04/05/09

Deus pode?



“Eis que eu sou o Senhor, o Deus de toda a carne; acaso haveria alguma coisa demasiado difícil para mim?”
(Jeremias 32:27)

Um tema que aparece constantemente em discussões entre teístas clássicos e ateus é o de que o poder que se atribui a Deus criaria uma inconsistência que tornaria Sua existência um absurdo, e, na qualidade de crença religiosa, uma mentira. Digo “clássicos” porque existem correntes de pensamento teístas (geralmente de origem liberal) que defendem uma concepção do Divino não atingida pela crítica ateísta, a saber, o teísmo aberto. Neste artigo, não pretendo mostrar a precisão (ou imprecisão) do teísmo clássico, mas, antes, que a crítica ateísta se esvazia com o devido cuidado linguístico, isto é, mostrar que ela é falaciosa, estando sua falácia encoberta por dificuldades idiomáticas. Desfeitas estas dificuldades, o problema perde todo o sentido.
O problema a que me refiro diz respeito a ser Deus capaz de criar coisas que desafiam a razão. Dois exemplos muito famosos são o da figura geométrica inconsistente e o do encontro das infinitudes contrárias (conhecidos como paradoxos da onipotência). As respostas que seguem não são especialmente inovadoras, mas apenas formas pessoais de colocar o problema e resolvê-lo.


O PROBLEMA DA FIGURA GEOMÉTRICA INCONSISTENTE

Deus pode criar um triângulo redondo? Ou um triângulo quadrado? Em outras palavras: Deus pode criar um objeto geométrico que obedeça a duas diferentes e conflitantes definições (triângulo e quadrado, triângulo e circunferência...)?
O problema fica mais evidenciado quando dizemos desta forma: Deus pode criar um objeto que ao mesmo tempo obedeça e não obedeça a uma definição? Um triângulo quadrado ao mesmo tempo obedeceria (enquanto triângulo) e não obedeceria (enquanto quadrado) à definição geométrica de triângulo. Trata-se de um conflito com aquilo que ficou conhecido, após os trabalhos de Aristóteles na Lógica, como princípio da não-contradição. Se o poder de Deus implica na quebra do princípio, então Deus não poderia existir (nem mesmo na imaginação), por ser inconsistente; se Deus não pudesse fazê-lo, então Deus não seria onipotente, como prega o teísmo clássico, e, portanto, tampouco poderia exisitr. Pelo menos é assim que pensam os críticos ateus.
Afirmo novamente que não pretendo aqui defender a “onipotência” (um conceito não bíblico, mas sim filosófico) do teísmo clássico, mas sim mostrar que este problema proposto pelos ateus não desfaz em absolutamente nada a concepção Bíblica de que não haveria coisa impossível para Deus (Lucas 1:37).
É preciso dissecar a questão. Deus pode criar um triângulo quadrado? Colocando a questão desta forma, podemos observar dois enganos linguísticos, interligados.
O primeiro deles é a confusão entre palavras e coisas. As palavras (significantes) são conjuntos arbitrários de símbolos com um determinado significado. É importante frisar que são conjuntos arbitrários, e, por isso, nem todo conjunto de letras é uma palavra. Cada idioma tem um repertório histórico de significantes; as palavras dog, recht e katana nada significam, por exemplo, no repertório histórico da língua portuguesa. Do mesmo modo, em língua alguma (creio!) existe a palavra “KY&8^X”. Tal ‘palavra’, portanto, não designa coisa alguma.
Quando atribuímos a um determinado objeto uma característica, restringimos a área do significado. Quando dizemos “sorvete”, implica-se em um conjunto de numerosos elementos; quando, porém, especificamos dizendo “sorvete de goiaba”, o número de elementos do conjunto se torna ainda mais restrito. Podemos especificar ainda mais, até chegar a um único elemento, como quando é dito a respeito d’o sorvete de goiaba que eu tomei ontem à tarde na casa da Júlia. Parte-se de uma palavra sem realidade, e, por isso, com significado abstrato, para uma com concretude se lhe adicionando atributos. Se observarmos bem, somente neste caso há coisas existentes; a expressão sorvete não suficiente para definir precisamente o que objeto. É preciso definir propriedades físicas e estruturais, além de tempo e lugar. Além de arbitrário, o signo é impreciso.
Este processo, porém, não ocorre quando falamos de um “triângulo quadrado”. A “quadratura triangular” não é um subconjunto da “triangularidade”. O atribuição não restringe e concretiza o significado; antes, o anula completamente. Por isso, quando falamos em um “triângulo quadrado”, a expressão não significa coisa alguma. Ou seja, é apenas um amontoado de letras. Não há qualquer diferença de significado entre perguntar se Deus pode criar um triângulo quadrado e perguntar se ele pode criar um sabonete de cor “shrovog”, criar uma maça de sabor “123” ou mesmo criar um “bphut nhux”. Ou seja, a pergunta de fato não pergunta.
Isso se torna ainda mais claro quando nos lembramos de que o significado das palavras, como dito, é arbitrário. Ou seja, as definições são criações artificiais. Deste modo, não se trata de uma contradição entre coisas, mas simplesmente de uma contradição entre palavras.
O segundo engano, dependente do primeiro, diz respeito ao verbo criar. O que significa criar? Defino como dar a objeto(s) realidade. Realidade (ou, ainda, a coisalidade; não uso aqui a expressão “realidade” como o conjunto de tudo o que é real, mas a propriedade de cada uma destas coisas) diz respeito à correspondência entre os elementos de um objeto na imaginação e os elementos no mundo (ainda que este mundo seja dentro da própria imaginação; criar por meio da pura imaginação, e não produção física, como um unicornio, ainda seria criar, embora não no sentido teístico da expressão).
Mas um “triângulo quadrado” não tem elementos na imaginação; ou, melhor, estes elementos não estão definidos. Existem, de fato, elementos comuns entre o triângulo e o quadrado, mas naquilo em que os elementos não são comuns, eles se aniquilam mutuamente, criando um vácuo em seu lugar. Certas propriedades do “triângulo quadrado”, na imaginação, não estão determinados, e, por isso, a expressão criar não se aplica. Existe, portanto, uma impropriedade linguistica quando falamos a respeito da criação de um triângulo quadrado. Não é diferente de perguntar: “Deus zrub mqwe 29?” Ainda que seja usada uma sutileza formal que confunde, essencialmente pergunta alguma é feita.


