02/01/09

Por que eu acho que ele deveria ter sido cristão

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Em 1927, o filósofo e matemático britânico Bertrand Russell escreveu um ensaio chamado Why I Am Not a Christian (“Por que eu não sou cristão”), de transparente conteúdo. É interessante, primeiro, notar o título subjetivo que o texto apresenta; não pretende apresentar os motivos para a massiva descristianização, mas sim a confissão pessoal de Russell: por que eu não sou cristão. Pretendo, neste artigo, apresentar uma resposta ao ensaio de Russell. Outras respostas são perfeitamente possíveis, como a de John Stott. Pretendo mostrar porque Russell deveria ter sido cristão primeiramente respondendo aos seus argumentos, e depois mostrando alguns motivos pelos quais o cristianismo deveria ser levado em consideração como sendo uma confissão coerente e consistente. A versão do texto de Why I Am Not a Christian usada está disponível gratuitamente no endereço ateísta www.ateus.net. Sugiro ao leitor que primeiramente leia atentamente ao texto de Rusell.

Russel começa seu ensaio, como se lê, definindo o que ele considera como cristão. Ele mostra três elementos essenciais do que chama “cristão”, a respeito do qual seu ensaio faz referência. Resumidamente, seriam os seguintes:
I. Crença na existência de Deus.
II. Crença na imortalidade (literal).
III. Crença a respeito de Jesus Cristo, se não como divino, ao menos como o maior dos mestres.

É a respeito do I e do III pontos que o ensaio de Russell trata. O texto nos faz pensar que Russell só seria cristão se fosse possível provar algo a respeito destes itens. Neste caso ele incorre em uma falácia chamada argumentum ad ignorantiam, a respeito do qual Russell, como um excelente expositor da Lógica, certamente estava avisado. Mas este é um ponto de menor importância. Trataremos, portanto, do ensaio na ordem em que segue o texto de Russell.


1. A CRENÇA NA EXISTÊNCIA DE DEUS

Russell leva em consideração vários argumentos tradicionais em favor da existência de Deus. São eles: cosmológico, da lei natural, teleológico e dois argumentos morais. Destes, considero o mais fascinante como sendo o cosmológico. Existe outro argumento tradicional, o ontológico, o qual Russell não se importa em refutar no seu artigo.
Segundo Kant expõe em sua Crítica da Razão Pura, existem três argumentos que a razão pura (a priori) pode oferecer para defender a existência de Deus: o cosmológico, o ontológico e o teleológico. Ainda segundo Kant, é impossível que haja qualquer outro argumento da razão pura (embora possamos imaginar outros argumentos, que não da razão pura). Podemos pensar em um motivo simples para essa impossibilidade: o argumento ontológico pesquisa evidência no próprio conceito de Deus; o argumento teleológico, na configuração do mundo; e o argumento cosmológico, na relação entre Deus e o mundo. Deste modo, se em Deus, se fora de Deus (não-Deus) e se na relação entre Deus e não-Deus é buscada a prova, não resta qualquer universo onde encontrar um argumento a priori. Todos os demais argumentos não serão, portanto, puros.
De todo modo, seria necessário que Russell apontasse, em seu artigo, uma refutação dó argumento ontológico. Não se justifica tão ausência por haverem filósofos anteriores que tenham tentado, como o próprio Kant. Passemos aos argumentos que Russell refuta.

