11/08/09

Interferências Interpretativas e Adivinhações Adventistas


"E já acerca
de ti foram informados de que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos, nem andar segundo o costume da lei."
(Atos 21:21)

Um dos maiores problemas durante a interpretação bíblica (eu sempre bato nesta mesma tecla) é a imposição de crenças exógenas ao texto em si. É perfeitamente plausível, durante a interpretação, do uso de conhecimentos que o próprio texto não dá. Na verdade, esta é a única forma possível de interpretação. É impossível interpretar um texto meramente por aquilo que ele diz. Durante a análise gramatical, o leitor identifica cada palavra do texto com um significado já dado na linguagem corrente. Muitas vezes o leitor não observa que as expressões do texto devem ser interpretadas em acordo com o significado que teriam para o leitor da época em que o texto foi escrito, não para o leitor atual. Sabemos que “carne” hoje significa o mesmo que a expressão grega σάρξ (sárx) na época do apóstolo Paulo, que a traduz, mas sabemos também que ele, quando escreveu, usou esta expressão em um sentido muito peculiar.
Outro erro que cometemos (e é sobre isso que pretendo tratar) é da imposição de um paradigma exógeno ao texto. É um erro comum, principalmente entre grupos religiosos mais radicais. Interpretamos o significado de um texto, de uma perícope, de um versículo, conforme aquilo que nós próprios aprendemos, conforme aquilo que nos foi passado. Chamo de paradigma exógeno – espero que o leitor não confunda com a mesma expressão usada em outros trabalhos – aquilo que o leitor tenta usar para preencher as lacunas do texto, dando um sentido diferente do que teria sem tal paradigma.
Funciona como um óculos colorido. De acordo com a cor da lente, toda a natureza parecerá diferente. Diante de uma lente vermelha, não poderá discernir o sangue. Diante de outras cores, outros objetos serão perdidos. Semelhantemente funciona também uma lâmpada colorida, que mostra diferentes nuances dos objetos de um ambiente. Do ponto de vista físico, nenhuma cor é “verdadeira”. Não são propriedades dos objetos, mas das ondas que atingem nossos olhos. No entanto, independente da natureza física de um ente, muitos objetos são artificialmente preparados para ter uma aparência, independentemente de sua natureza estrutural. Assim funciona um quadro pintado. Não faz diferença para o pintor se a tinta tem tais ou tais propriedades moleculares, se estas não interferem no seu juízo estético. Um boneco fabricado para ser vermelho deverá ser observado em uma lente que permita ver o vermelho, ou caso contrário simplesmente não será observado conforme o projetado. Com o texto das Escrituras (assim como qualquer outro texto), funciona da mesma maneira. Todo texto é um projeto, seja o artífice humano ou divino, e busca cumprir a meta de apresentar uma função diante do destinatário, dar um significado. Este significado precisa ser observado na lente correta. O problema é saber qual é a lente correta.
Uma crença fundamental da Igreja Católica é a de que a Bíblia deve ser interpretada conforme a tradição. Do ponto de vista lógico, esse apelo à tradição é uma falácia lógica. Uma proposição não se torna mais ou menos verdadeira simplesmente por ter sido anteriormente endossada. Entramos em uma contradição ainda maior quando tentamos usar a tradição para dar força à tradição (isto é, provar pela tradição que a tradição deve ser seguida), porque torna-se um argumento circular (petição de princípio).
Muito embora a Igreja Católica Romana assumidamente confesse crer em sua própria tradição, na realidade é muito comum aos cristãos interpretarem as Escrituras conforme suas próprias tradições, ainda que não o admitam. Observam o texto das Escrituras e tentam interpretá-lo conforme estruturas de pensamento que estão dadas no seu universo, na sua cosmovisão, mas que não faziam parte da arcabouço gnosiológico do destinatário original. Um exemplo disso (a respeito do qual eu já tratei em tópico anterior) é o dogma da Trindade. Todas as vezes que um leitor trinitariano observa um texto bíblico que fale ao mesmo tempo no Pai, em Jesus e no Espírito Santo, considera ser uma referência ao dogma trinitário. Mateus 28:19 é apresentado como prova do dogma da Trindade, mesmo que o texto em lugar algum diga que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam coeternos. Assim, força-se ao texto dado uma estrutura que não está dada. Todas as vezes em que um intérprete que crê na união hipostática (doutrina segundo a qual Jesus teria duas naturezas harmônicas, uma humana e uma divina, ambas em sua plenitude) observa Jesus fazer-se carne, sofrer, ter fome, chorar, agonizar, sangrar e até morrer, considera isso uma referência à “natureza humana”, mesmo que o texto não use esta expressão. Força-se, assim, uma estrutura acabada a um texto que não apresenta esta estrutura por completo, mas apenas um de seus elementos. Não basta que Jesus faça-se carne, sofra, sinta fome, chore, agonize, sangre e morra para que seja considerado plenamente humano; são elementos que compõem a estrutura, mas não a esgotam.
