20/02/09

A Bíblia ensina? Introdução

Resolvi escrever este tópico reunindo diversas questões a respeito de temas que geralmente são ensinados como sendo doutrinas bíblicas, mas que não tem fundamento nas Escrituras, ou tem, mas diferente do que se apresenta na realidade. São questões que certamente merecem aprofundamento e tópicos exclusivos. Esteja claro, portanto, que o tratamento dado a tais temas é apenas sugestivo, e de modo algum coloca pontos finais irrefutáveis.

Os subtópicos tratados são apenas problematizações necessárias à nossa realidade Evangélica, por defendermos a Sola Scriptura como base de todo ensinamento doutrinário positivo. Um grande problema que enfrentamos no nosso diálogo com a Bíblia é interpretarmo-las conforme nossa própria realidade, e não conforme a realidade dos diversos escritores bíblicos; tiradas de sua própria realidade e cultura, as palavras e as frases perdem seu significado original. Não é preciso mudar um texto para mudar seu sentido; basta mostrá-lo ao intérprete incorreto, ou colocá-lo fora de sua própria situação. Segue um texto muito interessante do jusfilósofo e cientista político Norberto Bobbio, que ilustra bem essa realidade.

Por exemplo, quando digo, dirigindo-me a um amigo com o qual estou dando volta: “Eu gostaria de beber limonada”, pretendo exprimir o meu desejo e quando muito dar ao meu amigo sobre o meu estado de espírito; ao dirigir as mesmas palavras a uma pessoa que está atrás do balcão de um bar, não pretendo exprimir um desejo nem dar a ela uma informação, mas impor-lhe uma determinada conduta. (Enquanto no primeiro uso da expressão, é previsível, por parte do amigo, a resposta: “Eu também”, a mesma resposta por parte do segundo interlocutor seria quase uma ofensa.) (BOBBIO, NORBERTO, Teoria Geral do Direito, p. 53)

Nossa realidade evangélica, dada à Teologia Sistemática, cristalizou certo número de doutrinas, que são ensinadas como sendo bíblicas, mesmo tendo os escritores bíblicos vivido muito antes da criação das fórmulas e credos. Diversos pontos da Bíblia são apontados como evidência da crença primitiva de tais doutrinas, mas o leitor precisa interpretar as Escrituras pelas lentes que o destinatário da época tinha, e não pelas lentes que existem hoje, depois da formalização. O intérprete das Escrituras precisa desfazer-se de todos os preconceitos e de sua cosmovisão moderna e vestir-se do destinatário das cartas e dos evangelhos, pensar como ele pensaria, em sua própria época, com seus próprios preconceitos, com sua própria cosmovisão, e só então realizar o processo inverso, traduzindo o texto primitivo, em seu significado, para nossas linguagem e compreensão.



Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

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