopuro.blogspot.com.br/2013/07/predestinacao-e-livre-arbitrio.html

      2) http://cristianismopuro.blogspot.com.br/2013/07/predestinacao-e-livre-arbitrio-parte-ii.html

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  7. Você disse "Ele lembra de sua Lei e dá forças para resistir à sedução do pecado", a Lei do AT ?

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