Voltemos à analogia do óculos. Diante do texto das Escrituras, o intérprete não dispõe de todas as lentes disponíveis, nem pode olhar diretamente, sem lentes, como faria um destinatário da época. Mas certamente ele dispõe de algumas lentes, e pode comparar entre elas a observação. Talvez diante da lente vermelha o sangue não possa ser discernido da graxa, mas diante da lente azul, sim. É claro que geralmente um intérprete ou outro clama para si a direção do Espírito Santo, que por sua iluminação confere visão perfeita, mas ninguém pode realmente saber se o outro intérprete está ou não está sob esta iluminação. Ninguém sabe que outra pessoa é daltônica antes de interagir com ela.
Quero tratar com isso a questão das doutrinas adventistas. Minha posição é a de que uma série de crenças adventistas procede de paradigmas exógenos, observações das Escrituras que deixam passar certos elementos textuais, e que acabam forçando ao texto uma interpretação que insere nele estruturas que não se encontram originalmente lá.
O primeiro paradigma é o da separação entre Lei Moral e Lei Cerimonial, que é um ponto em que meus debates com adventistas geralmente se tornam mais controversos, e até irredutíveis, embora um adventista já tenha reconhecido anteriormente se tratar de um paradigma exógeno (ainda que não tenha usado desta expressão). Segundo os que crêem nela, existe uma divisão na Lei Bíblica entre a Lei Moral (considerada eternamente válida, para todos os povos, em todas as épocas) e Lei Cerimonial (válida apenas durante o primeiro concerto, celebrando entre Deus e Israel), podendo haver ainda a Lei Civil (para a ordem do estado de Israel). Com isso, os adventistas tentam defender que a guarda do Sétimo Dia (sábado) seja um mandamento moral, e por isso válido também para os cristãos. Já em uma postagem anterior tratei do tema, por isso não pretendo entrar no mérito. Embora este paradigma não esteja presente nas 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista, ainda assim é um tema constante em debates com adventistas, e o leitor não terá dificuldades de encontrar referências em endereços adventistas.
A questão é que esse paradigma é muito antigo, muito anterior à Igreja Adventista. A referência muito antiga a esta doutrina se encontra em um texto gnóstico, a Carta de Ptolomeu a Flora, escrita por volta do século II d.C. A tradução para o inglês deste texto está disponível no seguinte endereço:
Como é sabido, os gnósticos geralmente apresentavam uma crença que se opunha à doutrina judaica tradicional a respeito da Lei, conforme expressa no Antigo Testamento de Êxodo a Deuteronômio. O Ptolomeu que escreveu esta carta buscava uma posição mediana entre ambas. Não acreditava que a Lei fosse dada por Deus Pai, mas também não acreditava que o diabo (ou demiurgo, como o chamaram os gnósticos, imitando a cosmologia de Platão) fosse responsável por ela. Também não acreditava, porém, que fosse diabólica, porque a Lei busca a justiça. Na referida carta ele expressa a opinião de que a Lei do Pentateuco seria fruto de três autores: primeiramente Deus, depois Moisés (não como amanuense de Deus, mas como legislador), e depois os anciãos do povo. Assim, segundo ele, haveria a Lei de Deus, a Lei de Moisés e a Lei dos Antigos. No entanto, segundo Ptolomeu, seria uma divisão na própria Lei. Diz ainda que a Lei de Deus teria sido mantida por Jesus, enquanto os demais mandamentos teriam sido destruídos (enquanto inúteis) ou teria tido um cumprimento “espiritualizado” como símbolos, tendo servido como alegorias. Ptolomeu defendia que a Lei de Deus pura era o Decálogo (os dez mandamentos das tábuas, do Sinai). Esta doutrina, porém, tornou-se oficial no ocidente com o desenvolvimento da Igreja Católica.
Segundo Bultmann (BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. Tradução: Ilson Kayser. São Paulo: Teológica, 2004. pp. 161-162), Justino (no século II) já apresentava uma doutrina da distinção na Lei. Irineu, também no século II, apresentava a doutrina segundo a qual a Lei não é abrogada, mas completada, por Jesus. Segundo ele, Deus havia escrito os dez mandamentos (Decálogo) nos corações dos homens.
