27/03/10

Por uma Teologia Sacramental Bíblica


O evangelicalismo não é famoso por defender uma doutrina robusta acerca dos sacramentos (ou ordenanças, como podem preferir). Geralmente são deixados com um papel meramente representativo. É interessante notar, no entanto, a importância que se dava aos sacramentos na Igreja Primitiva. Me refiro especificamente ao Batismo em águas e à Ceia do Senhor, à qual a Igreja Primitiva passou a chamar de "Eucaristia" (εὐχαριστία). Embora eu não veja problema em empregar a expressão "Eucaristia", usarei a expressão "Ceia do Senhor", já que é mais usual no meio evangélico.
Denominacionalmente, sou pentecostal, e o ramo do pentecostalismo do qual faço parte carrega historicamente a mesma doutrina sacramental do evangelicalismo e das Igrejas Batistas. No entanto, não compartilho do ponto de vista evangélico acerca de muitas doutrinas, e a teologia sacramental é uma delas. Portanto, escrevo não como um inimigo da doutrina evangélica, mas como um evangélico que renovou seu ponto de vista, por motivos estritamente bíblicos. É bom que se note: estritamente bíblicos. Se alguem discordar daquilo que escrevo, espero que o faça por motivos também estritamente bíblicos. Quando lemos as Escrituras seguindo um determinado ponto de vista (geralmente ensinado por uma igreja, denominação ou tradição), pode acontecer de nos depararmos com textos bíblicos que aparentemente não "se encaixam". Textos para os quais talvez seja preciso encontrar uma "desculpa". Quando um 'Testemunha de Jeová' se depara com textos como João 20:28, por exemplo, que não se enquadra em seu esquema doutrinário, precisa arranjar um jeito de fazer com que o texto não diga o que diz (como, por exemplo, dizer que Tomé não estava realmente respondendo, mas apenas exclamando de assombro, ou algo assim).
Nós tambem fazemos isso. Por diversos motivos. Primeiro porque confiamos nos irmãos que tem mais entendimento que nós, que estudaram mais, e que fraternamente nos ensinam aquilo que sabem. Segundo, porque estudo bíblico exige esforço, dedicação e pesquisa histórico-filológica, coisas para as quais a maioria das pessoas não se dedica por completo. Admito: são coisas difíceis, ainda que recompensadoras. Terceiro, porque nos apegamos demais a esquemas gerais, sistematizações, credos, confissões; fórmulas gerais são sempre mais fáceis de entender, aceitar, conviver e ensinar. Quarto, porque geralmente nos cercamos, no círculo eclesiástico, de pessoas que receberam o mesmo ensino, e, por isso, acreditam na mesma coisa, o que dá confiança para seguir em frente confiando. Quinto, o que não é tão raro, ficamos pensando: "Se aquele cara é teólogo, mestre, doutor, PhD, seja o que for, e acredita no mesmo que eu, poxa, mesmo que eu não saiba a resposta para esse versículo, deve haver alguma". Sexto, porque temos sempre a falsa impressão de que Deus só fará milagres e sinais se nossa doutrina for impecável, e se ele faz milagres e sinais, isso então confirma a nossa doutrina. Não preciso continuar mostrando os motivos, certo? Nenhum desses motivos é suficiente, mas juntos nos dão a falsa impressão de que, seja o que for, não precisamos mudar a doutrina.
Mas vamos ao que interessa. Existem alguns textos bíblicos com os quais eu me deparei e muito lutei, até que me rendi e aceitei o que eles diziam. Parei de tentar ler esses versículos de acordo com um esquema geral, e buscei entender o que eles próprios estavam dizendo. E o que eu encontrei me surpreendeu, porque era totalmente compatível com aquilo que os pais da Igreja (Tertuliano, Justino, Irineu, etc) diziam, mas também era compatível com aquilo que alguns reformadores (como Lutero) diziam, mas coisas que hoje não fazem parte da doutrina evangélica. O que eu encontrei foi um "mínimo comum" entre o Catolicismo Romano, a Ortodoxia Oriental, a Igreja Primitiva e um protestantismo mais "high church" (como algumas formas do Luteranismo e Anglicanismo), e o encontrei precisamente no texto bíblico.
Por muito tempo, como evangélico contemporâneo, afirmei que o pão e o vinho na Ceia eram meramente figurativos, meramente simbólicos, e do mesmo modo acontecia com o batismo, que era apenas uma forma de declaração de fé para com os demais cristãos, mas que não tinha em si mesmo poder algum. Mas é bom notar que não é assim que a Bíblia os trata, e não é assim que a Igreja primitiva os tratava. Em nenhum lugar a Bíblia diz que o "Batismo" e a "Ceia" são apenas sinais.


