29/04/08

É o dízimo uma doutrina cristã?

Texto base:
"E esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo." (Gênesis 28:22)

O propósito deste pequeno estudo não é apoiar ou rejeitar a prática do dízimo nas igrejas do presente (seja pelo dizimista , seja pelo obreiro), mas analisar o dízimo levando em conta as Escrituras do Velho e do Novo Testamento (1ª Coríntios4:6). O que será discutido: o dízimo é válido no Novo Testamento, ou seja, para a Igreja? Se sim, é pecado não dizimar? Como se pode dizimar? Malaquias 3:8-11 é uma ameaça válida para a Igreja? Antes de analisar a questão do ponto de vista cristão, devemos considerar o judaísmo bíblico, ou seja, o judaísmo da Lei escrita (SEFER TORAH). É fundamental que todas as passagens citadas sejam lidas e analisadas.

Dízimo na Lei

As primeiras aparições do Dízimo no Antigo Testamento mostram-se em Gênesis 14:18-20; 28:22, passagens conhecidas dos dizimistas e dos pastores malaquianos (i.e. dos pastores que recebem, aconselham ou até mesmo exigem o dízimo considerando Malaquias 3:8-10). Em ambas os casos (Abraão e Jacó) vemos a entrega voluntária do dízimo. É importante notar que no Texto Massorético o termo usado realmente implica em uma porção de 10% (um décimo): MA'ASER (dízimo) deriva de 'ESER (dez). Note que por mais que Abraão tenha dado o dízimo de "tudo", não há certeza alguma de que estes dízimos tenham sido em forma de dinheiro (ouro, prata). Este é um ponto muito importante. Não podemos simplesmente assumir que seja em ouro.

O dízimo do Velho Testamento, ao contrário do que se pensa, não é uma taxa de 10% sobre a remuneração, mas uma taxa de 10% sobre a produção. Na Lei de Moisés, o dízimo é claramente visto se referindo à porção da colheita e dos animais, que é trazida aos sacerdotes.

Compare Deuteronômio 14:22-27 a Números 18:21-31 (dízimo de cada ano), e analise Deuteronômio 14:28,28; 26:12 (dízimo adicional a cada três anos). Perceba então que, em qualquer caso, o dízimo é sempre entregue em forma de alimento. Confira 2 Crônicas (o 2 Paralipômenos) 31:6; Neemias 10:35-37; 13:5,12. Parte do dízimo é comida pelo próprio dizimista, pelos levitas e pelos necessitados, e uma pequena parte é ofertada a Deus. O dízimo, já que não era nada mais que um sacrifício como qualquer outro da Lei, era obrigatoriamente trazido à Casa de Deus oficial (Deuteronômio 12), que, pela historia da maior parte do Velho Testamento pós-davídico, esteve em Jerusalém, mas também em Siló (compare 1 Samuel 1:3,7; Jeremias 7:12,14). O judeu tinha a obrigação de se deslocar até lá uma vez ao ano para deixar seu dízimo. Se a distância fosse um impedimento ao transporte da décima parte da colheita e dos animais, era então permitido que os animais fossem vendidos, e, com o dinheiro, comprar-se-ía "vacas, ovelhas, vinho, bebida forte e tudo o que te pedir a tua alma", para o banquete do dízimo (Deuteronômio 14:24-27). Perceba aqui claramente que o dízimo não tem a conotação de um imposto, mas de um banquete em um dos convidados seria o próprio dizimista. Ou seja, pela Lei o dizimista se aproveita de seu próprio dízimo; a necessidade de dizimar não era de , mas a de comer "perante o Senhor", tendo convidados os levitas (estes não tem recursos próprios, e precisam viver disto, além das ofertas) e os necessitados. Ou seja, o dízimo funcionava como amparo para os que não tem condições de se alimentar; o dízimo não dava roupas ou moradia, mas alimento com certeza.

Note também que o dizimista não podia escolher entre o "gado bom e o gado mau" (Levítico 27:32,33), o que previne que o dizimista trouxesse o gado magro para os levitas e necessitados de Jerusalém e deixasse o gado gordo em sua propriedade. O dízimo jamais aparece na forma de uma taxa sobre o salário ou a remuneração. Mesmo quando dinheiro é envolvido, é apenas temporariamente, para facilitar a locomoção: este dinheiro nunca chega nas mãos do próprio sacerdote. Uma das poucas oportunidades que o sacerdote tinha de ter contato com o dinheiro das obrigações da Lei era o "resgate da alma" (Êxodo 30:11-16), mas este não era uma taxa proporcial à riqueza: tanto o rico quanto o pobre pagavam a mesma coisa, diferentemente do dízimo. Nenhuma parte da bíblia fala sobre dízimo de salários; mercadores e prestadores de serviços efetivamente não pagavam nenhum dízimo, a mesmo que também tivessem animais ou plantações. Neste caso eles dizimariam do seu produto, nunca do seu dinheiro.

A parte dos dízimos que era do levita era armazenada na chamada "casa do tesouro" (Neemias 10:37-39). Este é um termo que talvez possa causar a má interpretação de que os dízimos estão associados a dinheiro. Mas, como foi mostrado, o dízimo é sempre entregue em forma de alimento, e é densamente associado à vida agricultural do Israel pre-exílico, assim como também eram as festas. O dizimista teria um banquete especial "perante o Senhor", em Jerusalém, na presença dos sacerdotes, daquilo que a terra que o Senhor "nos deu" frutifica. A casa do tesouro, portanto, servia de estoque e dispensa.