Existem dois textos pretensamente apostólicos que apresentam essa divisão, embora não utilizem as expressões "moral", "cerimonial" e "civil". São a "Didascalia Apostolorum" (Ensino dos Apóstolos) e as "Constituições Apostólicas", escritos nos séculos III e IV respectivamente. Os textos podem ser conferidos nos endereços a seguir:
Esses textos, de caráter não-entusiasta, mostram que por esses séculos já existia uma doutrina da diferenciação entre Leis no Pentateuco. O teólogo católico Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), na obra Contra Faustum (livro X), apresenta a idéia de que os preceitos morais da Lei são observados pelos cristãos, enquanto os preceitos "simbólicos" (que prefiguravam coisas futuras) não precisavam mais ser obedecidos. O texto em inglês pode ser conferido no seguinte endereço:
Um dos mais famosos teólogos medievais, Tomás de Aquino († 1274), na obra Suma Teológica (prima secundae partis, questões 98 a 105), foi o primeiro a formalizar esta doutrina. Segundo Tomás de Aquino, a Lei se dividia entre preceitos Morais, Cerimoniais e Judiciais. O texto da Suma Teológica pode ser conferido, em inglês, no seguinte endereço:
Uma vez que os credos protestantes foram elaborados por teólogos, e que esses teólogos tivessem originalmente formação católica (como é o caso de Lutero), a doutrina da divisão da Lei passou a ser incorporada às confissões. Lutero escreveu uma obra chamada “Contra os Antinomianos” (1539). Também Lutero defendia a idéia de Lei Moral, identificando-a com os dez mandamentos. Segue o texto:
Entre os anos de 1536 e 1559, Calvino escreveu sua magnum opus, chamada Institutas da Religião Cristã (ou Instituições da Religião Cristã). Nesta obra ele já apresenta, ao público protestante, a idéia da existência desta Lei Moral. O capítulo VIII do livro II da referida obra trata especificamente deste assunto. Assim como para o gnóstico Ptolomeu e o católico Tomás de Aquino, para Calvino os Dez Mandamentos são a regra da pureza divina. O texto das Institutas em inglês pode ser conferido no endereço:
Nos Thirty-Nine Articles (1563), um credo anglicano, a doutrina da divisão entre os mandamentos pode ser observada, no artigo VII. É visível a referência a mandamentos morais, civis e cerimoniais, sendo que os cristãos precisam obedecer apenas aos primeiros. Segue o texto:
A Confissão de Fé Batista de 1689 (capítulo 19) apresenta semelhantes declarações a respeito da Lei Moral:
É interessante notar que a Confissão de Fé Batista acrescenta que esta Lei Moral teria sido dada a Adão e preservada na consciência da humanidade, sendo a mesma Lei outorgada por Moisés no Monte Sinai. As referências citadas são Gênesis 1:27; Eclesiastes 7:29; Romanos 10:5; Gálatas 3:10,12. Perceba o leitor, porém, que nenhum destes versículos confirma a tal opinião.
A Confissão de Fé de Westminster (calvinista, 1646), também apresenta esta divisão. Foi nela que se baseou a Confissão de Fé Batista. Em seguida, também o endereço da Declaração de Savóia (1658)
Assim, este paradigma de que existe uma divisão na Lei Moral tornou-se uma tradição no protestantismo, especialmente entre as Igrejas mais tradicionais. É por isso que a Igreja Adventista do Sétimo Dia defende até hoje essa divisão: por tradição. Igrejas mais recentes (geralmente dispensacionalistas) romperam com essa tradição. A posição daquelas Igrejas que defendem que toda a Lei de Moisés foi revogada é chamada antinomianismo, e geralmente é defendida pelas denominações que advogam um modelo escatológico dispensacionalista, que divide a história humana em eras (dispensações). Para o dispensacionalismo, vivemos atualmente na dispensação da graça, enquanto a dispensação passada foi a da Lei. A despeito das muitas discordâncias que eu tenho com o dispesacionalismo (que também apresenta a idéia de que há sete dispensações, o que a Bíblia não diz em lugar algum), esta perspectiva tem o acerto de rejeitar a concepção antiquada de Lei Moral.