I - O Batismo

Um problema doutrinário com o qual eu me deperava era o seguinte: Só se pode participar da Ceia depois de ser batizado? É assim que geralmente se entende, mas qual é a fundamentação bíblica? Dizer que o "indignamente" de 1 Coríntios 11:27 significa "não-batizado" é um argumento circular, fundamentando a interpretação em si mesma. Não prova nada.
A Igreja Primitiva aceitava o batismo como cerimônia por meio da qual alguem se incorpora à Igreja. Se for assim, então faz todo o sentido dizer que somente alguém batizado pode cear, já que alguém que não faz parte da Igreja de Jesus não pode comungar com ele. Mas como protestante, eu me via em apuros, porque não encontrava em lugar algum do texto bíblico referências acerca de como ser introduzido na Igreja. Embora eu acreditasse que para fazer parte da Igreja bastasse confessar a Jesus como Senhor e Salvador e crer no Evangelho, não encontrava nenhum texto bíblico que claramente dissesse isso. Convido o leitor evangélico a fazer a mesma busca, lendo e relendo todo o Novo Testamento acerca de qualquer referência sobre como alguém se incorpora à Igreja de Cristo.
Foi aí que o texto apareceu. O problema estava na versão que eu usava. Quando observei 1 Coríntios 12:13 em seu texto grego (no contexto, que fala do corpo místico de Cristo, que é a Igreja de Jesus) e o comparei a outros textos bíblicos que também tratam do batismo, tudo ficou claro. Sugiro ao leitor que compare esse texto nas versões Revista e Atualizada e Revista e Corrigida (ou Corrigida e Fiel) da tradução bíblica de Almeida, como segue:

"Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito." (1 Coríntios 12:13, Corrigida e Fiel)

"Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito." (1 Coríntios 12:13, Corrigida e Atualizada)

O texto não trata exatamente de um "batismo no Espírito Santo", do qual João Batista falou (cf. Mateus 3:11) e que é independente do batismo em águas (cf. Atos 8:16,17; 10:44-48). Trata-se de batismo. É por meio desse batismo que alguém se incorpora à Igreja. O texto da Corrigida e Atualizada preserva melhor a ordem das palavras como consta no texto grego. Embora a ordem das palavras não seja em grego tão imperatia quanto é em português, ainda assim é preciso observá-la. Em grego consta:

και γαρ εν ενι πνευματι ημεις παντες εις εν σωμα εβαπτισθημεν ειτε ιουδαιοι ειτε ελληνες ειτε δουλοι ειτε ελευθεροι και παντες εν πνευμα εποτισθημεν (1 Coríntios 12:13)

É bom notar a distinção de preposições presente no texto. A preposição EN (εν) indica o intermédio de algum processo ou sua localização; EIS (εις) indica a finalidade. Na porção em vermelho, ambas aparecem juntas, indicando que a finalidade deste batismo é fazer com que alguém esteja no corpo (de Cristo). Logo, sabendo que a Igreja é o corpo de Cristo (cf. Efésios 5:23; Colossenses 1:18,24), fica evidente que para fazer parte do Corpo de Cristo, para fazer parte da Igreja, é necessário receber este batismo. Assim pensava a Igreja Primitiva, e assim esse texto bíblico nos revela.

