01/05/08

Hipótese Documental

Texto Base:
Falou mais Deus a Moisés, e disse-lhe: Eu sou Iavé. Eu apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, como El Shadday; mas pelo meu nome, Iavé, não lhes fui conhecido.(Êxodo 6:2,3)

O propósito deste ensaio, como se vê por seu título, é demonstrar a base da Hipótese Documental. Primeiramente, deixo claro que essa é uma teoria científica; não é um dogma religioso, nem uma verdade de fé. Sendo assim, está sujeita a críticas e modificações. Diversos expositores da Hipótese têm idéias próprias, e podem chegar a discordar entre si em diversos pontos. Em outros pontos, contudo, concordam unanimemente. Consequentemente, está sujeita a desenvolvimento, conforme novos argumentos se acrescentam e velhos argumentos mostram-se imperfeitos. Fique claro que a Hipótese busca uma explicação racional da realidade das Escrituras, e não simplesmente agrupar suposições.

A Hipótese, contudo, tem um peso forte sobre o Judaísmo e o Cristianismo. Questões como, por exemplo, as citações do Pentateuco feitas por autores do Novo Testameto, devem ser consideradas conforme o contexto histórico e social da Igreja dos primeiros séculos. A Hipótese Documental, portanto, desconsidera completamente a inerrância das Escrituras; não se nega o valor espiritual e a inspiração das Escrituras, mas que estas sejam completamente inerrantes. Em outros pontos, por exemplo, a Hipótese até corrobora com a doutrina do Cristianismo (Romanos 8:3; Hebreus 7:16), embora pareça uma tendência marcionista, ou mesmo anti-semita. Em muitos pontos, contudo, a Hipótese é uma pedra no papato, como no caso dos dogmas legalistas pregados por muitas denominações da atualidade.

Antes, porém, de apresentarmos a Hipótese em si, é preciso lançar seus fundamentos, sobre os quais a Hipótese será construída. Sendo assim, não são suposições, mas conclusões tiradas à partir das Escrituras do Velho Testamento. A doutrina do Novo Testamento per se é completamente desconsiderada neste ensaio, uma vez que é posterior. O Antigo Testamento diz respeito à religião judaica, não ao Evangelho (Romanos 7:1-4)! Harmonização doutrinária entre o Evangelho e a Hipótese Documental (lembrando que esta última não é dogma religioso) é um assunto para outro ensaio.

Pessoalmente: Não creio inteiramente na Hipótese Documental. É um ótimo método-sistema; explica muito bem a relação, por exemplo, entre Samuel, Reis e Crônicas. Mas também é um pouco simplista em alguns pontos, especialmente por tratar as fontes como manuscritos; creio que a formação do Hexateuco foi muito mais lenta e passou por muito mais revisões, até formar o atual texto, coerente e harmônico em muitos pontos, mas ainda cheio de discrepâncias. Esse é o problema em discorrer sobre um tempo desconhecido, um contexto desconhecido e pessoas desconhecidas; não creio que a arqueologia vá, algum dia, confirmar a Hipótese Documental inteiramente, mas tenho sim a experança de que ela conforme o efeito tremendo causado na religião judaica pelo Exílio.

Será adotado, para o conjunto dos seis primeiros livros do Antigo Testamento (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué), o termo 'Hexateuco', levando em conta o acrescimo de 'Josué' à Torá em Josué 24:26.

Além disso, a seguinte terminologia será empregada para as secções da Lei de Moisés:
Decálogo Ético: Êxodo 20:1-17 (também Deuteronômio 5:6-21).
Livro do Concerto: Êxodo caps. 21, 22 e 23. Leis altamente casuísticas e de caráter jurídico (processual-penal); perceba-se que diversos crimes recebem punições diferentes em outras áreas da Lei. (Nome deriva de Êxodo 24:7)
Decálogo Ritual: Êxodo 34.
Código Deuteronômico (Deuteronomic Code): Deuteronômio, caps. 12 a 26. São leis com um caráter mais social e congregacional. O código em si é mais avançado que o Livro do Concerto; não é simplesmente um conjunto de diversas leis-mandamentos justapostos: trata-se de um método-modelo de integração de toda a congregação judaica. Seu ponto principal a ser considerado é a unificação do culto (capítulo 12). Seus crimes tem, de modo geral, uma única punição: a morte (17:2-7; cf. Hebreus 10:28).
Lei Sacerdotal (Priestly Code): Todos os demais mandamentos, mas em especial os dos livros de Levítico e Números. No geral, regem a ordem no Templo e no Tabernáculo, os sacrifícios, ofertas e holocaustos, e a vida dos sacerdotes, lhes concedendo certos direitos e sustento. A secção dos capítulos 17 a 26 de Levítico é chamada 'Lei da Santidade', e parece ser anterior ao texto de Levítico.

Texto Massorético = TM
Septuaginta = LXX




I – Datando o Antigo Testamento
(ou De como eu resolvi começar pela parte mais chata)


Datar alguns livros do Antigo Testamento é importantíssimo para a crítica textual do Hexateuco, uma vez que esses livros carregam (ou não) o testemunho não apenas da época acerca da qual falam, mas PRINCIPALMENTE acerca da época em que foram escritos. Um livro escrito em 100 a.C. não pode prestar um testemunho válido acerca do Hexateuco; a imparcialidade estaria em jogo. Semelhantemente, um livro escrito em uma época anterior ao Hexateuco também não pode testemunhar. Esse é o ponto, como veremos ao longo deste ensaio.

É evidente que alguns livros podem sofrer adulterações posteriores no intuito de: a) harmonizar as discrepâncias; b) defender uma idéia mais recente. Um exemplo para os cristãos: o Evangelho conforme Lucas do cânon de Marcion. Este Evangelho é uma versão do Evangelho conforme Lucas da qual foram removidos os antecedentes judaicos de Jesus; a idéia de Márcion era defender um credo contrário às idéias judaicas. Portanto, mesmo livros velhos podem carregar informações incorretas (adultérios, interpolações, deleções, conflações, etc...), mas ainda assim carregam bom testemunho se considerados em seu todo e ao lado de outros livros da mesma época, ou em contraste com livros de épocas diferentes. Vale salientar que deleções são sempre o método mais razoável e menos arriscado de adulterar o texto original; é muito mais simples apagar um versículo incômodo que adicionar uma perícope desejada.

Os livros a serem considerados, neste ponto, são Juízes; I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras-Neemias e Ezequiel. Todos esses livros são importantíssimos na crítica textual da Lei de Moisés. Suas datações serão fundamentais quando considerarmos a Parte IV – Testemunhos dos Livros Históricos e Ezequiel.

Juízes: Datar este livro é muito complicado. Se o leitor observar atentamente, este livro tem duas introduções (1:1-2:5 vs 2:6-3:7), o que nos leva a pensar que o livro é a união de duas obras distintas, ou que o core (parte principal, o esqueleto do livro) sofreu adições; a primeira introdução parece ser um resumo do livro de Josué. Provavelmente uma das duas obras foi escrita durante a monarquia (17:6; 18:1; 19:1; 21:25), ou seja, depois de ter terminado o período dos Juízes; depois da expulsão dos Jebuseus (1:21; cf. 2 Samuel 5:6), ou antes da expulsão dos Jebuseus (1:8). Parace também ter sido escrito bem depois da queda de Samaria, ou seja, a queda do Reino do Norte (722 a.C.; 18:30). O autor de Juízes parece ter copiado o autor de Josué, ou vice-versa, ou mesmo ambos copiaram da mesma fonte no que tange a morte de Josué (2:6-9; Josué 24:29-31) e a questão de Otniel (1:11-15; Josué 15:15-19).

Além disso, os capítulos finais (17 a 21) são um apêndice que não trata dos juízes em si.

I e II Samuel: Evidentemente escrito após a morte de Davi, e provavelmente bem depois (1 Samuel 9:9). Analisando 1 Samuel 27:6, fica evidente que foi escrito após a divisão dos reinos (Norte e Sul; 931 a.C.), mas provavelmente antes do exílio babilônico (587 a.C.). Isto não significa, porém, que o livro não tenha sofrido modificações posteriores em certos detalhes.