1.1 Argumento Cosmológico

O argumento cosmológico, muito antigo, baseia sua força no princípio da causalidade. Por causalidade entendemos a relação necessária entre causa e efeito (ou conseqüência). Se estendermos este princípio da todo o mundo natural, isso significa que todas as coisas que existem necessariamente devem existir de tal modo por conta de uma causa anterior ou simultânea (condicional). Ou seja: tudo o que há é no mundo natural é conseqüência de algo anterior. De tal forma, retrocedendo no tempo, segundo a lógica aristotélica, chegaremos a uma primeira causa, chamada causa motora ou primeiro motor. Esta causa motora fora, na interpretação teísta, o próprio Deus.
A crítica que Russell faz ao argumento cosmológico é a mais conhecida de todas: o abuso da causalidade não protege Deus do argumento. Se Deus criou o mundo, quem criou Deus? A refutação não é especialmente intelectual; é comum, no dia a dia, tal questionamento. A conclusão seria de que ou Deus tem uma causa, ou existe algo sem causa, mas que poderia perfeitamente ser o próprio universo, sem precisar invocar a existência de Deus. Esta conclusão, porém, está errada por alguns motivos, que apontarei.

As possibilidades, somando-se as duas oferecidas por Russell à que defendo neste artigo, são as seguintes:
a) O mundo existe por si próprio.
b) O mundo é conseqüência de um agente externo causado.
c) O mundo é conseqüência de um agente externo não-causado.

Ao argumento cosmológico são acrescidos outros argumentos que nos ajudam a entender: a) porque só Deus poderia ser a primeira causa; b) e porque Deus não poderia ser criado. Russell ou não se importa em refutar estes outros argumentos, ou simplesmente ignora-os.

Na idade média foram desenvolvidas duas formas lógicas de provar que é impossível que o universo não tivesse origem, exatamente porque podemos deduzir que o tempo teve um princípio. É particularmente interessante a seguinte:

I - É impossível construir um infinito por adição contínua de finitos.
II - O tempo progride por adição contínua de finitos.
Conseqüência: O passado é finito.

Se o passado é finito, logo o universo teve uma origem. Isto é importante porque tudo aquilo que existe por si mesmo, isto é, tudo aquilo que existe por consistência interna, sem qualquer causa externa, existe infinitamente, isto é, atemporalmente. Um exemplo usado em um debate pelo filósofo cristão William Lane Craig é o dos números; se existem, eles existem sem qualquer causa externa. Seria, portanto, impossível que o universo existisse por si mesmo, antes deveria ter causa externa. Logo, das três possibilidades acima mostradas, a primeira (a) é falsa. Devemos, agora, provar que a segunda é falsa.
O tempo teve um “princípio”, isto é o que já pudemos concluir acima. Devemos perceber, além disso, que a causalidade só pode existir no tempo, porque mudança pressupõe tempo, e causalidade pressupõe mudança; causalidade, portanto, pressupõe tempo. O que quer que tenha causado o universo deve ser algo que existe por si mesmo. Logo, a segunda possibilidade é falsa. Então concluímos que o universo existe porque foi causado por algo atemporal, que existe por si mesmo, e que não foi causado por coisa alguma. É algo que transcende o tempo, e em que não existe mudança. Nós cristãos identificamos tal como sendo Deus, mas para provar que é Deus precisamos ainda mostrar que tal causa precisa ser um ser com vontade (isto é, capaz de fazer escolhas), porquanto seria plausível que um ente não-inteligente, metafísico, fosse, na realidade, a causa do universo, ainda que sejamos incapazes de imaginar que ente seja este.
Como provar que a primeira causa tem vontade? Na verdade, um dos próximos argumentos serve como evidência de que a causa da criação seria um ente com vontade. Trata-se do argumento teleológico. De todo modo, adiantamos que a existência de arbitrariedades no universo e em suas leis é desde já uma evidência. Um segundo ponto especial a considerar é que, se o primeiro motor não tivesse vontade, e sendo atemporal, não seria possível que nele operasse causalidade que o guiasse à criação (nem tampouco caos, já que sendo atemporal, sua condição aleatória seria ao mesmo tempo sua condição definitiva, um paradoxo), já que está fora do tempo, a menos que voluntariamente entrasse no tempo. Ou seja: criar o espaço e o tempo exatamente no princípio do tempo, como causa simultânea. Tal exige a capacidade de inteligentemente escolher: vontade própria.

