29/04/08

Idolatria

Texto base:
“E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (2ª Coríntios 6:16)

A idolatria é uma questão que sempre esteve presente na história não apenas do Cristianismo, mas fortemente na história do Judaísmo, como é relatado nos livros proféticos e históricos. Em incontáveis momentos de sua história o povo hebreu desviou-se de adorar apenas a Yahweh Deus e passou a servir aos deuses dos gentios mesopotâmicos, fenícios (libaneses), sírios e egípcios. A reposta divina, ao longo do Velho Testamento, sempre foi a mesma: rejeição espiritual. Deus entregava o povo de Israel ao domínio dos povos idólatras, seja no cativeiro, seja na guerra. Naturalmente surge a pergunta:

O que exatamente é idolatria?

Idolatria é, em sentido restrito (judáico-cristão), veneração a um ser (um objeto, um conceito ideológico, um fenômeno natural ou uma entidade artificial) de uma forma que só poderia ser feita para com Deus. Ou seja, idolatria é ter um ídolo. Ídolo é tudo que recebe um nome próprio e recebe uma demonstração pública de devoção.

Recebendo um nome, o ídolo torna-se, portanto, um ser ideal, uma pessoa metafísica, distinto de todos aqueles que do mesmo gênero, mas que só possuem nome comum. Ou seja, ele qualifica-se para, no mundo das idéias, receber uma atenção especial, distinta e superior (ou até mesmo evocação). Isso é claramente visível. Ainda que diferentes religiões adorem de forma diferente, é possível ver o mesmo deus (ídolo) através de suas características e seu nome.

O deus indo-europeu Dyaus Pita (“O deus pai”) foi retratado como Zeus Pitter entre os gregos e Jupiter entre romanos. Ainda que recebe diferente forma de adoração, é o mesmo deus.

O ídolo que na tradução Almeida do Velho Testamento (1ª Reis 11:5; Jeremias 7:18) é chamado Astarote ou Rainha dos Céus (não confundir com a região de Astarote), foi conhecido pelos hebreus e filisteus como Ashtoreth, entre os fenícios como Ashtart, entre os mesopotâmicos como Ishtar e entre os gregos com o nome de Astartéia.

Portanto, tendo um nome, o ídolo pode ser transmitido adiante, em forma de tradição religiosa. Veja que, por ser anti-dogmático, o ídolo pode ser facilmente assimilado por qualquer religião. Isso ocorre com diversas religiões sincretistas, como a Umbanda. Para o idólatra, portanto, o que importa não é a ortodoxia de credo, mas a comodidade de adoração. Ainda que confrontado com os melhores argumentos, sempre se voltará, pelo pouco amor a Deus e pela sua mente cauterizada, à velha idolatria.

Fenômenos naturais são um caso particular. Até o momento em que ocorre uma sistematização basilar da religião ou da ciência de um determinado povo, as forças naturais são temidas (não necessariamente adoradas, mas reverenciadas) como sendo manifestações os deuses em si, não tendo uma denominação particular. Ou seja, o termo que designa o “relâmpago” em si, para um povo primitivo, seria também o nome do deus que manifestou aquele relâmpago, por que, na realidade, eles seriam um só. No momento em que uma determinada ordem sacerdotal separa para si o direito de culto e o domínio do credo, contudo, poderá haver diferenciação nos nomes. O mito de criação fenício (que, na realidade, não se refere à criação em si, mas aos ciclos naturais) evidencia muito bem isto, mostrando a contraposição entre diversos deuses que representam as forças naturais.

A imagem de escultura geralmente é adorada como sendo representante de um ente transcendente e invisível, mas que possuiria ceta ligação espiritual com o objeto, uma vez que qualquer forma de adoração é dirigida, preferencialmente, à imagem. O boneco em si facilita a visualização, funcionando efetivamente como um aio para a descrença.

A demonstração de idolatria, para que o ser estudado venha a ser classificado como ídolo, que deve ser voluntária (embora não necessariamente consciente), pode vir de diversas formas, como sacrifícios de bens (alimentos, velas, incenso...), animais ou de seres humanos, auto-flagelação e reverência (ajoelhar-se perante). Note-se que não é obrigatório que o idólatra imagine seu ídolo como sendo uma entidade superior. O ídolo pode ser um espírito familiar ancestral ou herói mitológico que, estando em um “plano superior”, poderia conseguir para o idólatra certas facilidades mundanas.