O real problema é que em parte alguma das Escrituras os dez mandamentos são apresentados como “Lei Moral”. Também não aparecem nas Escrituras referência alguma a “Lei Cerimonial”, “Lei Civil”, “Lei Judicial”. A Bíblia fala apenas da Lei, chamando-a por vezes de Lei de Moisés, Lei de Deus, Lei de Yahweh, mas embora exista uma distinção de termos, não existe diferenciação. Um exemplo é o de que existem mandamentos além dos Dez que são chamados pela Bíblia de Lei de Deus (um livro inteiro: Josué 24:26; Neemias 8:8,18; 2 Crônica 34:14; Páscoa: Êxodo 13:1-9; o mandamento levítico da purificação: Lucas 2:21-24; sacrifícios: 1 Crônicas 16:40; 2 Crônicas 31:3). Assim, não existe na Bíblia distinção de nomenclatura entre “Lei de Deus” e “Lei de Moisés”. Chama-se Lei de Deus por conta da origem, conforme conta a Bíblia, e Lei de Moisés por ter sido, conforme também contam as Escrituras, dada por meio do ministério de Moisés. Não existe um só versículo que fale em “divisão” na Lei. A única referência que poderia ser usada é Ezequiel 20:18-25, mas o que esse texto diz claramente é que todos os mandamentos provém de Deus.
Uma outra falácia está em distinguir os mandamentos morais dos cerimoniais por conta das diferenças que existem entre os mandamentos que estão nas Tábuas (dadas no Sinai), e que foram colocados dentro da arca, e os mandamentos que estão nos livros, que ficam fora da arca (cf. Deuteronômio 10:5; 31:26). Como já foi mostrado, esta era a opinião de Ptolomeu, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, e muitos outros. No entanto, tal opinião não encontra respaldo nas Escrituras. Primeiro, porque em lugar algum as Escrituras fazem diferenciação entre os mandamentos que estão dentro e os que estão fora da Arca; a distinção existe, mas não a diferenciação. Em ponto algum as Escrituras dizem que os mandamentos que estão nas Tábuas continuam valendo, enquanto os demais não. Pelo contrário, os mandamentos das tábuas são chamados de ministério da morte (2 Coríntios 3:7). A Bíblia fala unicamente da LEI DOS MANDAMENTOS, sem criar distinção (cf. Romanos 3:19; 7:1-4; Gálatas 2:19; 3:19-25; Efésios 2:14-16; Colossenses 2:14-17; Hebreus 7:12-18), e que esta Lei não vale para os cristãos. Continua valendo, contudo, para os judeus (Gálatas 3:10-12; 5:2-4).
Mas existe um problema mais sério: os dez mandamentos não são completos. Se somente eles valem perpetuamente, então existe uma série de mandamentos muito importantes que poderiam ser violados. Segue a relação resumida dos dez mandamentos:
1) Não terás outros deuses (Êxodo 20:3).
2) Não farás imagem de escultura de coisa alguma (Êxodo 20:4), nem te encurvarás a elas nem as servirás (Êxodo 20:5).
3) Não tomarás o nome do Senhor em vão (Êxodo 20:7).
4) Lembra-te do Sábado, para o santificar (Êxodo 20:8-11).
5) Honra teu pai e tua mãe (Êxodo 20:12).
6) Não matarás (Êxodo 20:13).
7) Não adulterarás (Êxodo 20:14).
8) Não furtarás (Êxodo 20:15).
9) Não dirás falso testemunho (Êxodo 20:16).
10) Não cobiçarás coisa alguma do teu próximo (Êxodo 20:17).
Perceba, leitor, que nos dez mandamentos bíblicos não existe qualquer referência a: a) não mentir (não prestar falso testemunho não é o mesmo que não mentir); b) incesto; c) homossexualidade; d) necrofilia, zoofilia e pedofilia. Na realidade, a lista é extensa. Existem muitos mandamentos que não estão dentro dos dez, mas que são considerados “morais”. Mandamentos a respeito desses temas EXISTEM e estão FORA das Tábuas. Na realidade, os dois mandamentos que, segundo Jesus, são os mais importantes estão também fora dos dez: Amar a Deus e amar ao próximo (Marcos 12:28-31; cf. Levítico 19:17; Deuteronômio 6:4,5). Existe uma lenda bem difundida de que esses dois mandamentos sobre amar são um resumo da Lei. No entanto, tal idéia é falsa, por dois motivos: - em ponto algum a Bíblia diz que esses dois mandamentos resumem os dez mandamentos; - Amar a Deus e ao próximo exige MUITO MAIS do que cumprir os dez mandamentos. Quem ama ao próximo deve ajudá-lo, deve se negar a lhe ferir, deve lhe mostrar a verdade, e nada nos dez mandamentos diz isso. Pode-se arranjar muitos exemplos de mandamentos que estão fora dos dez e que mesmo assim precisam ser obedecidos.