ENCONTRO DAS INFINITUDES CONTRÁRIAS

O segundo problema é (creio) mais famoso. Deus pode criar uma pedra que não seja capaz de mover? Ainda: o que acontece quando contra um objeto inamovível se choca uma força irresistível, sendo Deus a origem tanto da imobilidade quanto irresistibilidade? Pelo sim ou pelo não, as respostas induziriam a uma limitação no poder de Deus.
Em certo sentido, toda força é irresistível, e todo objeto, movível. Imobilidade não é uma propriedade estrutural de um objeto; é, antes disso, uma condição que existe referencialmente. Em relação à Terra, uma montanha pode estar parada, mas em movimento quando observada de outro planeta. Um objeto inamovível seria mais um conflito linguístico, como já mostrado a respeito do “triângulo quadrado”.
Então, de certa forma, Deus poderia sim criar um objeto inamovível e movê-lo. Mas nós também. Movimento não pode ser tratado absolutamente, mas relativamente. Quando falamos a respeito de uma "pedra irremovível" (ou "pedra que Deus não pode mover"), trata-se de mero flatus vocis (gramaticalmente consistentes, mas sem qualquer significado), porque toda pedra é um corpo, e todo corpo é movível (em um certo sentido), e irremovível (em outro).
O problema também pode ser posto de outra forma (possibilitando uma resposta também em outra forma): O que acontece com uma força infinita que se choca contra um objeto que resiste infinitamente a qualquer força? Não poderíamos responder que se anulam. É preciso notar o infinito não é (a despeito do tratamento que lhe dá o senso comum) um número. Não existem axiomas numéricos que permitam equacionar o infinito; assim, é mais uma falácia linguística a tal força infinita. Além disso, infinito não é a propriedade de um elemento. Antes, é a propriedade de um conjunto. Uma pedra (ente concreto) é um elemento, não um conjunto (ente abstrato).




Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

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