Embora a Lei do Velho Testamento tenha sido crucificada com Cristo (João 1:17; Romanos 7:4; 2ª Coríntios 3:14, Gálatas 2:19-21; Hebreus 9:15-17), podemos dela – bem como de todos os livros que foram escritos na perspectiva da Lei – fazer justo uso (1ª Timóteo 1:8-10), demonstrando claramente o que vem a ser as demonstrações de idolatria.

Analisemos os dois primeiros mandamentos:

3 Não terás outros deuses diante de mim. 4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. 5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.(Êxodo 20:3-5)


O primeiro mandamento, embora à primeira vista não se refira à idolatria, é de fundamental importância. Todo deus é um ídolo, embora nem todo ídolo seja um deus. O exemplo mais visível desta relação são os ídolos que Raquel rouba, em Gênesis 31:19-35. Ver também Levítico 19:4 e I Crônicas 16:26. Portanto, o primeiro mandamento também proíbe a idolatria. Nesta questão ambos os mandamentos se completam: enquanto o primeiro proíbe ter outros deuses (que não são necessariamente imagens de escultura), o segundo proíbe prostrar-se perante figuras representativas.

Outra fortíssima evidência a respeito de como se constitui um ídolo está em Levítico 26:1: “Não fareis para vós ídolos, nem vos levantareis imagem de escultura, nem estátua, nem poreis pedra figurada na vossa terra, para inclinar-vos a ela; porque eu sou o Senhor vosso Deus.

É natural ao ser humano adorar curvando-se. Perceba a ira em Gn 37:10. Curvar-se perante algo, em qualquer cultura, constitui a demonstração de submissão voluntária (novamente, não necessariamente consciente). É claro que nem em todos os momentos estamos idolatrando o que está em nossa frente; se eu me ajoelhar em frente a uma criança para conversar com ela, não estarei idolatrando, ainda que cumpra as exigências (nome e demonstração). A diferença está na veneração em si: o ser idolatrado, por meio daquela ação, será acalmado ou agradado pelo idólatra.

Um detalhe muito interessante pode ser percebido quando fazemos comparações de certas passagens em textos neo-testamentários, uma vez que o Grego Koinê possui particularidades que não são mais encontradas nos idiomas atuais. Uma informação fundamental deve ser analisada: O dialeto Koinê não apresenta sinônimos. Sendo assim, passagens que em língua portuguesa apresentam os mesmos termos deveriam, no original grego, conter os mesmos termos. Mas não é isto que acontece. Traduções nunca são perfeitas, e sempre carregam, de alguma forma, a parcialidade do tradutor. Vamos analisar as passagens de Mateus 15:9 e Apocalipse 19:10. Esta última usa os mesmos termos de Apocalipse 22:8,9.

“Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” (Mateus 15:9)

Texto grego: μάτην δὲ σέβονταί με, διδάσκοντες διδασκαλίας ἐντάλματα ἀνθρώπων.

“E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas ele disse-me: Olha não faças tal; sou teu conservo, e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito de profecia.” (Apocalipse 19:10)

Texto grego: καὶ ἔπεσα ἔμπροσθεν τῶν ποδῶν αὐτοῦ προσκυνῆσαι αὐτῷ. καὶ λέγει μοι, Ορα μή: σύνδουλός σού εἰμι καὶ τῶν ἀδελφῶν σου τῶν ἐχόντων τὴν μαρτυρίαν Ἰησοῦ: τῷ θεῷ προσκύνησον. ἡ γὰρ μαρτυρία Ἰησοῦ ἐστιν τὸ πνεῦμα τῆς προφητείας.

Uma vez que o grego Koinê não apresenat sinônimos, os verbos σέβομαι e προσκυνέω, nas frases declinados, jamais poderiam apresentar a mesma significação. Seus significados são os seguintes:

σέβομαι (SEBOMAI): Adorar, venerar.
προσκυνέω (PROSKYNEW): Curvar-se ou ajoelhar-se perante algo.

Portanto, a informação passada por Apocalipse 19:10; 22:8,9 é de que só Deus merece esta forma de reverência. Curvar-se perante qualquer outra criatura seria anti-natural.

Outras referências bíblicas podem ser: Êxodo 23:24; Deuteronômio 8:19; 17:3; Josué 23:16; Jeremias 13:10; 25:6; Isaías 2:8-10; 10:10,11; 44:19.

