11/04/10

Dois anacronismos em Gênesis 3

        Uma das falhas de interpretação que o método histórico-crítico busca evitar é o anacronismo, que é muito comum quando não analisamos as Escrituras com detido cuidado, sem mesclar dois textos distintos, em períodos distintos e tratando de temas distintos. Um desses problemas está na interpretação de Gênesis 3. Não pretendo aqui fazer apologia a este método; cumpre apenas ter atenção a este fato: quando o texto não diz algo, ele não diz. Nossas tradições acerca de um texto não mudam, alteram, anulam o que o texto diz, nem lhe acrescentam coisa algum. Quando lemos um texto, devemos nos despir de noções que o autor não tinha. Cada autor escreve no idioma da época, usando a retórica da época e conhecimentos que se supõem disponíveis para o destinatário do texto. Embora eu admita perfeitamente que um autor tenha sido inspirado pelo Espírito Santo para trazer uma mensagem que só seria entendida muito depois de seu tempo, à luz de novas revelação, nós não podemos simplesmente pressupor isso.

        No texto de Gênesis 3, acredito haverem duas (na realidade tês, mas só pretendo tratar aqui de duas) passagens em que há uma forte interferência da tradição sobre a interpretação. São os versículos 15 e 21, conforme seguem:

"E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gênesis 3:15)


"E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu." (Gênesis 3:24)

        A interpretação dessas duas passagens é altamente cristológica. Essa é ao mesmo tempo uma virtude e um defeito da tentativa de sistematizar as doutrinas das Escrituras. Virtude, porque o cristão deve ver todas as coisas à luz de Cristo; de um modo ou outro, Cristo é o ponto alto, o resultado, o telos das Escrituras, o fim em que as Escirutras se consumam. Defeito, entretanto, porque isso dá margem a diversas "adivinhações". É muito perigoso dar margem para a imaginação durante a interpretação de um texto bíblico, porque esta é a origem de diversas heresias. São "pulos" na interpretação. Já em outro tópico tratei de como a doutrina de divisão entre Lei Moral e Lei Cerimonial, ainda que não representada nas Escrituras por sequer um versículo, é crida, por conta de diversos textos aos quais se dá margem para a imaginação. O texto diz A, mas o leitor diz A, B, C e D, e acredita estar interpretando corretamente, porque também diz A. Isso acontece com esses dois textos de Gênesis.

        O texto de Gênesis 3:15 é visto como a primeira profecia messiânica das Escrituras, dizendo que Jesus seria aquele que feriria a cabeça da serpente. Chega-se até mesmo a parafrasear esse texto dizendo que virá um que esmagará a cabeça da serpente. Na verdade, o texto não diz coisa alguma sobre "esmagar". De fato em Romanos 16:20 é dito que Deus esmagará a Satanás debaixo dos pés dos crentes daquela Igreja. Existe uma grande diferença entre dizer: a) que Satanás seria, em breve, esmagado debaixo dos pés dos crentes da Igreja de Roma; e dizer: b) que a semente da mulher ferirá a cabeça da serpente. Além disso, Romanos 16:20 não fala sobre Jesus; fala sobre os crentes da Igreja. Além do mais, a semente da mulher não é apenas Jesus Cristo. É toda a humanidade, mas mais especificamente Caim, Abel e Sete, segundo o texto de Gênesis. Não chego a afirmar que de algum modo haja um cumprimento desse texto na pessoa de Jesus; afirmo, no entanto, que isso é meramente uma INTERPRETAÇÃO PESSOAL do texto, e não aquilo que o texto de fato diz.

        Do mesmo modo, na tradicional interpretação do versículo 24 há um grande salto. Interpreta-se esse texto como significando que Deus sacrificou um animal para vestir Adão e Eva. O texto limtia-se a dizer que Deus fez tais túnicas. Não diz que matou um animal; e mesmo que tivesse matado, o texto não diz que o animal foi SACRIFICADO. Não é sem motivo que todos os dias novas heresias surjam a partir de 'pulos' a partir do que o texto de fato diz; se os ortodoxos interpretam assim, os hereges também.


Gyordano, peccator.

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