1.2 Argumento da lei natural

Este segundo argumento trata um pouco do que vimos acima: as ciências naturais interpretam o mundo através de leis, mas não são capazes de explicar a existência dessas leis, e, especificamente, não são capazes de explicar a existência arbitrária dessas leis. Não há motivo natural para a existência delas; se não há motivo natural, conseqüentemente o motivo é sobrenatural (isto é, está fora do mundo). Tal é semelhante a um programador de computador, que pode criar um universo virtual com suas próprias leis arbitrárias.
Russell não mostra qualquer motivo para desacreditar o argumento, senão questionando o motivo para Deus estabelecer essas e não outras leis, se pela razão, se fora dela. Se Deus as fez assim porque quis, e não pela razão, então Deus está fora das leis naturais e, portanto, tais leis não existem (paradoxo). Se, porém, Deus criou tais leis pela razão, então está de algum modo sujeito a elas, já que pela razão necessariamente haveria de criar aquelas leis.
Pretendo defender o primeiro ponto de vista, a saber, de que não é necessário invocar a razão para explicar a existência de nossas leis naturais. Não afirmo categoricamente que Deus tenha criado as leis naturais sem o uso da razão; apenas prefiro não pressupor isso, porque não conhecemos os motivos de Deus. Mas consideremos os dois pontos.

1) Se Deus criou as leis naturais apenas pela vontade, e não pela razão, então Deus está fora das leis naturais, de modo que tais leis não podem existir.
Resposta: O argumento de Russell é mero jogo de palavras. Na realidade, Russell se esquece de que as ciências naturais só investigam o mundo natural. As leis naturais supostamente só afetam o mundo natural. Então, mesmo que Deus não tivesse qualquer relação criativa para com as leis naturais, ainda assim não haveria qualquer problema em que ele não estivesse limitado por elas.

2) Se Deus criou as leis naturais pela razão, e o racional seria criar o melhor universo possível, então Deus está preso a essas leis, já que criou as que deveriam ser criadas.
Resposta: Este argumento é melhor que o anterior, mas existe uma grande falha ao afirmar que o racional seria criar as melhores leis possíveis. Na realidade, “melhor” é um juízo de valor, e não de fato; Russell erra ao tentar derivar um juízo de fato a partir de um juízo de valor. Mas talvez ele queira dizer outra coisa com “melhor”, como “complexo”, “completo”, “consistente”, ou “funcional”, mas nenhuma dessas expressões suporta um “mais”, que seria sempre teria origem em uma valoração. Na realidade, o racional seria que existisse um conjunto de mundos imagináveis e um subconjunto de mundos consistentes, a partir dos quais Deus poderia livremente criar o que quisesse. Se Deus criou um mundo com leis consistentes entre si, o fez por vontade própria; se o fez racionalmente, não significa que o tenha feito pressionado pela razão, mas sim usando dela. Na verdade, não existem motivos sólidos para pensarmos que Deus necessariamente criaria um mundo com um conjunto de leis consistente e completo. Como escreveu Wittgenstein: “É costume dizer que Deus poderia criar qualquer coisa, exceto aquilo que é contrário às leis da lógica. O fato é que nós não sabemos como um mundo ilógico se pareceria.” (Tractatus logico-philosophicus, 3.031). Se Deus criou um mundo completo e consistente, o fez racionalmente, mas acima de tudo voluntariamente, como legislador, e não como simples publicador. Imagine novamente o caso do programador de computador que cria, em realidade virtual, um universo com leis arbitrariamente selecionadas; é a vontade que guia para razão, e não a razão que domina a vontade.