Outras perguntas começam a ser formuladas dentro dos conceitos básicos apresentados:

1) O que leva alguém a idolatrar?

Como pode ser visto no livros históricos (em especial Juízes e Reis), em todos os momentos nos quais Israel se viu privada da bênção de divina, ela recorreu aos ídolos. Isto já era previsto: Deuteronômio 31:16. É natural um povo de pouca fé só crer no que vê (imagens de escultura), uma vez que em vários momentos Deus deixou de responder ao seu povo para testá-lo (ou repreendê-lo). Se Deus não aparecia, não falava, não se manifestava e não agia visivelmente, aquele povo (assim como ocorre ainda hoje) viu-se “sem o que adorar”, e voltou-se aos ídolos. Foi isto que aconteceu em Êxodo 32:1-20. A imagem de escultura funciona como anteparo psicológico.

A idolatria também é uma doença (Êxodo 23:33; 34:15,16; Isaías 44:9-20). Tendo Salomão se casado com mulheres idólatras de diversas regiões, passou ele também a ser um idólatra (I Reis 11:4-8). E este foi o mesmo Salomão que de Deus recebeu grande sabedoria (I Reis 4:29-34) e que vira a Deus duas vezes (I Reis11:9). A idolatria de Salomão foi o motivo pelo qual a terra dos hebreus foi dividida em dois reinos (Judá ao Sul e Israel ao norte). Note-se, novamente por Isaías 44:9-20, que o idólatra não é capaz de reconhecer sua própria idolatria, ainda que todos à sua volta que não compartilhem de sua prostituição espiritual mostrem tal verdade a ele; sua conversão é dificil e envolve admitir que é falho e que deve fazer o que é correto e não o que lhe é agradável.

2) Por que Deus odeia a idolatria?

Esta questão é simples. Deus odeia a idolatria porque o ídolo recebe uma honra que só Ele deveria receber. Em algumas passagens do Velho Testamento, Yahweh Deus faz questão de afirmar que imagens de escultura são obras das mãos dos homens:


Deuteronômio 4:28; 31:29; I Reis 16:7; II Reis 19:18; Isaías 17:8; 37:19; Jeremias 25:6,7; Oséias 14:3; Miquéias 5:13. A idolatria é uma inversão de valores muito grande; o homem deixa de adorar ao Criador e curva-se ao que foi feito pela criatura. É interessante notar que as pragas do Egito não foram dirigidas apenas aos egípcios em si, mas serviam de humilhação aos ídolos egípcios (Êxodo 12:12). O deus Hapi, por exemplo, foi humilhado quando Yahweh Deus tornou o Nilo em sangue.

3) Qual a punição para um idólatra?

No Velho Testamento, a punição por idolatria é clara e realizada pelos homens: Levítico 20:2; Deuteronômio 18:20. Os ídolos devem ser destruídos (Êxodo 23:24; Deuteronômio 7:25; 12:3) e também o lugar em que estes profanaram (Deuteronômio 12:2). Casar com idólatras (Êxodo 34:15,16) e até simples fato de pronunciar o nome de outros deuses era proibido (Êxodo 23:13).

Através da crucificação da Lei na Graça (Colossenses 2:14), agora estamos livres do legalismo e do detalhismo, mas a idolatria em si continua sendo pecado, punido com a morte (Romanos 6:23). Esta "morte", diferente da morte da Lei, é efetuada por Yahweh Deus através de seu julgamento (Apocalipse 20:11-15), no qual os idólatras serão reprovados (Efésios 5:5).

4) Se Deus odeia a idolatria, por que no Velho Testamento foram criadas imagens de escultura com Sua permissão?

O exemplo clássico é a serpente de metal construída por Moisés por ordem do próprio Deus (Nm 21:8,9), para que aqueles que para elas olhassem fossem curados do veneno de cobras (Numeros 21:4-9). Embora a estátua tenha sido usada como sinal (capaz de curar), ela não recebeu um nome. Era Deus quem estava curando naquele momento, e o povo tinha consciência disso (verso 7). Esta serpente veio a ser destruída por Ezequias, em sua reforma contra a idolatria (II Reis 18:4), uma vez que ela foi transformada em ídolo, por receber incenso.


Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

Um comentário:

  1. Bom estudo sobre a Idolatria.
    Ficou bem claro que Não devemos pratica a Idolatria.
    Devemos se Ajoelhar para adorar só a Javé Deus.

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