I e II Reis: Pelo último capítulo de II Reis fica demonstrado que esta obra foi escrita após o começo do exílio (587 a.C), e após o início do reinado de Amel-Marduk (2 Reis 25:27; 562 a.C.). Aparentemente não há motivos para crer que este livro tenha sido escrito após o fim do Exílio (537 a.C.); conforme se observa nos Salmos exílicos e em diversos pontos proféticos, a esperança da libertação era muito grande; muito provavelmente o evento da libertação estaria estampado em 2 Reis da mesma forma que está em 2 Crônicas e Esdras. Note-se também que há semelhança incrível entre 2 Reis 24:18-20; 25:ff e o último capítulo do livro do profeta Jeremias.

I e II Crônicas: Escritos, com certeza, após o Exílio Babilônico, como se mostra pelos versículos finais (2 Crônicas 36:22,23). Se as genealogias da primeira parte de 1 Crônicas realmente fazem parte do trabalho original, então o livro foi escrito muito após o Exílio Babilônico (este finda em 537 a.C.), uma vez que mostra a descendência de Zorobabel (1 Crônicas 3:19-ss). Existe também a possibilidade de que os dois livros de Crônicas, Esdras e Neemias, fizessem parte de uma só obra. Teoricamente, esta obra teria sido dividida ao meio, levando o final de Crônicas a ficar incompleto, mas tendo sido reescrito em Esdras o que naquele sobrou (compare 2 Crônicas 36:22,23 a Esdras 1:1-4). Se for verdade, então Crônicas não pode ser mais antigo que Esdras-Neemias.
De todo modo, a questão da genealogia me parece ter a palavra final, evidenciando que este livro, da forma como se nos apresenta hoje, foi escrito por volta do século IV a.C. (537 a.C., menos 120-180 anos das genealogias). O escritor das Crônicas será chamado, daqui em diante, Cronista.

Esdras-Neemias: Originalmente um único livro, embora contenha relatos diferentes. Pela data retratada nos livros, só pode ter sido escrito a partir do século V a.C, provavelmente século IV a.C., o que coloca Crônicas e Esdras-Neemias na mesma época, evidenciando a teoria sobre a unidade na obra (embora o livro hipotético Crônicas-Esdras-Neemias provavelmente seja uma compilação).

Ezequiel: Não parecem haver métodos seguros para datar o livro, mas tanto sua história quanto sua mensagem têm significado no contexto do Exílio. Há uma forte unidade no estilo, evidenciando que possivelmente toda a obra tenha realmente sido escrita por Ezequiel ou um possível discípulo (não antes de 571 a.C., conforme Ez 29:17).



II – Autoria Não-Mosaica: Evidências Externas
(ou De como os profetas denunciam os sacerdotes)

Analizemos agora o que dizem alguns livros proféticos acerca do Hexateuco. Fique claro, a princípio, o papel do profetismo no Israel antigo. Os profetas (nabiy) não eram simplesmente videntes, sábios ou membros de uma ordem clerical. Eles eram pessoas comuns dentre a sociedade, que recebiam um chamado de Deus para corrigir o povo. Uma leitura do livro de Jeremias mostra perfeitamente este caráter; o profeta não necessariamente era um douto, sacerdote ou nobre. Sua vocação ministerial desconsidera seus antecedentes. O profeta é chamado, acima de tudo, para pregar, seja pela ameaça (como os Pesos contra as Nações, em Jeremias, Isaías, Ezequiel), seja pela promessa, muitas vezes messiânica.

Não está em jogo, aqui, determinar se o profeta era ou não inspirado pelo Espírito de Deus, mas sim demonstrar seu caráter: o mártir-pregador fervoroso em favor da ortodoxia da religião judaica, no melhor estilo Elias e Eliseu. Este caráter fica evidente não só na mensagem de Jeremias, mas especialmente quando observamos como a profecia em si é encarada em Amós 7:14,15: não um vaticínio, mas, como foi dito, uma correção. Os profetas eram, em si, a crítica (antítese) à situação: o clero e a família real.

Sendo assim, o profeta estaria pronto e preparado para corrigir todos os erros doutrinários cometidos em seu tempo. Nos relatos deixados pelo profeta (ou por seus discípulos), traços da pregação original do profeta, contra os erros contemporâneos, nos ajudam na crítica do Hexateuco.

Nunca existiu, é claro, profeta contra a Lei de Moisés; tais profetas, se existiram, não poderiam ter perpetuado seus escritos, umas vez que a Bíblia hebraica, através de Esdras e dos escribas, foi mantida pelo partido favorável ao Templo e o sacerdócio. Um suposto grupo de profetas contrários à religião estabelecida seriam caçados e teriam seus escritos (caso existam) queimados. Um ponto importantíssimo aqui é o Exílio Babilônico: escritos proféticos que antes dele seriam taxados como, digamos, 'heréticos', após ele poderiam ser reconhecidos como canônicos, se fossem mantidos nas mãos da elite sacerdotal letrada, uma vez que não mais os profetas escritores teriam reconhecimento, por já estarem mortos. Antes do Exílio, a mensagem de Jeremias era repudiada; depois, contudo, sua mensagem recebeu valor, no sentido de mostrar o cumprimento das profecias de Levítico e Deuteronômio contra a idolatria do povo. É muito mais facil aceitar uma mensagem DEPOIS que ela se cumpre, ou seja, se mostra verdadeira.

Sim, não existiu profeta contra a Lei de Moisés. Nem tudo, porém, que os sacerdotes defendiam como sendo Lei de Moisés era aceito pelos profetas.

As religiões do oriente próximo tinham muitas semelhanças, o que evidenciavam: a) uma origem comum; ou b) sincretismo religioso. Os sacerdotes judaicos, como seres humanos, poderiam realizar inovações no culto, tornando-o mais formal. Inovações não apenas no sentido de mudar as formas de adoração, mas também de se beneficiarem. Características dos cultos mesopotâmicos, siríacos, canaaneus e egípicios poderiam ser assimiladas pelos sacerdotes, tanto ao longo da formação do povo judaico quanto nas relações entre os povos. O processo passado pela “Igreja Judaica” (i.e., a congregação e o sacerdócio do Templo) foi a mesma vivida pela Igreja Católica: formalização do culto e assimilação de características pagãs. Aqui papel fundamental, não apenas por aproximar o povo judaico do culto mesopotâmico, mas também por fazer com que as novas gerações não tivessem contato com o culto anterior, pré-exílico (Ageu 2:3). São 50 anos longe da própria terra, vivendo em uma terra idólatra estrangeira; tentativas de manter as tradições poderiam ter sido realizadas por fanáticos, e por sacerdotes com interesses próprios, uma vez que o sacerdote judaico depende do culto.

Perceba: Neste ponto, considerar o texto/manuscrito (LXX, TM, Mar Morto) a ser usado é fundamental. Passagens como Jeremias 33:14-26, que defende o culto judaico, simplesmente inexistem na LXX, que é mais antiga que o TM (sendo este medieval), e que em diversos pontos concorda com os escritos do Mar Morto (embora estes últimos sejam dos sectários Essênios).

Analise, agora, detalhadamente, cada uma destas passagens: Isaías 1:11-15; 5:24; 24:5; 58:3-7; 66:1-3; Jeremias 6:19,20; 7:21-23; 18:18; Oséias 2:11; 4:6-10,19 (compare este capítulo a Jr 22:16); 6:6; 8:1,12,13; 9:4,5; 14:2; Amós 5:21-27; Miquéias 6:6-8,16.

Nestas passagens existe uma forte crítica à forma de culto judaica (ou melhor, originalmente não-judaica).

O sacrifício de animais sempre fez parte, na história da humanidade, da adoração. Apenas formas mais modernas ou exóticas aboliram esta prática. O sacrifício de animais não está diretamente associado à expiação de pecados, mas sim na adoração expontânea, buscando de determinada divindade (no caso dos judeus, Iavé Deus) o seu favor, a sua atenção.

Nota: Cabe aqui diferenciar sacrifício (korban) e holocausto (olah). O sacrifício é uma espécie de ceia em que parte do alimento é oferecido a Deus, retirando o sangue e oferecendo a gordura. O resto é comido pelos que oferecem o sacrifício, tendo a participação do sacerdote. Já o holocausto é uma versão em que há dedicação completa a Deus, jogada no fogo; o sacrificante não come do alimento. O Código Deuteronômico estabelece que os sacrifícios só podem ser realizados no lugar escolhido por Deus (Dt 12); todas as outras 'casas de sacrifício' (ilegais) são chamadas “altos” (bamoth), e foram rejeitadas pelos profetas. O Código Sacerdotal presume a existência da unidade de culto.

E, desta forma, genericamente e pela evolução do culto, a expiação de pecados surge como uma forma de buscar a atenção de uma divindade que, segundo os sacerdotes, está zangada. Irada com seu povo, e sem vontade de atender a simples orações. Veja que as passagens bíblicas sitadas são, em sua maioria, pré-exílicas, cada uma refletindo a perspectiva de sua época: Isaías é contra. Jeremias, Oséias e Miquéias não são contra, mas deixam claro que o culto não é o sacrifício de animais. Portanto, se os profetas são contra certa forma de adoração, isto significa que o culto estabelecido está sofrendo inovações. Independe de os profetas serem inspirados ou não; eles apenas estão agindo como testemunhas de seu tempo, e colocando o nome do Senhor onde o nome do Senhor realmente deve ser colocado: contra a falsidade e 'heresia'.

Existem, evidentemente, passagens nos profetas em que eles se mostram favoraveis aos sacrifícios. Um destes profetas é Ezequiel, contemporâneo de Jeremias, além dos profetas pós-exílicos de modo geral. Os últimos 9 capítulos de Ezequiel tratam justamente do culto; falaremos mais acerca deste assunto na parte IV - Testemunho dos Livros Históricos e Ezquiel. De todo modo, os profetas citados servem de evidência de que, em seu tempo, certas formas estão sendo inseridas no culto. Por conseguinte, estas formas não se encontram na Lei de Moisés. Veja que Lei de Moisés não significa necessariamente certos livros da bíblia, mas a Lei que vigorava no tempo desses profetas, atribuida a Moisés. Propor origem divina/heróica às leis sempre foi uma forma de outorgá-las: assim como foi com Licurgo em Esparta, também foi com Hamurábi entre entre os babilônicos. Princípio semelhante foi usado pelo teórico absolutista Jacques Bossuet para justificar o direito do monarca.

Perceba: Há muitas semelhanças entre a Lei de Moisés e os códigos mesopotâmicos, em especial o de Hamurábi. Ambas obras são atribuidas a legisladores apontados por Deus, e escritas em tábuas de pedra. Existem muitas semelhanças entre o Livro do Concerto e as leis do código de Hamurábi, especialmente por serem casuísticas. O código de Hamurábi, contudo, é muito mais antigo



III – Autoria Não-Mosaica: Evidências Internas
(ou De como o Hexateuco deixa claro que foi escrito enquanto o povo já estava na terra de Canaã, durante ou depois da monarquia)

A Hipótese Documental lida justamente com a autoria do Hexateuco. Não existe, do começo ao fim do Hexateuco, qualquer prova de que a autoria seja mosaica. Pelo contrário, existem evidências fortes de o Pentateuco ter sido escrito séculos DEPOIS da morte de Moisés. Atribuir a autoria a Moisés é uma tradição judaica mantida pelo cristianismo; o texto em si não clama a autoria de Moisés. Existem, é verdade, certas passagens em que Moisés mostra-se escritor (Ex 24:4; Nm 33:2; Dt 31:9,22); mas isto não prova que Moisés realmente escreveu os livros que temos em nossas mãos.

A evidência mais conhecida é a do último capítulo de Deuteronômio, em que fica provado a obra (ao menos este capítulo) não ser de autoria mosaica. Ao contrário do que podem querer teorias harmonizantes, este capítulo não poderia ter sido “profeticamente” escrito, porque o texto trata claramente a morte de Moisés como um evento de um passado um tanto distante (Deuteronômio 34:6,10-12).

Uma das mais fortes (e conhecidas) evidências (já identificadas pelos rabinos judaicos) se encontra, ao mesmo tempo, em Gn 12:6 e 36:31, em que eventos que, pela perspectiva de Moisés, são futuros, mas estão relatados como passados. Moisés não falaria de “reis de Israel” no passado se estivesse escrevendo sobre o futuro; tampouco falaria dos canaaneus como habitantes passados da terra se em seu presente eles ainda estivessem lá, e só no futuro viesse a ocupação da terra.

Ver também Êxodo 16:35, que não é outra coisa, senão uma retrospectiva, assim como Números 15:32 só pode ter sido escrito quanto o povo não mais estava no deserto. Ver Gênesis 32:32. Semelhantemente no cântico de Êxodo 15, algumas partes estão na perspectiva de judeus vivendo na terra de Canaã.

Gênesis 14:14 só pode ter sido escrito após Dã tomar sua herança, ou mesmo após boa parte do período dos Juízes (Jz 18:29), a menos que seja uma “atualização escribal”, o que simplesmente provaria que a Bíblia é alterável. Aliás, o caso de Dã é uma contradição bíblica: compare Josué 19:40-ss a Juízes 18:1; independente de qual destas duas passagens seja mais histórica (aparentemente a de 'Juízes'), o termo Dã em Gênesis só pode ter sido escrito após (não antes) o evento de Josué. Possivelmente também Gênesis 23:2, pelo mesmo motivo, deve ter sido escrito após o evento de Josué 14:14,15.

Números 21:14 cita uma fonte; ora, como pode Números ter sido escrito por Moisés se já havia, àquele tempo, um livro que falasse acerca do mesmo assunto? Se o livro das Guerras do Senhor, hoje desaparecido, foi escrito por Moisés (cf. Ex 17), então Números não foi. Se este livro não foi escrito por Moisés, tampouco Números foi; à épooa em que Números foi escrito, o livro perdido já deveria estar popularizado, ou ao menos conhecido entre a casta sacerdotal. Pelo nome, parecem ser anais de guerra, talvez uma fonte que relate as guerras nais quais o Senhor teria ajudado o povo de Israel (guerras contra os cananeus).

É interessante notar como em Êxodo 11:3 e Números 12:3, fala-se muito bem acerca de Moisés. Teria Moisés se exaltado ao ponto de pensar ser o homem mais manso da face da Terra?

Há também inconsistências internas que evidenciam mais de um autor, ou redação gradual:

Compare:
- Êxodo 16:31 a Números 11:8
- Êxodo 18:17,24 a Deuteronômio 1:9-18 e a Números 11:16
- Êxodo 34:17-26 a Exodo 23
- Levítico 18 a Levítico 20
- Números 20:1,22-28 a Números 33:38
- Deuteronômio 3:14 a Juízes 10:3,4
- Deuteronômio 9:1 a Josué 1:1,2

Compare Êxodo 20:11; 31:17 a Deuteronômio 5:15. São expostos dois diferentes motivos para a guarda do sétimo dia. Em Êxodo, o motivo da guarda é lembrar que a criação foi de seis dias, e ao sétimo Deus descansou. Já em Deuteronômio, o motivo da guarda é lembrar a libertação da casa da escravidão, descansando em um dia em que eles deveriam estar na escravidão. Na antiguidade, os judeus não eram os únicos a guardarem o sétimo dia; também os assírios guardavam o sétimo dia, mesmo não conhecendo a Lei. Essas passagens, evidentemente, são de autores diferentes.

Deste modo, além de Moisés não ser o escritor do Hexateuco, existiu mais de um autor.

IV – Testemunho dos Livros Históricos e Ezequiel
(ou De como a Lei foi gradualmente introduzida pelos sacerdotes, antes e depois do Exílio)

Tratemos agora dos outros livros do Antigo Testamento, usando o mesmo método empregado pelos profetas, mas desta vez analisando não a pregação profética, mas sim o estilo e a narrativa. Recomenda-se que, antecipadamente, o leitor estude estes livros históricos, percebendo as características de cada um, e a forma como o culto e a Lei são tratados, levando em conta as datações da Parte I.

Juízes – Trata da tomada da terra de Canaã, como um processo lento e tribal, sem haver uma unidade entre os israelitas (unidade esta que só passou a existir com a monarquia); neste sentido, é muito mais histórico que Josué. Cada Juíz mostra autoridade sobre sua tribo (heróis regionais). No corpo do livro (capítulos 3 a 16), as formas de adoração são mais expontâneas. Qualquer um pode sacrificar a Deus em qualquer lugar, e existe uma consciência um tanto henoteísta (11:24). Tendências henoteístas (monolatria inclusiva) estão presentes em muitas partes da bíblia hebraica [Jó 3:8; 26:12,13; 40:15ss; 41; Sl 74:13,14; 82:1; 89:10 (TM); 104:26; Is 27:1; 51:9 (TM); Hc 3:5 (TM)]. É uma religião puramente dinâmica e expontânea, sem formalização. Todo lugar é lugar de adoração e sacrifício (Jz 6:19-21; 13:19).