Mas trata-se de que tipo de batismo: batismo em águas ou no Espírito Santo? Embora na Igreja primitiva muitos acreditassem que o batismo em águas causava o recebimento do Espírito Santo (com exceção, por exemplo, de Tertuliano), tanto a Bíblia quando a nossa experiência pentecostal revelam que o batismo em águas e o batismo no Espírito Santo são distintos. Além dos textos já mostrados, um exemplo é Atos 19:5,6, em que o batismo no Espírito Santo veio somente com a imposição de mãos de Paulo, havendo eles anteriormente se batizado em águas. Do mesmo modo, Cornélio foi primeiro batizado no Espírito Santo, depois em águas (Atos 10:44-48). Na nossa experiência pentecostal, acontece do mesmo modo. Uns são batizados em águas primeiro, outros no Espírito Santo.
No entanto, dizer que se trata do batismo no Espírito Santo é gramaticalmente problemático. No grego não havia a diferenciação que temos agora entre Espírito e espírito. Assim, uma possível tradução do texto seria: "Porque também, estando em um espírito, fostes batizados para estar no corpo [de Cristo]...". Paulo também usa εν ενι πνευματι em Filipenses 1:27, e aqui certamente não se refere ao Espírito Santo, mas sim à unidade de intenção. Embora a leitura em português do versículo 11 nos leve a pensar que Paulo está tratando mesmo do Espírito Santo (porque de fato no versículo 11 ele está, assim como de uma maneira ou de outra ao longo de todo o capítulo), a leitura desse texto em grego mostra a diferença. Paulo não usa εν ενι πνευματι, mas το εν και το αυτο πνευμα. Do mesmo modo, no fim do versículo 13 o texto grego não diz (como já mostrado acima) "beber de um Espírito", mas "beber no Espírito" (que, na prática, teria o mesmo significado, mas que evidencia a diferença entre a primeira parte e a última do versículo).
Assim, são dois os problemas que uma interpretação de acordo com a Corrigida e Fiel é problemática:
a) A distância entre εν ενι πνευματι e o verbo, pois está antes do agente da passiva.
b) A dificuldade em saber se se trata do Espírito Santo ou do nosso próprio espírito, considerando Filipenses 1:27 (mesmo fraseado grego) e considerando o "um" entre a preposição e o substantivo.

Esses dois motivos me convencem de que se trata do batismo em águas. Um modo interessante de tratarmos isso é buscando outras passagens nas epístolas de Paulo que tratem do mesmo tema. Um exemplo é Romanos 6:4-6, que segue em português com o texto grego correspondente.

4 Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.
συνεταφημεν ουν αυτω δια του βαπτισματος εις τον θανατον ινα ωσπερ ηγερθη χριστος εκ νεκρων δια της δοξης του πατρος ουτως και ημεις εν καινοτητι ζωης περιπατησωμεν
5 Porque, se temos sido unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição;
ει γαρ συμφυτοι γεγοναμεν τω ομοιωματι του θανατου αυτου αλλα και της αναστασεως εσομεθα
6 sabendo isto, que o nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado.
τουτο γινωσκοντες οτι ο παλαιος ημων ανθρωπος συνεσταυρωθη ινα καταργηθη το σωμα της αμαρτιας του μηκετι δουλευειν ημας τη αμαρτια
(Romanos 6:4-6)

Favor comparar detalhadamente este texto com Colossenses 2:12. Ambos os textos falam de efeitos reais do batismo. Nenhum dos dois textos trata do batismo como mero simbolismo, embora o simbolismo esteja presente. A preposição DIA (δια) indica o meio pelo qual se atinge um fim, aquilo que permite com que se atinja esse fim. Os textos falam do batismo com efeitos reais, quais sejam:
a) Nos sepultar com Cristo (cf. Colossenses 2:12).
b) Nos ligar à morte de Cristo (εις).
c) Criar uma união entre nós e ele.
d) Andarmos em novidade de vida (cf. Colossenses 2:12; Romanos 7:6).
e) Crucificar o velho homem com ele.

O versículo 5 fala da semelhança da morte de Cristo. É bom notar que a semelhança não é asemelhança da união (o que daria margem para uma interpretação meramente simbólica do ato); a união é real; a semelhança é a da morte. No batismo cristão há o simbolismo de que nós entramos na água assim como Cristo entrou na sepultura, e saímos da água assim como ele venceu a morte e ressuscitou. Assim, o batismo nos liga à vida de Cristo (v. 5). Se Cristo morreu e nós nos ligamos à morte dele, então nós também morremos, e se ele tem a vida eterna e estamos ligados ainda a ele, então também teremos a vida eterna. A morte não pode deter essa união. Em Romanos 6:4-6, assim como em Colossenses 2:12, portanto, trata-se do batismo em águas. A partir de Romanos 6:4-6, o batismo passa a ter uma beleza própria, porque nele há referência ao passado (a morte), presente (nosso ato) e futuro (a ressurreição). Assim, passa a ser um sacramento atemporal. Há outro texto importantíssimo, Gálatas 3:26-28, como segue.