O que a Bíblia diz claramente é que a Lei só fala aos que estão debaixo dela. De fato, Paulo afirmou que, estando entre os judeus, viveu como se estivesse debaixo da Lei, mas que a Lei sob a qual ele vivia era a Lei de Cristo (1 Coríntos 9:19-22). E ele nos diz exatamente como essa Lei de Cristo é cumprida (Gálatas 6:2). O Concerto de Deus no Sinai não é o mesmo estabelecido por meio de Jesus. Por isso há duas Leis, a que, segundo as Escrituras, foi entregue por Deus a Moisés (que inclui os dez mandamentos, mas são ao todo 613) e os mandamentos do Novo Concerto, muitos dos quais são idênticos aos dos da Lei de Moisés.
Sendo assim, fica demonstrado que essa falsa divisão entre mandamentos morais, cerimoniais e civis é meramente uma tradição de homens, que os faz esquecer dos mandamentos de Deus. É uma adivinhação, pois a Bíblia nunca fala sobre ela. Quando um adventista lê as Escrituras, continua achando que a divisão é verdadeira, porque olha para as Escrituras com uma lente que não lhe permite ver a verdade; uma lente vermelha oculta o vermelho real. É preciso que tire essa lente. Adivinham não só que existe uma divisão na Lei (o que a Bíblia não diz), mas também adivinham quais mandamentos pertencem a uma classe e quais mandamentos pertencem a outra (o que a Bíblia não diz).
Mas esse paradigma tem mais consequências. Por considerarem que os dez mandamentos são perpétuos, pensam também os adventistas que Adão e Eva (assim como Abraão, Jacó, etc) teriam guardado o mandamento do sétimo dia. No entanto, tal referência não existe em qualquer lugar das Escrituras. A Bíblia é taxativa em dizer quando a Lei veio, a saber, no ministério de Moisés (Romanos 5:12,13; Gálatas 3:17-19; cf. Neemias 9:14). Tudo o que a Bíblia diz é que Deus guardou o sétimo dia (Gênesis 2:1-3), mas não fala nada sobre Adão e Eva. Assim, é um mais um processo de adivinhação dizer que eles guardaram o sétimo dia. Na realidade, segundo Deuteronômio 5:12-15, o sétimo dia só foi instituído depois que os judeus foram libertados do Egito.
O processo de adivinhação continua, porque afirmam que os dez mandamentos estão guardados por Deus no santuário celestial, e que estão na arca mostrada em Apocalipse 11:19. No entanto, a Bíblia em ponto algum fala sobre o paradeiro das Tábuas. Fala apenas sobre onde elas estavam (cf. Deuteronômio 10:5; 1 Reis 8:9; Hebreus 9:1-5). Depois do cativeiro babilônico, a arca do concerto desapareceu, e, com ela, as tábuas. Mesmo que em Apocalipse 11:19 seja mostrada uma arca (que não necessariamente é a mesma de Moisés), isso não significa que lá estejam as Tábuas do Concerto.
Menos adivinhação, por favor.
Faço aqui um apelo ao qualquer leitor adventista: este tópico trata apenas de alguns temas da doutrina da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Comece a observar a cada uma das doutrinas da sua Igreja, se elas estão ou não estão expressas nas Escrituras, e como foi que se começou a acreditar nessas doutrinas. Peça a Deus que lhe ajude, porque ele não está longe de nenhum de nós. "Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes." (Jeremias 33:3)

Algumas questões que eu gostaria que os defensores dessa 'divisão' (em especial aos adventistas do Sétimo Dia) respondessem:
1) Onde a Bíblia diz que a diferenciação entre as 'leis' é entre mandamentos morais e cerimoniais (e judiciais)?
2) Onde a Bíblia diz que somente a Lei Moral permanece?
3) Por que existem mandamentos 'morais' fora dos dez mandamentos?
4) Como se pode chegar à conclusão de que a guarda do Sétimo Dia é um mandamento moral?
5) Se a Lei Moral tem expressão máxima nos Dez Mandamentos, por que o Novo Testamento os chama de 'ministério da morte gravado em letras de pedra' (2 Coríntios 3:7)?
6) Se parte da Lei é moral e parte é cerimonial, por que o Novo Testamento diz que TUDO o que a lei diz é exclusivo para os que estão debaixo dela (Romano 3:19)?


Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário