03/11/08

Instante crítica

Há uns meses atrás, um irmão e amigo começou a ler o livro de Robert C. Sproul chamado Defendendo sua Fé, que é uma introdução à “defesa da fé” protestante. Como a defesa da fé geralmente envolve o uso de Teologia Natural (e, portanto, Filosofia da Religião), algumas partes do livro são dedicadas a autores como Tomás de Aquino e Immanuel Kant. O irmão, lendo o livro de Sproul, mas sem leitura prévia de Kant, teve uma péssima impressão do filósofo, chegando a julgá-lo ateu. O problema não estava na filosofia kantiana, e sim na exposição de Sproul.
Graças àquele irmão, pude ler o capítulo 10 do livro de Sproul, em que existe uma contraposição entre Tomás de Aquino (e o argumento a favor da existência de Deus) e Kant, e, depois, entre Paulo (Romanos 1) e Kant. É sobre este segundo ponto, a saber, a “contradição” observada entre Paulo e Kant por Sproul. A análise deste autor, porém, não tem fundamento, como se demonstrará.
Sabem os leitores que a primeira porção doutrinária da carta do apóstolo Paulo aos Romanos sumariza a situação de condenação que abarca tanto judeus quanto gentios. Paulo inicia a perícope com a argumentação que parte da teologia natural do Estoicismo (Romanos 1:18-23), que usa para mostar a situação específica dos gentios: conhecendo a Deus, não o honram. Kant, por sua vez, fez parte de um momento do desenvolvimento da Filosofia em que houve rejeição da teologia natural. Ele considerava impossível provar a existência de Deus pela metafísica, como queriam certos filósofos-teólogos medievais, a exemplo de Tomás de Aquino. Para Sproul, trata-se de uma contradição, em que de um lado Paulo defenderia a fundamentação racional da certeza da existência de Deus a priori, enquanto Kant negaria essa possibilidade (embora não negasse a existência de Deus propriamente).
Neste sentido, Sproul comete um erro crasso, porque, contrapondo um autor ao outro, afirma que Kant está errado pura e simplesmente pelo fato de que Paulo seria o “autor inspirado” (pp. 82-83). Onde está o erro de Kant, Sproul não aponta. Desse modo, o autor perde a credibilidade, porque não é capaz de defender a fé (a que se propõe o livro) sem recorrer a uma falácia: não usa da autoridade do argumento, e sim o argumento da autoridade. O procedimento correto seria demonstrar que Kant estava errado, o que demonstraria a autoridade do texto bíblico. Mas não existe, de fato, a tal contradição entre Kant e Paulo.
Primeiramente, é preciso observar o contexto de cada autor. O problema enfrentado por Kant era o de restituir, em sua epistemologia, às ciências a credibilidade. Como o próprio Sproul mostra, ainda que fragmentariamente (pelo menos no capítulo), D. Hume, um proponente do Empirismo, havia dedicado muito esforço a demonstrar que é impossível provar algo a priori, e isto inclui o próprio Deus. Como para Hume todo conhecimento procede da experiência, todos os argumentos para à existência de Deus (ontológico, cosmológico, teleológico etc.) são automaticamente falsos. Hume nega a certeza das leis naturais, e assim os argumentos cosmológicos e teleológicos perdem o sentido. Kant, ao negar tais argumentos para a existência de Deus, está reconhecendo acertos de Hume, mas ao mesmo tempo combatendo a filosofia deste: Kant tentou, através de sua obra, conciliar o ceticismo de Hume com as descobertas do racionalismo. Deste modo, tornou-se natural a conclusão de Kant: é impossível ter um conhecimento direto do mundo em si, mas apenas do mundo como se nos parece. Deste modo, seria impossível saber que Deus realmente existe; seria necessário acreditar que Ele exista, como mostra Kant no prólogo de sua Crítica da Razão Prática. Kant, como nos diz Sproul, diferencia entre o mundo numenal, o mundo em si, objetivo, e o mundo fenomenal, como se nos parece (p. 80).
Deste modo, se Kant nega ser possível provar a existência de Deus, por não termos acesso ao mundo numenal, entrará em contradição com Paulo, quando este escreve que os gentios eram inescusáveis porque sabiam, pela natureza, a existência e os atributos de Deus? Paulo não escreveu, mesmo que resumidamente, um tratado de Teologia Natural. Ele não tenta provar a existência de Deus; o que Paulo tenta, no texto, é provar que essa existência já era conhecida dos gentios, e para isso afirma que o mundo manifesta os atributos de Deus. Não há meios de concluir, a partir do texto de Paulo, que seja possível provar a existência de Deus, porque de fato Paulo não vivia na época de Kant: escreveu em uma época em que havia o criticismo kantiano (e, antes dele, o ceticismo humeano), ou d’outro modo não teria escrito o que escreveu (a menos, é claro, que ele pudesse demonstrar o contrário), porque neste caso não necessitaria provar que os gentios conheceram a Deus, porque de fato não o haveriam conhecido (exatamente por conta da crítica).
Para boa parte dos leitores de Paulo, é absolutamente simples que se conclua que Deus existe a partir do mundo fenomenal. Aliás, é exatamente esta a linguagem empregada por Paulo: que Deus manifesta. Trata-se do que Kant chama de mundo fenomenal, e não numenal.

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