Não há evidência do Tabernáculo e de uma ordem sacerdotal separada: era possível para um membro da tribo de Judá se tornar levita (17:7). A distinção entre levita e sacerdote é cronologicamente posterior, como será visto. Juízes 17:3-6,10-13; 18:30,31 evidencia a forma livre como a adoração era feita; até mesmo imagens de escultura eram permitidas, algo reprovável por Deuteronômio 16:22.

Porém, nos capítulos 19 a 21 (apêndices), está claramente presente a idéia de unidade de culto (adoração institucionalizada): A Congregação (20:1,2,26), tendo como harmonização os versículos 19:1 e 21:25.

I e II Samuel – Trata do período final dos Juízes e da ascenção monarquia, com ênfase em Davi e sua relação com Saul. Os sacrifícios, assim como em Juízes, podem ser realizados em qualquer lugar e por qualquer um, sem dogmas; o sacerdote não exerce função de “sacrificador”, mas de ministro do Templo. Samuel, mesmo não sendo da tribo de Levi (1 Samuel 1:1), é ministro na Casa de Deus em Siló (1 Samuel 2:18; Jeremias 7:12). Evidentemente não existia, assim como em Juízes, à época em que o livro foi escrito, a idéia de que somente membros da tribo de Levi poderiam ser sacerdotes: em 2 Samuel 8:18, o termo hebreu usado é kohen, traduzido 744 vezes como sacerdote, na Bíblia. Além disso, os pães da proposição os quais não era lícito comer senão só aos sacerdotes são dados para Davi e seus companheiros comerem (1 Samuel 21:1-6; cf. Lucas 6:4), contrariando a Lei (Levítico 22), como se este mandamento ainda não existisse.

I e II Reis – As “crônicas” da Monarquia. Aqui, diferentemente de Juízes e I e II Samuel, já existe formalização do culto, embora não tão profunda quanto a do Código Sacerdotal. O autor é suficientemente sincero para admitir que o povo do período dos Reis sacrificava nos altos (1 Reis 3:2,3; 22:44; 2 Reis 12:3,4; 15:4,35), contrariando Deuteronômio 12, algo que para ele era errado. Ou seja: quando o livro de Reis foi escrito, o Código Deuteronômico estava em vigor, mas na época da qual o livro fala, este mandamento estava sendo ignorado. Além disso (importantíssimo), 2 Reis 14:6, citando Deuteronômio 24:16, evidencia que o Código Deuteronômico já estava em vigor quando o livro de Reis foi escrito.

Outro ponto muito importante é que o autor usa os meses pelos nomes (1 Reis 6:1,37,38; 8:2), como Aviv (Abibe), Ziv (Zife), Eitanin, Bul, como acontece no Código Deuteronômico (Dt 16:1). Os livros escritos após o Exílio babilônico esquecem os nomes judaicos dos meses, chamando os meses pelo número (cf. Es 3:1,6,8; 6:19; 7:8,9; 10:9,16,17; Ne 8:1,2,14,31) ou por nomes siro-babilônios (Ne 1:1; Et 1:1; 3:7; Zc 1:7), justamente porque o calendário judaico anterior ao Exílio não poderia mais estar em vigor, tendo o povo judeu estado sob cativeiro na Babilônia. Algumas partes de I e II Reis, contudo, já começa a enumerar os mêses.

2 Reis relatava um fato que é também muito importante: 2 Reis 22:8-20. Durante a reforma do rei Josias (fim do século VII a.C.), foi achado o livro da Lei, livro este que era desconhecido dos sacerdotes e escribas da época (caso contrário não seria necessário um profeta para identificá-lo, uma vez que todos leram o livro), ou seja, a Lei até então era oral; não haviam mandamentos escritos como os desse livro, que condenassem práticas da época como o sacrifício em bamah (cf. 2 Reis 23). O Código Deuteronômico se encaixa perfeitamente neste contexto; embora a obra dos Reis ignore o Código Sacerdotal, ela foi escrita sob o Código Deuteronômico, e o “livro da Torá” encontrado condena os altos, assim como o Código Deuteronômico (Dt 12).

Veja que desde o período dos Juízes até aquele momento não se havia realizado Páscoa (2 Reis 23:21-23), concordando com o resto das narrativas, exceto Crônicas. Jeremias também evidencia que durante o Exílio o Código Deuteronômico já estava em vigência (Jr 34:13,14; Dt 15).

Ezequiel – Os nove últimos capítulos do livro do profeta Ezequiel propoem uma “Torá” relacionada à organização da adoração do Templo, tendo como cabeça não o sumo-sacerdote, mas o príncipe.

É evidente que a Torá de Ezequiel não está em acordo com o Código Sacerdotal; não exatamente se contradizem, mas só é possível usar UM código de uma vez: ou o de Ezequiel, ou o Sacerdotal (compare, por exemplo, Ezequiel 46:6 a Números 28:11). Isto implica em dizer que até o tempo de Ezequiel não existia um código de leis com vigência sobre a ordem no Templo. É impossível harmonizá-los de forma que o código de Ezequiel seja apenas mandamentos para um “futuro messiânico”; a Torá de Ezequiel deveria ser usada quando o povo retornar para sua terra, por seus contemporâneos (Ez 43:11). Vale salientar que o código presente em Ezequiel, embora não seja harmônico com o Código Sacerdotal, é harmônico com o Código Deuteronômico, sendo que por I e II Reis já foi evidenciada a existência do Código Deuteronômico antes e durante o exílio, ou seja, durante a vida de Ezequiel.

Outro ponto a ser considerado é o lugar de destaque que Ezequiel confere aos sacerdotes de Jerusalém, da linhagem de Zadoque (40:46; 43:19; 44:15), daqui em diante chamados zadoquitas. Leia atentamente Ezequiel 48:11: os outros levitas são considerados igualmente sacerdotes, mas Ezequiel introduz um novo conceito, uma nova idéia: a de que a partir de então somente os zadoquitas (ques são descendentes de Arão) podem ser sacerdotes; os sacerdotes de OUTROS TEMPLOS, ou seja, dos bamoth (sing. bamah), que não obedecem Deuteronômio 12, são considerados a partir daí simples levitas, não mais sacerdotes, como eram no período dos Juízes. Ezequiel ainda usa a fórmula presente no Código Deuteronômico (Dt 17:9,18; 18:1; 24:8; 27:9; Js 3:3; 8:33; Jr 33:18): “sacerdotes levitas”, nunca “sacerdotes e levitas” (esta segunda fórmula superabunda em Crônicas).

Desta forma, os ex-sacerdotes, agora simples levitas sujeitos aos sacerdotes de Jerusalém, passam a sobreviver de alguns direitos concedidos pela Lei, conforme será explicado mais adiante. Perceba: o próprio Ezequiel era um sacerdote.

I e II Crônicas – Releitura de I e II Samuel e I e II Reis. O culto é o foco desta obra; o povo de Israel, ao contrário de Samuel e Reis, vive completamente em torno da Lei de Moisés e age como um só corpo (para o bem ou para o mal). Em todos os pontos nos quais este livro contradiz, modifica, acrescenta ou remove algo de I e II Samuel ou I e II Reis é no intuito de: a) exaltar a monarquia de Judá em detrimento da de Samaria; b) harmonizar os eventos com os mandamentos da Lei de Moisés; c) forjar direito divino e respaldo “histórico” para os sacerdotes zadoquitas.

Para isso, são removidas histórias que dão pouca glória aos reis, como o sangrento caso de Davi com Bateseba, e a não menos sangrenta e puramente histórica ascenção de Salomão (não necessariamente verdadeira, mas aparenta ser muito real), forçando uma unção de Davi a Salomão antes de sua morte. Davi chega até mesmo a realizar uma grande preparação para o Templo, associando os sacerdotes de Jereusalém à cabeça da família real, uma vez que colocar o próprio Davi como contrutor do Templo seria uma harmonização inaceitável. Em I e II Samuel e I e II Reis, vemos os sacerdotes sujeitos ao monarca; em Crônicas, os sacerdotes são sujeitos apenas ao seu próprio rei, o sumo-sacerdote.

Outro ponto interessante é como a festa dos Tabernáculos, que em 2 Reis 8:65,66 está de acordo com o Código Deuteronômico (Dt 16:13-15), aqui (2 Cr 7:8-10) é realizada como no Código Sacerdotal (Lv 23:33-36).