1.3 Argumento teleológico

O argumento teleológico baseia-se na noção de que o mundo ao nosso redor é construído para permitir nossa vida de tal modo que deve existir uma conspiração por trás dele, uma mente o moldando. Parece existir uma finalidade (TELOS) por trás do universo.
O argumento teleológico de fato encontra sérios problemas; enquanto sabemos que, mudadas as condições naturais, poucas são as possibilidades de formação da vida, também sabemos que o nosso próprio universo não permite infinitos fenômenos. Imaginemos, por exemplo, outro universo, com diferentes leis, onde é possível que através do hidrogênio se formar diferentes seres “vivos”. Esses seres, fazendo uso do argumento teleológico, afirmariam que universos onde tais formações são impossíveis (como o nosso) são de quantidade tão massiva que deveria existir um criador por trás disso. A quantidade de diferentes seres que podemos imaginar, mas que de fato inexistem, tende ao infinito. Somos apenas uma possibilidade dentre tantas.
Assim, o argumento teleológico só pode ser corretamente aplicado quando em conjunto com o argumento ontológico, como confirmação.
A primeira objeção de Russell é a darwinista. Não é o mundo adaptado a nós, mas nós ao mundo, ele defende. Mas mesmo assim, tal objeção, considerando retoricamente a teoria evolucionista como verdadeira, ainda não explica toda a nossa situação. Como já dito acima, existem séries de arbitrariedades na natureza; se as constantes naturais fossem todas desproporcionalmente alteradas, a existência de vida (ou mesmo da matéria como a conhecemos) seria questionável. Some-se a isso o fato de que tais constantes poderiam ser alteradas para valores infinitamente divergentes dos atuais. As possibilidades de existência de vida seriam, portanto, infinitesimalmente pequenas. Além disso, o darwinismo não explica a formação de órgãos que os estudiosos do design inteligente chamam de “irredutivelmente complexos”. Existem porções que não poderiam ser explicadas por simples evolução gradual, porque, removidas partes que agora existem, não funcionariam.
Imaginar todos os processos biológicos como tendo evoluído gradativamente gera alguns problemas. Por exemplo: qual foi o primeiro casal capaz de reprodução exclusivamente sexuada? Podemos imaginar que o primeiro indivíduo capaz de reprodução sexuada (seja lá como ele tenha adquirido tal característica) também fosse capaz de reprodução assexuada, e por isso teria gerado outro igual a si, mas o primeiro casal puramente sexuado só poderia surgir por formação independente, onde indivíduos haveriam de perder a reprodução assexuada, por algum motivo, ao mesmo tempo. Como explicar isso? Também podemos questionar o DNA, se o que haveria de surgir primeiro seriam seus métodos de reparo (que não teriam utilidade sem a existência do DNA) ou se a própria molécula (que não teria funcionalidade sem a existência dos métodos de reparo). Na realidade a própria existência de métodos de reparo pressupõe uma tão grande engenhosidade que é difícil imaginar tal coisa surgindo por acidente e seleção.
A segunda objeção de Russell é a de que nosso mundo é tão incompleto que não parece haver uma onipotência e onisciência por trás de tais... “criações”. Seria esse o melhor mundo que Deus nos quis dar? Bem, o argumento de Russell não contradiz a cosmovisão cristã. Pelo contrário, confirma-a: segundo a visão bíblica, o mundo é incompleto e imperfeito, e toda a criação aguarda o momento de Deus (Romanos 8:22). Não esperamos que o mundo seja perfeito, antes que, imperfeito, nele enfrentemos todo tipo de sofrimento, porque tal condição é passageira, e nos prepara para uma vindoura (2ª Coríntios 4:17; Apocalipse 21:4). Atacar a condição do mundo não significa atacar a condição do Criador; a objeção é falaciosa.

