28/09/09

A Igreja de Cristo: Católica?

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“Há um corpo e um Espírito, como também fostes chamados em uma esperança da vossa vocação” (Efésios 4:4)

Como já mostrei em ao menos uma postagem anterior, sou contra o denominacionalismo. O meu principal motivo contra isso é o fato de que nas Escrituras as diversas igrejas jamais são vistas senão como expressão de uma única e mesma Igreja, a Igreja de Cristo, fundada uma única vez. Não existe separação de ministérios. Embora tenha acontecido, por exemplo, que o apóstolo Paulo não tivesse seu apostolado reconhecido por todos, e houvesse a segregação entre judeu-cristãos e cristãos helenistas, todos consideravam que a Igreja de Jesus Cristo fosse apenas uma. Todos os bispos e diáconos eram ministros de uma mesma Igreja. Nos dias atuais, um ministro presbiteriano teria dentro de uma Igreja Batista o mesmo reconhecimento dentro que teria dentro do Presbiterianismo?
Direto ao ponto: A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja Católica? Se não for acrescentado “Romana”, sem ressalvas eu responderia: SIM! E, no entanto, sou protestante. Explico: A Igreja de Jesus Cristo recebeu, pelos Pais da Igreja, o nome de “Igreja Católica”, e isto porque católico significa universal. Portanto, a Igreja de Jesus Cristo, que poderia ser encontrada em diversos pontos do Império Romano (muito tempo antes de Constantino e Teodósio), recebe um título que bem lhe cabe. Isso se atesta desde o começo, por textos como o de Inácio de Antioquia. A fórmula seria cristalizada depois com a expressão “Uma, santa, católica e apostólica”. Muitos católicos vêem nisso a confirmação de que a Igreja deles é a mesma Igreja dos Pais. É a isso que pretendo responder no presente artigo.
Muitos católicos brasileiros não sabem que a Igreja Ortodoxa Grega (ou melhor, as Igrejas Ortodoxas) também clama ser católica, ser descendente dos apóstolos por sucessão, e, no entanto, apresenta uma dogmática em muitos pontos distinta da doutrina católica, por exemplo no que diz respeito ao papel do Bispo de Roma (os ortodoxos não crêem na infalibilidade papal), do Purgatório (os ortodoxos não crêem nele, ou melhor, não crêem como os católicos romanos), a veneração a Maria (os ortodoxos não crêem que Maria estava livre do pecado, nem crêem em sua assunção aos Céus em vida) ou Trindade (os ortodoxos não crêem que o Espírito Santo proceda do Pai e do Filho, mas unicamente do Pai). Como se pode ver, não é possível que essas duas Igrejas tenham guardado a verdade com pureza. Uma delas deve estar incorreta, ou mesmo ambas. Afirmarem ter sucessão apostólica, afirmarem guardar a tradição, só prova que essas coisas não protegem contra o erro. Na verdade, a Igreja Ortodoxa Siríaca de Antioquia afirma, assim como a Igreja Católica, ser descendente de Pedro por sucessão. Pedro, conforme a tradição, fora bispo em Antioquia antes de Roma. No entanto, esta Igreja Ortodoxa não reconhece o Concílio da Calcedônia (451 d.C.), que é reconhecido por grande parte da cristandade, por promulgar o dogma da união hipostática entre natureza humana e natureza divina no Cristo. Deveríamos esperar que ambas as Igrejas preservassem a tradição, mas ao menos uma delas não preservou. A linha de sucessão apostólica e a história desta Igreja podem ser conferidas nestes endereços:

http://sor.cua.edu/patriarchate/patriarchschronlist.html

http://sor.cua.edu/history/index

Portanto, depreende-se, por consequência lógica, que, já que existem divergências doutrinárias entre a Igreja de Roma e as Igrejas Ortodoxas, ao menos uma delas deve ser reformada em seu corpo doutrinário. Entenda-se “reformada” como “renovada”, isto é, ao menos uma dessas Igrejas deve, por consequência lógica, remover de sua doutrina aquilo que foi adicionado ao longo da História, retornando à crença mais primitiva. É evidente que o devoto católico romano crê que é a Igreja Ortodoxa quem deve se renovar; esquece-se, porém, que o devoto ortodoxo grego pensa o oposto.
É demonstrável que muita coisa tenha surgido ao longo do tempo, como a confissão auricular, totalmente desconhecida nos tempos apostólicos, mas que surgiu muito tempo depois. O próprio catecismo católico deixa isso muito claro, no §1447.

http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1420-1532_po.html

Além disso, o geocentrismo (falido diante da Astronomia) foi durante muitos séculos uma crença de todos os católicos. O endereço a seguir (católico, mas não faz diferença, já que cita as fontes), na parte Tradition/Church Fathers mostra que faz parte da tradição católica crer que a terra é o centro do universo:

http://www.scripturecatholic.com/geocentrism.html

Portanto, todo bom seguidor da tradição católica deveria crer no mesmo. Mas não foram apenas acréscimos. Também houve decréscimos na doutrina da Igreja. Quantas diaconisas foram ordenadas dentro da Igreja Católica Romana dentro dos últimos mil anos? E, no entanto, elas existiam na época apostólica, como podemos ler em Romanos 16:1, sobre a diaconisa Febe de Cencréia. Citamos a seguir o texto original em grego (que pode ser conferido em qualquer Bíblia em Grego):