São tantos pontos que é recomendável ao leitor realizar um estudo comparativo profundo, buscando todas as diferenças: a explicação geralmente será de que em Crônicas a nova versão da história é muito mais vantajosa à elite sacerdotal e à linhagem davídica, de um modo ou de outro, removendo (ou separando) o secular e exaltando o heróico. Listas de 'contradições' preparadas por céticos e ateus são úteis neste intuito, mas geralmente só cobrem as contradições mais simples e básicas, ignorando contradições com grande peso contextual.

Esdras-Neemias: Assim como nas Crônicas, o povo vive em torno do Templo e da Lei, do mesmo modo que vemos nos profetas pós-exílicos (Ag 2:1-9; Zc 6:9-15; 14:16ss; Ml 2:4-7; 4:4). Apresentam, sob o Templo de Zorobabel, a Lei sendo outorgada por Esdras (cf. Neemias caps. 8, 9 e 10). É interessante perceber que o capítulo 10 de Neemias concorda muito bem com o Código Sacerdotal, com exceção de um ponto: o versículo 32 (cf. Ex 30:15), mostrando que os sacerdotes, por seu próprio interesse, elevaram uma taxa já estabelecida quando Neemias foi escrito (de 1/3 para ½). Além deste ponto, existe um outro detalhe acerca do qual trataremos na parte VI – Evolução da Lei. 8:17 evidencia que a festa dos Tabernáculos (da qual tratamos nas Crônicas) não estava sendo corretamente guardada.

Consideremos agora todos os pontos apresentados.
- Os livros escritos antes do Exílio desconhecem a Torá que temos em nossas Bíblias;
- Os livros escritos durante o Exílio conhecem parte da Torá que temos em nossas Bíblias;
- Os livros escritos depois do Exílio conhecem a Torá.

Está clara e evidente a evolução da religião judaica na antigüidade. Esta religião passou por um lento processo de formalização, acelerado pelo Exílio babilônico. Durante o Exílio, para manter as tradições (e, assim, a unidade judaica em meio ao paganismo), houve a normatização do culto, mas que só entrou em pleno vigor com a reconstução do Templo.

Ezequiel é a ponte entre o Código Deuteronômico (daqui em diante chamado D), já conhecido, embora paralisado pelo cativeiro, e o que viria depois: o Código Sacerdotal (daqui em diante chamado P). As revisões eram realizadas por sacerdotes-escribas.

Nota: O Código Deuteronômico e D não são exatamente a mesma coisa. O Código Deuteronômico é apenas um conjunto de leis; D é este conjunto somado à narrativa que o cerca no livro de Deuteronômio (e possivelmente Josué e outros livros).



V – A Natureza Tripla de Gênesis e da narrativa do Hexateuco
(ou De como aquelas contradições são naturais)

O livro de Gênesis apresenta diversas repetições; são as mesmas histórias sendo contadas de duas ou três formas diferentes. Qualquer um que já leu este livro pode ter percebido a semelhança, por exemplo, entre as três histórias d'a esposa confundida com irmã, que ocorrem duas vezes com Abraão (Gn 12:10-20; 20:1-8) e uma vez com Isaque (Gn 26:6-11), sendo duas destas histórias acontecidas em Gerar, com o rei filisteu Abimeleque. Não é incomum vermos histórias serem contadas de modos diferentes e com características diferentes quando as ouvimos em lugares diferentes; se o modo como cada história é contado for escrito em um lugar diferente, e essas narrativas eventualmente fossem unidas por um 'historiador' que não citasse suas fontes e não quisesse determinar a mais histórica, as três seriam colocadas lado a lado como 'coincidências'. Não é muito diferente disso que aparentemente as três histórias presentes em Gênesis vieram a unir-se.

Mais exemplos:
- Gn 21:31 vs Gn 26:33
- Gn 6:5-8 vs 6:11-13.

Em todas essas passagens existe um padrão: os nomes de Deus. Não é segredo que em Gênesis porções inteiras (como o primeiro capítulo, até Gn 2:3) usem para Deus o nome El ou Elohim, enquanto outras (a partir de Gn 2:3) usem o tetragrama YHWH (Iavé).

O chamado de Abraão é feito em Gn 12, e até o capítulo 16 (com exceção da perícope de Melquisedeque) usa-se o nome YHWH. Já no capítulo 17, o nome usado para Deus é Elohim (Deus). Embora o termo El Shaddai (traduzido como “Deus Todo-poderoso”) apareça no TM, este capítulo apresenta o nome Deus (ThEOS) em seu lugar na LXX (“Eu sou teu Deus”; EGW EIMI hO ThEOS SOY), que é mais antiga, ou seja, entre os capítulos 16 e 18 está novamente relatado o chamado de Abraão, mas desta vez usando um nome diferente para Deus. Também Genesis 21:5-34 predominantemente chama Deus como Elohim, não YHWH (veja que Gn 21:1-4 é outra versão da mesma história, usando YHWH, e não Elohim como nome). Porções da história de José favorecem o nome Elohim. Ora, as passagens do princípio de Gênesis (os primeiros três capítulos) são na realidade duas diferentes histórias da Criação, uma mais simples (o Hino da Criação), cronologicamente distintas no que tange à ordem em que cada coisa foi criada.

Neste sentido, Êxodo 6:2,3, em especial a versão encontrada na LXX, é um divisor de águas. Quando, em Gênesis 17:1 (LXX), Deus diz “Eu sou teu Deus”, é a isso que Êxodo 6:2,3 se refere quando diz que diz se apresentou aos patriarcas como “Deus deles”; conferir também Gn 35:11 na LXX.

Essas passagens que apresentam nomes diferentes para Deus também têm características diferentes. Segue um sumário dessas cacterísticas:

Favorecem o nome ELOHIM:
- Deus aparece em sonhos ou envia anjos, e é superior e inatingível.
- Moralidade (Abraão não mentiu, apenas falou uma 'meia-verdade').
- Temor a Deus.
- Deus se arrepende.
- Patriarcas são profetas.
- Concerto Mosaico.
- Favorece Israel (Reino do Norte) e os sacerdotes de Siló. Provavelmente escrito durante o Reino do Norte: 922 a.C. a 722 a.C.
- Vocabulário: “Horebe”; “amorreus”.

Favorecem o nome YHWH:
- Deus manifesta-se.
- Promessas e ameaças.
- O monte de Deus se chama Sinai.
- Concerto Abraâmico.
- Favorece Judá (Reino do Sul) e os sacerdotes de Jerusalém.
- Vocabulário: “Sinai”; “Conhecer” (sexo); “achar graça”; “cananeus”; “Reuel/Hobabe”; “Israel” (em vez de Jacó); “Edom”.

A partir de agora grupo que favorece o nome YHWH serão chamadas J (do inglês Jehovist, ou “Javísta”), o grupo que usa o nome ELOHIM será chamado E (do inglês Elohist, ou “Eloísta”). Contudo, não são apenas duas as fontes usadas na composição de Gênesis. Como foi mostrado na história repetida com Abraão (2) e Isaque (1), existêm ao menos três fontes distintas na narrativa de Gênesis. A terceira fonte, que usa ambos os nomes, tem características próprias. Esta fonte é a narração do já falado Código Sacerdotal, a partir de agora chamado P (do inglês Priestly Code).

Características de P:
- Deus é visto como punitivo, e não mostra misericórdia gratuita.
- Bênçãos hereditárias.
- Usa diversos nomes para Deus, variando conforme a época, mas em especial 'Deus Todo-poderoso' no TM (equivalente a “teu Deus” ou “Deus deles [Abraão, Isaque, Jacó]” na LXX).
- Genealogias.
- Sacerdotes. Estes são colocados como sendo o único caminho para Deus (cf. Nm 16:46-49).
- Circuncisão.
- Eventos religiosos e culto.
- A 'presença' de Deus habita em determinados lugares, como a terra de Canaã como um todo ou especificamente a Casa de Deus (Gn 4:6; 46:4; Ex 15:17; compare a Jonas 1:1-10 e Oséias 9:3-5;15).
- Meses chamados pelos números.
- Concede aos antigos características da lei judaica (ex: Gn 32:32).
- Associa o sacerdócio a Arão. Somente os levitas descendentes de Arão poderiam ser sacerdotes.
- Vocabulário: “Frutificai e multiplicai-vos”; “gerações”; “até o dia de hoje”; “estabelecer concerto”, “Eu sou o Senhor vosso Deus”, “santidade”; “congregação”.

Aliás, o vocábulo “congregação” (EDAH pelo TM; EKKLESIA na LXX) é fundamental, uma vez que o Exílio jogou o povo de Israel no meio dos pagãos. Aqueles que buscaram ser fiéias ao ideal nacionalista evidentemente buscaram manter unidade mesmo em terra estrangeira, por meio de costumes e até mesmo aparência distintas. A 'congregação', portanto, é um fenômeno sociológico impresso em P. Efetivamente P geralmente impõe regras não para o indivíduo, mas para o povo. Mesmo os mandamentos com relação a barba e cabelo visam uma unidade. Há muito pouco espaço para individualismo.

P, por ter sido escrito posteriormente, usa diversos nomes para Deus (Elohim em Gênesis 1:1-2:3; El Shaddai ao longo dos patriarcas; YHWH quando revela seu nome em Êxodo 6:2,3). Perceba-se que essas fontes não incluem apenas Gênesis. De Êxodo a Números essas três fontes são usadas. Deuteronômio é praticamente isolado deste todo.

Sendo assim, a narrativa dos quatro primeiros livros da Bíblia é tripla; em alguns pontos, como a subida ao Horebe/Sinai e o Dilúvio, duas narrativas se misturam e se confundem. Leve-se em conta que o redator do texto não simplesmente copiou justapondo as narrativas; ele revisou o texto em si. Em algum momento da história (provavelmente após a queda de Samaria, 722 a.C., quando os fugitivos de Israel vieram a Judá) J e E vieram a se fundir, formando o JE (Javístico). Partes das narrativas originais se perderam entre correções, redações ou imprevistos. Fazem parte de JE, por exemplo, os Decálogos e o Livro do Concerto. Como foi visto anteriormente, o P só foi introduzido ao Hexateuco após (ou ao longo) o Exílio Babilônico. Nesse período já vigorava D. Veja que, ao contrário de P, que se mistura e confunde com JE, D é praticamente isolado.

Temas comuns em D:
- Na narrativa: “portas” (= cidade), “braço estendido” (+ “grandes espantos”), “casa da servidão”. O texto é desfavorável a Arão e ao sacerdócio aarônico, se comparado ao que é apresentado em JE.
- Na legislação: “portas” (= cidade).

Após todas as fontes serem unidade (primeiramente J e E, e depois D, e, por fim, P), o Hexateuco passou por uma revisão final. Este revisor é conhecido como R.



VI – A Evolução da Lei
(ou De como aquelas OUTRAS contradições TAMBÉM são naturais)

Como vimos, os mandamentos foram gradualmente incorporados à Lei. Não devemos ignorar que, mesmo havendo um código escrito, existiam também mandamentos orais. D não era suficiente para reger a ordem do Templo. Naturalmente muitos mandamentos de P já existiam e eram ensinados oralmente, embora talvez não dogmaticamente. Características não relacionadas ao culto, como a barba (Lv 19:27; 21:5), já eram parte da cultura judaica (Is 7:20; 15:2); os acadianos, assim como os hebreus, eram barbados; esse era um dos traços que os diferenciavam dos sumérios. Era uma característica puramente semítica. Também o pudor (Gn 9:22-27; Lv 18:6-18; 20:11-21; Dt 22:30; 27:20) já fazia parte da religião judaica oralmente (Is 3:17; Os 2:9; Mq 1:1; Na 3:5; Hc 2:15); são costumes que acabaram sendo deixados por escrito e passados adiante.

Existem diversos mandamentos que, ao longo da evolução da Lei de Moisés, foram modificados, seja porque seu cumprimento pleno não mais era possível (diferença socio-econômica entre Judá pré-exílio e pós-exílio), seja por interesse da classe sacerdotal (impostos), ou até mesmo pelo rebuscamento natural do culto, acumulando características. Analisemos agora alguns pontos.

O dízimo, muito diferente do que se prega nas igrejas da atualidade, não é uma taxa de 10% sobre a renda. Conforme D nos apresenta, o dízimo é apenas um tipo especial de sacrifício, feito a cada ano ou acada três anos (Dt 14:22-28; 26:12), sacrifício este em forma de 10% da colheita, jamais do dinheiro. A Torá desconhece completamente o dízimo em forma de dinheiro; na realidade, tal coisa inexiste na Bíblia.

O dízimo era trazido a Jerusalém (Dt 12) e lá oferecido como qualquer sacrifício, ou seja: o dizimista comia seu próprio dízimo. Era um banquete sacrificial, jamais um holocausto. Os levitas, os órfãos e as viúvas, conforme vemos em Deuteronômio, eram convidados para o banquete do dízimo; não constituia numa forma de sustento do sacerdote; estes viviam viviam do que pudessem conseguir nos sacrifícios e de convites para banquetes sacrificiais (cf. Dt 18:1,3,18; Lv 7:34; Dt 12:12,18-ss; Ez 44:29); quando não podiam exercer suas funções, eles até mesmo mendigavam, como se vê no Peso profético de 1 Samuel 2:36. Ver também Juízes 17:10 (a praxis antiga). Uma vez que D extingue os bamoth, ele concede aos ex-sacerdotes (agora levitas) um modo de sobrevivência, através do dízimo. Em P, além da colheita, o dízimo se estende aos animais: Em Nm 18 e Ne 10:38,39, esta característica não aparece; surge em Levítico 27:32 (veja, porém, Samuel 8:17).

Em JE e D, os sacerdotes não recebem as primícias: Ex 22:29; Dt 15:19,20. Essas primícias iriam para Deus, queimadas. Já em P, é para eles as primícias: Nm 18:15-ss. Vê-se aqui claramente o interesse sacerdotal, até mesmo porque sua subsistência estava ameaçada. Ezequiel reconhece JE e D, mas não P (44:28-31), sendo esta mais outra evidência de que P é posterior a D e JE, bem como posterior a Ezequiel, que é do princípio do Exílio. Cf. Ne 10:37 (já presente a característica).

JE desconhece o dízimo; o mais próximo seria a oferta dos primogênitos (dos animais), primícias (da plantação) e o melhor do fruto (Ex 22:29; 23:19; 34:26). Deste modo, as taxas progrediram da seguinte forma:

JE: Primícias/primogênitos e o melhor do fruto oferecidos a Deus.
D: Primícias/primogênitos, o melhor do fruto e o dízimo oferecidos a Deus, embora do último participem os levitas. Dos frutos, o sacerdote fica com uma pequena porção (reshith). Cf. Dt 14:22,23; 15:19-22; 26:1-4;10,11.
P: Tanto o dízimo quanto o reshith para o sacerdote (Nm 17:12-21). Desta vez é Deus quem fica com uma pequena porção (Nm 15:20). Em D (Dt 26), as primícias são uma solenidade; em Ne 10:35, são uma taxa anual

As cidades-santuários nas quais os ex-sacerdotes ministravam (altos, bamoth, ilegais em D) agora são transformadas nas 48 'cidades levíticas'. Veja que em D, existe a semelhança com as cidades de refúgio. A conexão entre ambas (cidade levítica vs cidade de refúgio) se encontra na legislação primitiva: Ex 21:4 (cf. 1 Reis 2:28). Os altares e santuários funcionavam como forma de abrigo para fugitivos. Ver Josué 20 e 21 (diversas cidades contadas ao mesmo tempo em ambas as categorias). Essas cidades eram reconhecidamente altos sacrificiais, como se pode ver nos livros históricos. Antes da dominação dos hebreus, esses altos eram cidades-santuários das religiões cananéias, dedicadas a Iavé pelos dominadores.

Especial: Uma evidência de que D é realmente anterior a P está justamente nessas cidades. Enquanto D oferece três cidades e dá possibilidade de mais três (Dt 19:2,8,9), P estabelece o número de seis cidades (Nm 35:13), contemplando o passado através do futuro. Cf. Dt 4:41-43; Jos 20:7,8.

O calendário judaico gira em torno das três solenidades principais: Colheita (asiph), Sega (qacir) e Pães Asmos (maccoth). Diversas passagens da Lei mostram isso: Ex 23:14,17; 34:23,24; Dt 16:16. Como se pode ver pelos nomes, são festas com características puramente agriculturais. Era de se esperar que estas festas, sendo comemorações da plantação, não tivessem datas fixas, mas variassem de um dia para outro tanto quanto a 'colheita' e a 'sega' propriamente ditas variam, e verdadeiramente é assim que JE (cf. Livro do Concerto e Decálogo Ritual) as apresenta. Não existem datas fixas; existem apenas mêses/estações, como mês judaico pré-exílico de Aviv, no caso da festa dos Asmos, e o 'fim do ano' para a festa da Colheita.

Já em JE, a festa da Sega é chamada festa das Semanas (shavuoth), porque ocorre sete semanas (49 dias) após a festa dos asmos. A Páscoa (pesach) é uma festa entrelaçada à festa dos Pães Asmos, e é a abertura das semanas, enquanto o Pentecostes é o fechamento. O Livro do Concerto (Êxodo caps. 21, 22 e 23), contudo, não conhece a Páscoa.

Já em D, mudanças começam a ocorrer. A festa da Sega passa a ser chamada exclusivamente festa das Semanas, enquanto a festa da Colheita passa a se chamar exclusivamente Tabernáculos (Dt 16:13,16). 2 Crônicas 8:13 usa esta mesma nomenclatura. Veja que esta é uma inovação de D: em JE não haviam 'tabernáculos' nesta festa, demonstrando o real sentido que o autor de Neemias inconscientemente deixa passar em Ne 8:14,17. Provavelmente em sua época existiam relatos afirmando que Josué guardou esta festa. 1 Reis 8:65,66, por também ter sido escrito após D, já apresenta a inovação das “cabanas”. Esta inovação, contudo, é na lesgislação, e não na praxis. Já havia esse costume, como mostra Oséias 12:9b.

Em P, as festas já estão datadas no calendário: Lv 23:5,34. A quê se deve este fenômeno? Novamente, a causa é o Exílio Babilônico, associado à centralização do culto em Deuteronômio 12. O período de cativeiro fez com que o modo de vida de Israel mudasse. Eles deixaram de ser um povo agropecuarista para se tornarem urbano-mercantis; os antigos proprietários não tiveram suas terras de volta, cinquenta anos depois. As festas não poderiam ter mais seu antigo significado; a vida não mais estava diretamente associada ao primitivo modo de produção asiático. Portanto, as datações das festas de acordo com a natureza era agora impossível; era preciso normatizar as datas de acordo com um calendário (no caso, o calendário babilônico). Esta normatização foi feita pela elite sacerdotal.

Uma outra consequência foi justamente o aumento das taxas, uma vez que os zadoquitas dependiam das colheitas, agora reduzidas.

Consequentemente, isso acelerou o processo de urbanização, pois haviam grandes dificuldades para os grandes produtores. Não se deve, contudo, imaginar que todos os hebreus de toda Palestina fossem perfeitamente obedientes à Torá. Tendo D centralizado o culto em Jerusalém, não seria possível, mesmo com um monarca forte, obrigar toda população a obedecer. Após o Exílio não houvem nem mesmo tal monarca; o rei do segundo templo é o sumo-sacerdote (Zc 6:9-15). O Templo e a casa real oficialmente se separam.

As solenidades não eram mais comemorações da agricultura. Agora eram dias de festas realizadas em Jerusalém.

Veja a evolução da Páscoa:
- em D: Dt 16:4,8.
- em P: Ex 12:18; Lv 23:6; Nm 28:17.
Perceba: a Páscoa de Dt 16 é a mesma de Josias (2 Reis 23:21,22).

A Festa dos Tabernáculos passa de sete (D, 1 Reis 8:65,66) para oito dias (P, 2 Crônicas 7:9), como foi mostrado. Ezequiel mostra, neste ponto, semelhanças com P: Ezequiel 45:21-25.

P introduz duas novas festas (Lv 23; Nm 28; 29): Dia da Expiação (Yom Kippur) e Festa das Trombetas (Yom Teruah). Nenhuma destas festas tem qualquer significado para os hebreus agricultores anteriores ao Exílio. Há também evolução no caso do Ano Sabático e o Ano do Jubileu. Veja que o Ano Sabático só poderia ser obedecido quando o povo não mais fosse dependente do campo. P introduz também novas formas de sacrifício, como a oficialização do uso do incenso..




VII – Considerações Finais

Uma coisa não deve ser ignorada: só está sendo considerada, dentro da Hipótese, o judaísmo considerado 'ortodoxo' de cada época. Todas as religiões produzem ramos sectários. Um evento de peso tão grande para a religião judaica como o Exílio exterminaria diversos ramos do judaísmo pré-exílico. Algumas vertentes, é claro, sobreviveriam durante o exílio, sofreriam metamorfoses e uniões. O que sobreviveu deu origem ao judaísmo do segundo Templo; não se deve tratar P como o trabalho de uma única vertente.

Por exemplo, o judaísmo rabinico descende do farisaísmo. Sabemos que durante a época de Jesus existiram diversos movimentos sectários além do farisaísmo, cada um com características e crenças próprias (e mesmo escrituras diferentes), mas foi este que sobreviveu à diáspora. É impossível precisar quantos ramos do judaísmo existiam na época do primeiro Templo. Talvez cada região tivesse sua própria midrash. Assim como as culturas babilônica, persa e helenística serviram para moldar o judaísmo da “era dos apocalipses”, também as culturas com as quais Israel teve contato maior (canaaneus, fenícios, sírios) moldaram o judaísmo pré-exílico. Embora o atual judaísmo ortodoxo pareça estático, ao longo do tempo sempre houve abertura para novas práticas, como o Hannukkah e o Purim.

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Recomendações:

- TRACTATUS THEOLOGICO-POLITICUS
Por Baruch Spinoza (1670)

- PROLEGOMENA TO THE HISTORY OF ISRAEL
Por Julius Wellhausen (1883)

Ambas as obras podem ser encontradas na internet.

A obra de Spinoza traz uma crítica ao judaísmo e origina diversos argumentos que eu usei para provar que Moisés não foi o escritor da Torá. Já a obra de Wellhausen, além de posterior no tempo (mais de dois séculos), foi escrita num período em que houve muita pesquisa na área.

Para leitores com conhecimento de alemão, seria interessante ler também outros livros de Wellhausen, bem como de Karl H. Graf (aliás, os alemães foram muito frutíferos nesta área, sobretudo no século XIX). Wellhausen dedica um capítulo da Prolegomena a rebater os argumentos de Graf, que propunha uma hipótese diferente. A hipótese documental também é conhecida, pelo trabalho de ambos, como Hipótese de Graf-Wellhausen.


Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

19 comentários:

  1. Sr. Montenegro, Augusto N. Lopes descreveu algo sobre o método histórico-crítico no artigo na revista Fides Reformata. Poderia apresentar a prova dessa H. D., parece que não passou de Ideologia, como demonstraram por exemplo Maier, Linnemann.

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    1. Sr. "Anônimo", estamos tratando de uma teoria científica, não de um dogma teológico. Por isso, não existe "prova" da teoria como um todo. Antes, prova-se e argumenta-se cada ponto específico.

      O primeiro passo é: quem escreveu o Pentateuco (ou Hexateuco)? O texto acima prova suficientemente que não foi Moisés. As evidências apontadas (e poder-se-ia apontar mais) provam que isso não ocorreu.

      O segundo passo é: se não foi Moisés, quem foi? Uma só pessoa ou mais de uma? Através da comparação de textos diferentes dentro do Penta/Hexateuco, que utilizam de uma linguagem também diferente e apresentam leis diferentes (a mesma lei em um diferente estágio de evolução), agrupa-se os textos comuns (mesma linguagem, teologia e religião) e separa-se os textos díspares (linguagem, teologia e religião diferentes). Assim, chega-se ao número de PELO MENOS quatro autores (ou tradições), conhecidos pelas letras J, E, P e D (visto que seus nomes nos sãos desconhecidos), aos quais se soma ao menos um redator (R).

      A localização temporal dessas fontes se dá através do método comparativo com outros trechos da escritura, cuja data seja mais conhecida. Assim, por exemplo, a fonte D é compatível com a reforma religiosa de Josias. Por isso, é datada para em torno do ano 622 a.C.

      Dúvidas?

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  2. Sr. Montenegro, até JESUS falara que estes livros foram escritos por Moisés. E até utilizou mais do que qualquer outro livro do pentateuco o livro de Deuteronomio, como fica então esse documento D.? Apesar que comecei a ler agora o livro "Who Wrote The Bible?" de Richard Elliott Friedman e até o momento o autor tem mostrado evidências linguísticas, arqueológicas, literárias e históricas que tornam, ao menos, plausível a hipótese ... preciso de mais tempo ... kkkk

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    1. Ah, Jesus disse isso mesmo?

      31 É como um grão de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a menor de todas as sementes que há na terra;
      (Marcos 4:31)

      PERGUNTA: Tendo em conta o que consta em Mc 13:32 e Lc 2:40,52, é verdade que a menor semente que há na terra é o grão de mostarda?