1.4 Argumentos morais

O argumento da moralidade pode tomar grande diversidade de formas, como admite o próprio Russell. Seu cerne, porém, é o seguinte: a melhor explicação para a existência de fatos morais é Deus.
Perceba o leitor que a questão não é saber qual conjunto moral é o que procede de Deus (porque diversas sociedades, grupos ou indivíduos têm moralidades diferentes, e muito já foi escrito a respeito de como a moral pode ser um fenômeno social; não é este o ponto), nem saber se é possível, sem invocar uma revelação divina, propor uma moralidade secular. A questão é: existe moral objetiva? Ou melhor, existe bem e mal? Se Deus não existe, é impossível que haja objetivamente bem e mal, já que nós, na condição de máquinas bioquímicas, teríamos inventado, no progredir da história, certos tabus, que teriam se perpetuado por tradição, até fazerem parte tão natural de nossa vida que os consideramos como transcendentes. Não haveria diferença entre o abuso sexual de uma criança e o casamento; todas as atitudes seriam igualmente neutras. A conseqüência do ateísmo é o niilismo; pelos motivos acima mostrados, uma moralidade secular seria simplesmente uma ilusão (assim como a moralidade religiosa seria igualmente uma ilusão), isto é, produto de relações intersubjetivas, uma criação comunitária, e não algo que existe objetivamente. A conseqüência imediata disso é que seria impossível taxar algo (como o estupro, por exemplo) é errado; seria errado para um determinado grupo. Isto é precisamente a propaganda do relativismo moral.
Mas o leitor novamente tome cuidado: a questão não é descobrir como a moralidade se forma nos indivíduos e grupos, nem como se pode aplicar a moralidade em cada caso; neste ponto é que está a falácia do relativismo moral. O argumento não trata da moral intersubjetiva; na realidade, não diz respeito a ela de qualquer maneira. A questão é descobrir se a moralidade existe objetivamente, se há bem em si e mal em si, existindo independentes de nosso próprio juízo. O bem em si e o mal em si são idéias, e, portanto, só existem abstratamente; só poderiam ser reais se fossem primeiramente pensados. Mas se de fato existem, então em algum momento uma mente os imaginou. E se sua existência é objetiva, isto é, no mundo, então a mente que os imaginou só pode existir fora do mundo. Deus. Seria, pois, inconsistente crer que bem e mal existem sem crer em Deus; quem acredita neles deve conseqüentemente acreditar nEle.

A primeira objeção de Russell, textualmente, diz respeito a como veio à existência o bem e o mal. Eu a resumo: Se Deus determinou o bem e o mal, então o fez arbitrariamente, e logo para Ele mesmo não deve existir bem e mal, de modo que seria impossível dizer que Ele é bom. Mas se ele for bom, então o bem e o mal devem existir independentemente dele.
A objeção é boa, mas é fácil contestá-la. O problema está em como se colocam os argumentos. Perceba que Russell considera uma possibilidade (Deus determinou o bem e o mal), chegando a sua conclusão (Deus não seria bom), e depois a negação da conclusão, chegando a uma das possibilidades de negação da possibilidade inicial, mas não propriamente à negação da possibilidade em si, infinitiva. Trata-se de um jogo de palavras: porque ele não considerou a possibilidade de que Deus não tenha determinado o bem e o mal (e entenda-se aqui a determinação do bem e do mal como um ato positivo de legislação, isto é, um FAÇA-SE, fiat)? A resposta é simples: porque a partir da negação da possibilidade inicial podem ser fornecidas diversas conclusões, mas a única que interessou a Russell é a de que “Deus não é bom”. Partiu da conclusão para a possibilidade, e não o contrário. É mais absurdo ainda quando Russell falaciosamente implicitamente conclui que se o bem e o mal não dependem da vontade de Deus, eles não dependem de Deus (implicitamente, porque o único modo de concluir que o bem e o mal são anteriores a Deus seria crer que d’Ele não dependem). Na realidade, se o bem é uma característica intrinsecamente divina, isto é, faz parte da essência de Deus, e se o mal é tudo aquilo que lhe é oposto, é evidente que qualquer ato de legislação divina não será uma determinação do bem e do mal, mas sim uma notificação. Deste modo, o bem pode existir em Deus, analiticamente, sem ser preciso que Deus primeiramente determine. Tal determinação seria temporal; o bem faria parte da essência de Deus atemporalmente.