26 Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.
παντες γαρ υιοι θεου εστε δια της πιστεως εν χριστω ιησου
27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo.
οσοι γαρ εις χριστον εβαπτισθητε χριστον ενεδυσασθε
28 Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
υκ ενι ιουδαιος ουδε ελλην ουκ ενι δουλος ουδε ελευθερος ουκ ενι αρσεν και θηλυ παντες γαρ υμεις εις εστε εν χριστω ιησου
(Gálatas 3:26-28)

Já ouvi dizer certa vez que há um tipo de batismo chamado "Batismo em Jesus", assim como há o Batismo bíblico no Espírito Santo. Devo declarar que é impossível que o presente texto trate disso. A preposição aqui apresentada não é EN, que aparece nos textos bíblicos com referência à água ou ao Espírito Santo (como em Mateus 3:11 ou Atos 11:26). A portanto, não se trata de um "batismo em Cristo" no mesmo sentido de um "batismo em águas" ou "batismo no Espírito Santo". Sim, é isso que a tradução em português diz, mas é preciso notar que não existe em português uma preposição correspondente a EIS (εις). Na realidade, trata-se de um batismo a respeito do qual não se discrimina meio, mas sim a finalidade. Trata-se de um batismo que tem por finalidade conduzir a Cristo, direcionar a Cristo.
Compare agora com tudo o que vimos sobre Romanos 6:4-6 e Colossenses 2:12. Não é incrível? O mais incrível é que no auge de uma discussão sobre a justificação, Paulo declara que o motivo pelo qual somos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus é esse batismo. Não se pode anular o γαρ no versículo 27. Trata-se de uma explicação. Aquilo que explica a nossa filiação para com Deus pela fé em Cristo é o batismo em (εις) Cristo, que nos reveste de Cristo (de modo a sermos participantes da promessa feita a Abraão por meio de Cristo, que é o herdeiro da promessa, como se vê ao longo do capítulo 3). Compare agora esse texto ao que vimos quanto a 1 Coríntios 12:13, que é um texto que também diz o mesmo acerca de sermos um só corpo, independente de ser judeu ou grego, por exemplo. Tudo isso me convence de que todos esses textos tratam do batismo em água. Além disso, o texto mostra mais um efeito real do batismo (v. 27), que é o de revestir de Cristo.

Saindo agora um pouco do contexto paulino, há outros textos bíblicos que devemos comentar. Um deles, muito importante, é 1 Pedro 3:20,21. Nesse texto, o dilúvio é mostrado como um antítipo do batismo. Assim como os que estavam na arcas foram salvos através da água (δι υδατος), os que se batizam são salvos pelo batismo. Não estou, de modo algum, querendo dizer que aqueles que não se batizaram estão condenados, nem que o batismo garante a vida eterna. O próprio texto bíblico mostra que não é assim, como o ladrão ao lado de Jesus (Lucas 23:42,43), que não recebeu batismo, mas tem parte no Reino,. Estou apenas repetindo aquilo que o texto diz: o batismo salva (σωζει βαπτισμα). Pela comparação com o dilúvio, só pode se tratar do batismo em águas. Além disso, há novamente referência à ressurreição de Jesus (que é o que dá poder a esse batismo), assim como vimos em Romanos 6:4-6. Há outro texto, Atos 2:38, mas esse texto, acredito, fala por si mesmo. Considere-se, em sua interpretação, que está presente o EIS (que aponta o fim, a finalidade, a direção); o fim deste batismo é a remissão dos pecados.


II - A Ceia do Senhor

O leitor que espera encontrar aqui uma defesa da transubstanciação ou do memorialismo se decepcionará. Não pretendo entrar nesses pormenores teológicos acerca dos quais as Escrituras não respondem. Tudo o que posso dizer é que Jesus disse: "Este é o meu corpo; Este é o meu sangue." Notem, por favor: não me alinho à visão católica de que o pão e o vinho deixam de ser pão e vinho e se transformam em corpo e sangue, por três motivos:

i. Jesus não disse que eles se transformam. Jesus disse que eles SÃO. Pode-se argumentar que Jesus está falando depois da transformação, mas tal transformação não é relatada no texto bíblico. Se Jesus não disse, prefiro me calar.
ii. O apóstolo Paulo se refere ao pão e ao vinho consagrados como pão e vinho (1 Coríntios 10:16,17). Portanto, aparentemente não deixam de ser pão e vinho. Não estou negando que sejam o corpo e o sangue, ainda que de uma maneira misteriosa, assim como não estou negando que sejam pão e vinho.
iii. Quimicamente o pão e o vinho da Ceia continuam sendo pão e vinho. Reagem como pão e vinho.