      Tudo depende de como o Sr. responder a essa pergunta.

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  3. Bom, Sr. Montenegro não entendi que relação tem no versículo da doxologia de lucas com o verso 32 do cap.13 de Marcos. Poderia me elucidar por obséquio?

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    1. 32 Mas daquele dia e hora NINGUÉM SABE, nem os anjos que estão no céu, NEM O FILHO, senão o Pai.
      (Marcos 13:32)

      40 E o menino crescia, e SE FORTALECIA EM ESPÍRITO, CHEIO DE SABEDORIA; e a graça de Deus estava sobre ele.
      52 E CRESCIA JESUS EM SABEDORIA, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.
      (Lucas 2:40,52)

      Os textos de Marcos e Lucas são complementares. Se, por um lado, o texto de Marcos mostra o conhecimento de Jesus pela via negativa (limitações de conhecimento), o texto de Lucas o faz pela via positiva (mostra que Jesus estava aprendendo). Os textos se complementam, visto que só pode aprender quem tem conhecimento limitado. Quem tem sabedoria ilimitada não tem o que aprender, correto?

      Por isso minha pergunta sobre Marcos 4:31. Jesus diz que o grão de mostarda é a menor semente que há na terra. A questão é: O grão de mostarda é a menor semente que há na terra, ou é a menor semente conhecida por Jesus e pelos judeus de sua época?

      Ora, sabemos empiricamente que existem sementes menores que o grão de mostarda. Por isso a primeira opção é inviável. Nos resta confessar que o texto de Marcos 4:31 está limitado ao conhecimento dos judeus.

      Isso naturalmente suscita questões em nível de teologia dogmática a respeito da onisciência de Jesus. Seu questionamento foi o seguinte: "Sr. Montenegro, até JESUS falara que estes livros foram escritos por Moisés." O pressuposto básico desse questionamento parece ser o seguinte: Jesus sabe de todas as coisas, portanto se ele confirmou que os livros da lei foram escritos por Moisés, então eles foram escritos por Moisés. Correto?

      O problema aparece quando apresentamos as provas (tiradas dos próprios livros da Lei) de que Moisés não é o autor. Isso se choca contra a "onisciência" de Jesus? Aqui estamos fugindo da exegese e entrando na teologia dogmática.

      Entretanto, a teologia dogmática clássica já solucionou esse problema. Pelo credo do Concílio da Calcedônia (incluindo as decisões paralelas do Terceiro Concílio de Constantinopla), confessara-se que Jesus é simultaneamente anthropos (Rm 5:15) e theos (Jo 20:28). Segundo este dogma, as duas naturezas completas subsistem em uma só pessoa (hipóstase). Daí o nome: União Hipostática (em crítica a certas heresias, em especial o nestorianismo).

      A consequência direta é que Jesus tem dois modos de conhecer: como homem e como Deus. Como Deus, seu modo de conhecer é ilimitado; mas como homem, seu modo de conhecer é limitado e crescente. Se se afirmar que Jesus tinha apenas conhecimento ilimitado (contrariando Marcos 13:32 e Lucas 2:40,52), então sua natureza humana não era completa. Se se afirmar que Jesus tinha apenas conhecimento limitado (contrariando Colossenses 2:3), então sua natureza divina não era completa.

      Trata-se de um homem cheio da graça de Deus, e por isso seu conhecimento é incomparavelmente superior ao nosso, mas ainda assim limitado. Jesus era judeu e pensava como um judeu de sua época. Por isso, como um judeu de sua época, pensava que a menor semente existente era a da mostarda. Por isso, como um judeu de sua época, pensava que os livros da lei foram escritos por Moisés, ainda que esses próprios livros digam o contrário. Ambas as questões eram irrelevantes para o seu ministério.

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  4. Parabéns e muito obrigado pela bela lição que me deste com base em seus conhecimentos e que o Espirito Santo o abençoe ricamente. Grato. Mas então como ficaria a onisciência de Jesus? Sei que minha dúvida apresentada não se trata do mesmo assunto, se preferir posso apresentá-la no tópico que o Sr. me conduzir.

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    1. Segundo as conclusões da teologia dogmática acima expostas, Jesus era ao mesmo tempo onisciente e não-onisciente, assim como era ao mesmo tempo imortal e mortal, impassível e passível, livre e obediente, poderoso e fraco, Criador e criatura.

      É importante frisar, entretanto, que se trata de teologia dogmática, e não de exegese bíblica. A teologia dogmática tem uma série de pressupostos de "pano de fundo" que não se comprovam biblicamente, mas que resultam da conclusão histórica de teólogos e bispos da Igreja a partir de certas reflexões filosóficas, substancializada nos concílios eclesiásticos.

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  5. Sr. Montenegro lendo a biblia deparei com algumas situaçoes que me deixaram perdidos em relação ao que me explicou no "grão de mostarda" anteriormente, como;João 14:9 "Eu vo-lo disse agora, para que, quando acontecer, vós acrediteis". 15:1 "Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós ...", 18:4 "Sabendo pois Jesus todas as coisas que sobre ele haviam de vir ...", 16:4 "... quando chegar aquela hora, vos lembrareis de que já vo-lo tenho dito ..." entre mais algumas como fica esses versículos?

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  6. Poderia me ajudar nesses dois versos que se contradizem, por favor? João 12:31 com João 14:30

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  7. Nos versiculos de Joao parece que diz respeito como Jesus sendo onisciente, digo exegesicamente e não na teologia dogmatica. No versiculo 12:31 agora é o juizo deste mundo significava naquele momento? O principe deste mundo diz respeito a satanaz? No 14:30 esse principe se aproxima? Esse principe estava ou se aproximava? Se foi expulso ainda atua ou não e como?

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    1. Um dos aspectos fundamentais do Evangelho de João é a apresentação da chamada "escatologia realizada". O Evangelho mostra o cumprimento da história salvífica durante a vida terrena de Jesus. Assim, essa vida é o meio pelo qual Satanás, o príncipe deste mundo, é expulso. Ideia semelhante aparece em 1 João 3:8 (ver também Hebreus 2:14).

      Portanto, João 12:31 significa, sim, naquele momento, mas aquele momento é toda a vida de Jesus, não um minuto específico.

      O príncipe deste mundo é Satanás. Compare a 2 Coríntios 4:4 e Efésios 2:2. "Príncipe" significa "principal", "o mais importante".

      Com a primeira vinda de Jesus, o poder de Satanás foi limitado. A Bíblia usa várias figuras para se referir a isto: Satanás amarrado (ou manietado), aniquilado, teve suas obras destruídas, expulso, julgado, etc.

      Mas nada disso significa que Satanás não exista hoje. São figuras. Isso fica evidente pelos textos de 2 Coríntios e Efésios acima citados.

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  8. Errei na minha colocação ...Nos versiculos de Joao parece que diz respeito como Jesus sendo onisciente, poderia me explicar exegesicamente e não na teologia dogmatica.

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    1. Sim, vários textos falam de Jesus como onisciente. Qual é a dúvida?

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  9. Sr. Montenegro é que fiquei confuso no trato do grão de mostarda em que o sr. explicou "Trata-se de um homem cheio da graça de Deus, e por isso seu conhecimento é incomparavelmente superior ao nosso, mas ainda assim limitado" Jesus é ou não onisciente? Se é porque as dúvidas como "quem me tocou?"? Compreendeu minha duvida?

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    1. Minha resposta ao Sr. naquela ocasião foi: as duas coisas ao mesmo tempo. Onisciente e não onisciente. Isso se dá porque, ao mesmo tempo, a Bíblia apresenta a Jesus como ser humano (Romanos 5:15) e como Deus (João 20:28).

      Ao momento em que o Verbo se encarna, ele adquire um CÉREBRO. Ora, um cérebro não é uma máquina de capacidade infinita. Tem limitações, e por isso não pode comportar um conhecimento infinito. Por isso, o conhecimento de Jesus era limitado.

      Mas o próprio ser do Verbo não está limitado a este cérebro humano. Por isso o conhecimento de Jesus era ilimitado.

      Isto é: limitado e ilimitado.

      Trata-se, como eu lhe disse naquela ocasião, de um problema dogmático/sistemático, e não de um problema exegético/bíblico. A Bíblia não gasta um só versículo para discutir esse problema. Por isso não pode ser dada qualquer resposta bíblica ao seu problema. Entendido?

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  10. Ah, entendi obrigado.

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