A segunda objeção de Russell diz respeito a uma versão do argumento moral que não pretendo sustentar. A crítica de Russell, neste ponto, está correta (isto é, o segundo argumento falha), mas não invalida o que já foi mostrado acima a respeito do argumento moral. É a negação de um argumento, e não a negação do que defende o argumento.


2. JESUS CRISTO E A RELIGIÃO CRISTÃ

Primeiro Russell trata de alguns ensinamentos de Jesus que, conforme considera, os cristãos não buscam cumprir. Isto é, precisamente, uma falácia, e creio que Russell soubesse muito bem disso. Afirmar que os grupos de professos seguidores de Jesus que o próprio Russell conhecia não cumprem mandamentos do Evangelho não é um motivo para duvidar do Evangelho, nem dos ensinamentos de Jesus, nem de que se deva ser cristão; pelo contrário, é exatamente um motivo para duvidar de que tais sejam realmente cristãos. Evidentemente ele não pode falar de todos os cristãos de todas as épocas, e, ainda que pudesse, mesmo assim não afetaria os ensinamentos do próprio Jesus. Russell mesmo reconhece, por exemplo, o princípio de Mateus 5:42, como muito bom. É incoerente afirmar que, por os “cristãos” conhecidos de Russell não cumprirem tal mandamento, ele próprio não deveria acreditar em Jesus. E isto basta para o primeiro ponto a respeito de Jesus.