16:1 συνιστημι δε υμιν φοιβην την αδελφην ημων ουσαν [και] διακονον της εκκλησιας της εν κεγχρεαις

A porção em negrito, literalmente, equivale a “Febe... diaconisa da Igreja que [está] em Cencréia”. Do mesmo modo, existiam bispos e diáconos casados na época apostólica (1 Timóteo 3), assim como ainda existem presbíteros casados na Igreja Ortodoxa, o que não acontece com a Igreja Romana.
Sim, a Igreja de Cristo é Católica, mas ela é a Igreja de Roma? É demonstrável que qualquer resposta papista a esta resposta incorrerá, em um momento ou outro, em uma petição de princípio. De fato, os católicos são muito bem instruídos quando se trata de demonstrar a primazia de Pedro, a autoridade concedida aos apóstolos ou a necessidade de guardar a tradição, mas falham totalmente em provar que Pedro ou algum dos apóstolos passou adiante as suas “chaves”, ou que a tradição passada por eles é de fato a verdadeira. Qualquer tentativa implica, de modo oculto ou aberto, em uma petição de princípio do tipo “a tradição confirma a tradição”, ou “a interpretação conforme a tradição confirma que a Igreja tem autoridade para interpretar”. Falácias. Diferentemente disto, podemos provar, por exemplo, que os Escritos do Novo Testamento, de modo geral, foram feitos no 1º século. Provar que a tradição católica data da mesma época, também de modo geral, impossível.
Portanto, embora a Igreja de Cristo seja Católica, não é tão simples identificá-la com a Igreja de Roma, que também se chama Católica. Não pretendo negar que uma descenda da outra por sucessão apostólica. Nego que essa sucessão tenha preservado a doutrina, e nego por motivos estritamente escriturais (a Igreja Católica contradiz à Bíblia) e históricos (as diversas Igrejas com sucessão apostólica se contradizem). Existe mesmo a “Velha Igreja Católica“ (Old Catholic Church), que é um cisma formado após a promulgação do dogma da infalibilidade papal (1870). Por conseguinte, os “velhos católicos” (vétero-católicos) também não acreditam oficialmente na assunção de Maria, definida como dogma em 1950 através da infalibilidade papal.
Aos leitores católicos, advirto: diferentemente de muitos protestantes (geralmente fundamentalistas), não nego aos católicos a dignidade como cristãos. Católicos são cristãos. São batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, crêem na ressurreição de Jesus, crêem no mundo vindouro, crêem em tudo que ensina o chamado ‘Credo Apostólico’. Na verdade, embora contradiga à doutrina católica em muitos pontos, creio que o único ponto que necessita de correção imediata por parte dos católicos (sob pena de condenação por idolatria) diz respeito à veneração do santos. Reconheço que esta veneração é muito antiga, já que data da época da igreja indivisa. No entanto, ser esta prática geral não prova que ela é de origem apostólica.
Entenda-se veneração aqui no sentido mais propriamente cultual ou devocional, o προσκυνέω (prostrar-se, venerar, etc) da linguagem bíblica de Mateus 4:10 e Apocalipse 22:8,9 (embora essas passagens geralmente sejam traduzidas com o ”adorar”, o verbo significa “prostrar-se em reverência”; a significação cultual é inegável, como vemos em João 12:20). A distinção entre dulia e latria feita pela teologia católica falha ao perceber que toda dulia implica em um senhorio que se lhe opõe e complementa diretamente. Trata-se da oposição entre as expressões gregas δολος (servo) e κύριος (senhor). Segundo as Escrituras, só há um Senhor (1 Coríntios 8:6), e ninguém pode servir a dois senhores (Mateus 6:24). Toda vez que se pratica a dulia ou hiperdulia, serve-se a outro senhor. De fato, o verbo apresentado em Mateus 6:24 é δουλεύω (servir), que deu origem ao dulia (latinizado de δουλεία). Ou seja, o texto de Mateus 6:24 expressamente proíbe e condena a dulia (em absoluto o texto trata de latria). Quando o devoto católico concede a Maria o título de “nossa Senhora” (ainda que confessando a Jesus Cristo como “nosso Senhor”), divide-se entre dois senhores, pecando expressamente contra o que dizem as Escrituras.
Na verdade, não é só com o título de “Senhora”. Existem diversos outros títulos “perigosos” aplicados a Maria. Um título particularmente ofensivo a nós protestantes e à própria Maria é o de “Mãe de Deus” (Θεοτόκος). Embora seja um título originariamente cristológico (isto é, usado para afirmar a divindade de Jesus), o termo é impreciso e blasfemo. Maria não foi mãe de Deus, mas mãe do Filho de Deus, ou melhor, “mãe do Senhor” (Lucas 1:43; cf. Atos 1:14). Enquanto podemos restringir o título κύριος (Senhor) a Jesus como o apóstolo Paulo faz em 1 Coríntios 8:6, o título “Deus” não pode ser restrito a Jesus. “Mãe de Deus” implica necessariamente no Pai e no Espírito Santo. Maria não é mãe da divindade, mas do Verbo divino que se fez carne, ou melhor, da carne do Verbo (João 1:14). No momento da concepção de Jesus, ele já havia se esvaziado, como expressamente declara o texto cristológico de Filipenses 2:5-11. Coisa alguma do caráter divino de Jesus provém de Maria, mas do Espírito Santo.


Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.
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