Tanto a visão católica quanto a memorialista tentam explicar aquilo que Jesus, neste texto, não explicou. Os católicos tentam explicar por meio de uma transformação, e os memorialistas (visão bastante difundida entre protestantes) tentam explicar por meio de um simbolismo. Eu simplesmente não tento explicar. Não posso adivinhar; se não for revelado, não há como saber. Assim, não tenho muito o que acrescentar.
No entanto há um texto muito importante, que já foi citado: 1 Coríntios 10:16,17.

16 Porventura o cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?
17 Pois nós, embora muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão.
(1 Coríntios 10:16,17)

Me lembro de que em uma aula de escola dominical certa vez um professor disse algo como "O pão e o vinho da ceia não são a comunhão". Paulo, com duas perguntas retóricas, discorda. O pão é a comunhão do corpo, e o vinho a comunhão do sangue. De que maneira? Impossível explicar. Mas isso certamente tem implicações soteriológicas, já que é o sangue de Jesus que nos purifica os pecados.
Mas vou além: a explicação da unidade da Igreja, no versículo 17, é incrível. Aquilo que faz com que sejamos um só pão e um só corpo (ou seja, uma só igreja) é participarmos de um mesmo pão. Simples assim. Se não participamos deste pão, não somos um só pão, não somos um só corpo.


Conclusão?

O batismo, segundo penso ter demonstrado, nos permite participar em Cristo de uma série de promessas, dentre as quais, ser membros de sua Igreja, na qual não há divisão, separação ou desigualdade, mas todos somos um nele. Essa interpretação me levou a conclusões compatíveis com aquelas que a Igreja Primitiva tinha. Assim, se eu não falhei na interpretação (o que é discutível, por não ser eu imperfeito), é preciso ser batizado para estar na Igreja. Se admitirmos que somente a Igreja pode cear, fica provado que somente quem for batizado deve participar dessa cerimônia. O Batismo e a Ceia são sacramentos que constituem a Igreja de Jesus Cristo. O batismo incorpora o crente à Igreja e a Ceia mantém sua união a ela. Se entendemos desta maneira, também não faz sentido alguém se rebatizar, já que pelo primeiro batismo já faz parte da Igreja do Senhor.
É claro que eu não elimino a fé e o amor. Sem fé e amor, não há Evangelho, e sem Evangelho não há Igreja. Os sacramentos não nos valeriam de nada se na Igreja não houvesse amor e fé. Mas talvez os sacramentos nos ajudem nisso. Na Ceia, partilhamos o mesmo pão, uma comida simples e humildade, mostrando que nossa unidade deve ser simples e humilde. A Ceia pode representar familiaridade, fraternidade, unidade, assim como nos lembra da morte de Jesus Cristo ("em memória de mim"), nos lembra de que somos dependentes da salvação que ele nos deu. A Ceia pode representar essa salvação, porque o pão nos é dado por Jesus; o oficiente representa Jesus. Não trazemos nosso pão de casa, aquilo que é nosso, mas recebemos o pão que Jesus nos dá; podemos apenas receber; não podemos comprar esse pão por nenhum esforço, nenhum trabalho, nenhuma obra. Isso mostra o quanto somos dependentes dele em nossa salvação, que recebemos inteirmente e graciosamente de suas mãos santas. Também mostra que temos responsabilidade em repassar o pão; também outros precisam se alimentar da palavra de Deus.

2 comentários:

  1. Prezado irmão Gyordano, boa tarde.

    Meu nome é Roberto, mas a conta Google está no nome da minha esposa, daí o nome dela constar no comentário.
    Pesquisando para um trabalho, fui direcionado para seu blog. Seu raciocínio é coerente e suas argumentações são boas. Não li outros artigos, mas é bom ver que o irmão se encontra entre aqueles zelosos quanto à Palavra de Deus. Parabéns.
    Minha intenção é só, respeitosa, humilde e fraternalmente colaborar, e o fato de não haver outros comentando permite que não haja constrangimentos. Apenas uma correção: sobre 1 Coríntios 12.13, o irmão comentou o texto grego, dizendo: "Na porção em vermelho, ambas [as preposições] aparecem juntas (...)"; mas na porção em vermelho, naquele trecho específico, o en não é a preposição ἐν, mas o numeral ἓν (um). Então, εἰς ἓν σῶμα, literalmente: "para um corpo". Não afeta substancialmente sua argumentação, mas é o correto.

    Um abraço, em Cristo.

    Roberto

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    1. Correção essencial! Obrigado. Errei por usar um texto sem diacríticos.

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