No segundo tópico a respeito de Jesus, Russell trata de ensinamentos que considera como defeituosos, mas faz uma ressalva afirmando que não está interessado na questão histórica, já que “é muito duvidoso que Cristo haja jamais existido e, se existiu, nada sabemos a respeito d’Ele”. Antes de tratar da questão do tópico, um comentário a esse respeito: duvidoso é crer que Jesus não haja existido, e que aqueles que pregaram a respeito dele sejam um grupo de fanáticos que deram suas vidas por algo que inventaram. Quanto a não sabermos nada a respeito d’Ele, tal só pode ser concedido se dissermos também que não sabemos nada a respeito de qualquer pessoa que tenha vivido na idade antiga, e mesmo na idade média e moderna.
Prossigamos à questão do segundo tópico. A primeira objeção diz respeito ao modo como os Evangelhos tratam a segunda vinda de Jesus. Russell cita Mateus 6:34; 10:23; 16:28 como evidências de que se acreditava que Jesus viria muito breve. E se resume a isso. Convém tratar destes versículos, então.
Quanto a Mateus 6:34, Russell supõe que o ensinamento de Cristo a respeito do descuidado para com as coisas da vida se dá porque o próprio Jesus deveria acreditar que viria muito breve. Na realidade não existe uma base textual para essa interpretação; na realidade, é em Paulo, e não no Evangelho, que se acha tal ensinamento de que pela brevidade da vinda de Jesus não deveríamos nos deter nas coisas deste mundo (1º Coríntios 7:29-31; veja, porém, que ainda assim Paulo não acreditava em reclusão total; cf. vv. 32-34). Na realidade o próprio versículo, que Russell não se interessa em citar por completo, nos diz o motivo de Cristo: não devemos andar cuidadosos com o dia de amanhã PORQUE o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Não se trata de uma exortação escatológica, antes uma reafirmação da convicção de que Deus nos ajuda até nas necessidades mínimas. Sugerida a leitura de todo o contexto, a saber, Mateus 6:25-34, para melhor compreensão.
Com respeito a Mateus 10:23, podemos tomar duas perspectivas. A primeira é a de que de que o versículo não significa necessariamente uma exortação escatológica, mas sim uma promessa de que o Filho do homem viria a socorrer os cristãos em suas perseguições. Veja o autor do mesmo Evangelho deixa claro que Jesus não conhecia o dia da sua vinda (Mateus 24:36,44). Tal explicação, porém, de algum modo parece inconsistente para com a investigação teológica. Na realidade, sabemos que era esperada, por alguns grupos, a vinda de um Filho do homem, um juiz cósmico, não necessariamente o mesmo ser que o Messias. Podemos cogitar também a possibilidade de que, interpretado literalmente, este versículo seria consistente com nossa realidade, já que os apóstolos não percorreram todas as cidades de Israel, e o Filho do homem ainda não veio. Existe ainda outra possibilidade, que é a de considerar que de fato o versículo querer dizer que o Filho do homem haveria de necessariamente aparecer naquela época dos apóstolos, trazendo seu juízo ao mundo. Neste caso, o versículo não teria se cumprido. O que há de interessante a respeito de tal interpretação é que teríamos a evidência de um versículo incorreto no Evangelho de Mateus. Mas porque os cristãos haveriam de permitir um versículo que contradiria sua própria realidade? Se os primeiros cristãos toleraram tal versículo, é porque acreditavam nele. Deste modo, estaria provado que o Evangelho de Mateus não sofrera sistemática adulteração textual no princípio, e deste modo seria uma fonte fidedigna. Mas ainda temos o problema de considerar se Jesus acreditava ou não em sua própria vinda. De fato, dos quatro Evangelhos, o texto do versículo só aparece no de Mateus. Se a hipótese de duas fontes estiver correta, então tal afirmação se deve a fontes mais tardias a respeito de Jesus, conhecidas coletivamente como M (se é que não foi uma única fonte). Por serem mais tardias, são menos confiáveis que Q e o Evangelho de Marcos. Neste sentido, poderíamos cogitar a possibilidade de que o dito contido no versículo tenha sido fabricado (intencionalmente ou não) por algum grupo de cristãos em um tempo remoto, quando os cristãos sofreram perseguições por parte dos judeus e buscavam consolo na PAROYSIA (“vinda”) de Jesus. Um critério de investigação que impediria a historicidade do dito seria o de que tal versículo corroboraria com a crença do escritor. Assim, não existem motivos históricos para considerar que Jesus realmente disse isso. Tal defesa desconsidera completamente a inerrância bíblica, e veja que Russell não listou a inerrância bíblica entre os requisitos do cristão que critica.
Quanto a Mateus 16:28 (sinóticos: Marcos 9:1; Lucas 9:27), a passagem exige cuidadosa interpretação. Existia, na época de Jesus, a crença dos dois éons, segundo a qual o nosso mundo atual, cheio de perversidade e crueldade, dominado pelo maligno, teria fim em breve, com o começo do novo éon (“século”), o Reino de Deus. No novo éon, conforme a visão neotestamentária, os seguidores de Jesus não experimentariam a morte: sua vida seria eterna (Marcos 10:30; Lucas 20:34-36). Neste caso, não faz parte da crença dos autores dos considerados textos do Novo Testamento a idéia de que no éon vindouro os cristãos provariam a morte; mas é exatamente isso que diz o versículo, se a interpretação de Russell estiver correta, isto é, de que o que o versículo diz é que Jesus viria ainda naquela época. Existe especulação a respeito do significado do versículo (segundo alguns, a transfiguração de Jesus seria o cumprimento do versículo, já que nos três sinóticos tal dito é seguido dela), mas o que já foi dito é suficiente para provar que Russell errou.

O terceiro tópico trata principalmente da questão do Inferno. A este respeito já escrevi um tópico do blog, em que é suficientemente provado que existe uma confusão a respeito das palavras inferno e eterno no Novo Testamento. Mas de todo modo, Russell aponta o que ele considera a respeito do ensinamento de Cristo como uma falha moral; na realidade, a crença de Jesus não lhe era exclusiva. Tornou-se popular pelo helenismo; o que vemos é apenas uma versão judaizada e pia, do 1º século. As pessoas para as quais Jesus pregou já acreditavam no inferno (Geena); Jesus, se realmente falou a esse respeito como dizem os Evangelhos, usou essa idéia como exortação ao arrependimento daqueles que partilhavam da mesma fé judaica no Senhor, e não como condenação dos infiéis. Esqueceu-se Russell de que em Platão (ou Sócrates, como queira) também existe um lugar mitológico de condenação, como vemos em Górgias e Fédon.
Uma questão menor, ainda no terceiro tópico, diz respeito à legião de demônios que Jesus faz entrar em uma manada de porcos e a maldição da figueira que não dera frutos. Russell não diz exatamente porque isso seria incorreto. São duas questões diferentes. Na primeira, devemos considerar que para o judaísmo os porcos são animais imundos; Jesus não lança os demônios nos porcos, antes permite que os próprios demônios entrem neles (Marcos 8:30-32). No segundo caso, Jesus simplesmente exerceu de sua soberania sobre aquela figueira; embora eu não duvide da literalidade do relato, existe um simbolismo por trás da figueira. Jesus espera que nós demos fruto em tempo, mas também fora de tempo (compare a 2ª Timóteo 4:2). Não devemos nos escusar, diante de Deus, conforme as nossas tendências naturais; devemos nos moldar à Sua vontade. Mas possivelmente o que o caso concreto nos ensina é sobre o poder através da fé (Mateus 21:19-21).

O quarto tópico é a refutação de um argumento que também eu considero falso, o de que a religião torna os homens virtuosos. Mas cabe aqui tratar um ponto especial da argumentação de Russell, que também é falso. Ele comenta que os períodos em que houve auge da fé foram aqueles em que mais a religião (cristianismo) cometeu barbaridades, e que todos os progressos do mundo, trazidos pela secularização, foram desaprovados pelas Igrejas. A progressão de Russell vai da idade da fé (quando houve inquisição) à contemporaneidade (onde a fé é mais frágil, mas os progressos sociais, significativos), mas evidentemente ele se esquece do primeiro período, o mais primitivo, onde a fé era ainda mais forte, e tão forte que por causa dela os cristãos sofreram perseguições, em vez de serem os perseguidores. Duvido muito que a Inquisição tenha qualquer coisa a ver com a fé; trata-se de simples manutenção do poder papal, e o Papa de modo algum representa o cristianismo; é absolutamente falso reduzir o cristianismo (a crença) à cristandade, onde há tanto joio quanto trigo. O cristianismo pressupõe a revelação de Deus, e deste modo não é para os exemplos dos cristãos (ou dos falsos cristãos) que devemos olhar em busca da certeza de fé, mas no próprio ato de revelação de Deus através de Jesus Cristo. Desconhece Russell, por exemplo, que foi a cristianização do Império Romano que abrandou o Direito Penal Romano. Não sei de onde Russell cavou tal absurdo de que as Igrejas foram contrárias aos progressos.

O quinto tópico trata exclusivamente de um ponto da dogmática da Igreja Católica. Não pretendo defendê-la.

No sexto tópico, Russell nos descreve um dos maiores mitos a respeito da religião: o mito de que sua base é o medo. E ele não explica o motivo, apenas nos diz pensar que se dá dessa maneira. Russell não está sozinho ao pensar que a religião se baseia em fraquezas humanas; mas isso é falacioso. É correto dizer que muitas pessoas procuram a religião como meio de suprir uma necessidade ou fraqueza (no caso, o medo); errado é dizer que a base da religião é essa. E mais errado ainda, dizer que esta é a base do cristianismo. O cristianismo surge a partir do judaísmo; este era uma religião nacional, e, portanto, um fenômeno social. Não poderia surgir pontualmente, psicologicamente. Já aquele, o cristianismo, por surgir dentro do próprio judaísmo, busca mostrar a revelação do Deus de Israel através de Jesus Cristo. Em ponto algum é possível derivar tais doutrinas, tanto o judaísmo quanto o cristianismo, do medo.
Pouco mais de dois anos atrás eu era ateu, e simplesmente não me lembro de ter sido o medo que me dirigiu para o Evangelho. Foi muito mais a oportunidade de provar se a Palavra que foi pregada era verdadeira ou não. E era.



Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

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