A única referência nos livros proféticos é a famosa ameaça e promessa de Malaquias 3:8-11, usada por aqueles que defendem a validade do dízimo para a Igreja. É interessante notar que até mesmo nesta passagem, no verso 11, há referências agriculturais ao dízimo.

O termo ofertas, no verso 8, também está se referindo a um tipo de sacrifício da Lei em forma de alimento (do qual os levitas tinham parte), conhecido como "dízimo dos dízimos" (Números 18:26-31; compare a Levítico 6:14-18). Malaquias está apenas enfatizando o que a Lei já ensinava sobre os dízimos: que a nação de Israel, após o exílio, estava negligenciando o dízimo, fazendo com que a casa do tesouro não tivesse mantimento para os levitas, que poderiam até mesmo morrer de fome. Nada se fala sobre dinheiro.

Resumindo: Para o Velho Testamento, o dízimo era um banquete perante o Senhor (ou seja, perante a Casa de Deus), do qual participavam os levitas e os necessitados. Servia para que estes últimos tivessem condições de comer. Parte era consumida pelo fogo em homenagem a Deus. Sacerdotes que estivessem em outros lugares não estavam habilitados a receberem o dízimo (ainda que cada um pudesse voluntariamente contribuir, sem prescrição da Lei).

Dízimo versus Novo Testamento

O Novo Testamento dedica poucos versículos ao dízimo. Isto é natural: a Igreja não depende do Templo (João 4:19-23), porque é itinerante, e nem tampouco está associada à vida agricultural, como se não bastasse a substituição da Lei de Moisés (Efésios 2:14-16; Colossenses 2:14; Hebreus 7:12) pelo Evangelho, o que põe em xeque todos os estatutos e mandamentos, que só são devidamente aceitos com confirmação neo-testamentária, ou seja, apostólica.


Veja que quando Jesus faz referência aos dízimos, em Mateus 23:23; Lucas 11:42 (novamente confirmando que o dízimo é alimentício), ele confirma a validade do dízimo ("deveis fazer estas coisas, e não omitir aquelas"), mas o leitor deve lembrar-se de que Jesus ainda estava sob a Lei, porque esta só teve fim com sua morte (compare Gálatas 4:4; Colossenses 2:14), cumprindo-se, a partir daí, não mais com ordenanças (e o dízimo é uma ordenança, assim como as festas), mas com "Amar ao Próximo" (Romanos 13:8,9; Gálatas 5:14; 6:2)

Veja novamente que a ameaça de Malaquias 3:8-11 é tão válida quanto Isaías 66:16,17, em que Deus ameaça aos que comem carne de porco, da qual o novo testamento nada fala. Ela não aparece nas restrições alimentares de Atos 15:20 (leve-se em conta que no Concílio de Jerusalém o ministério da incircuncisão ainda não havia sido completamente esclarescida pelo Espírito Santo) e aparentemente é aceita por 1ª Coríntios 10:25. Confira também Marcos 7:15-20; 1ª Timóteo 4:4. As ameaças dos Profetas são válidas para a Igreja apenas quando iluminadas pela doutrina apostólica. Afinal, Isaías e Malaquias não profetizaram (i.e. pregaram) para a Igreja, mas para os que estavam debaixo da Lei.

Pode-se argumentar que, conforme Jesus Cristo seja sacerdote pela ordem de Melquisedeque, e este tomou dízimos de Abraão, nós, cristãos, devemos pagar o mesmo dízimo que Abraão pagou. Contudo, a única referência escriturística, Hebreus 7:1-9, não diz que devemos dizimar (foi voluntário), além de que, sendo todos nós igualmente sacerdotes (Apocalipse 1:5,6), nenhum está mais apto do que outro para receber dízimos. Embora bispos, presbíteros e diáconos sejam biblicamente ministros da Igreja, estes não são cargos sacerdotais. São vocações (Efésios 4:11).

Todos os cristãos, sem excessão, tem diferentes vocações para a edificação do Corpo de Cristo (embora nem todos nós nos aperfeiçoemos nestas vocações), e nenhuma vocação está mais alta, ainda que algumas tenham seu brilho ou autoridade mais visível. Todas estas vocações cumprem seu necessário propósito no Corpo, que é a Igreja. E, novamente lembrando, não existe qualquer evidência de dízimo de salário ou remuneração. Levando em conta que o redator de Gênesis 14:20 só conhecia o dízimo da Lei, ele certamente teria escrito se Abraão houvesse dado dízimo do dinheiro, pois esta forma de dízimo lhe seria completamente alienígena. Seria a mesma idéia apresentada em 1 Samuel 6:4,5,17.

Portanto, biblicamente nenhum de nós tem obrigação especial de dizimar, da mesma forma que cada um de nós tem compromisso de honrar a Deus em tudo, até no nosso salário. Mas cada servo de Deus dará conta de si mesmo a Deus (Romanos 14:4-8). Sendo assim, nós mesmos escolhemos, conforme guiados pelo Espírito Santo, como e quando usar aquilo que temos, lembrando-se de que o aflito e o necessitado, que na Lei eram beneficiados pelo dízimo, ainda tem fome hoje. Deus é o dono da prata e do ouro, esteja você entregando 10% à Igreja ou não.

O obreiro que recebe o dízimo e o crente que dizima não estão pecando, se for para Deus. Quem erra é o obreiro que obriga ou exige o dízimo, ou que o ensina como uma doutrina fundamental, pois em verdade é um dogma. Voltemo-nos, pois, às palavras gentílico-apostólicas em 1ª Coríntios 4:6.


Gyordano Montenegro Brasilino, cristão.

13 comentários:

  1. Que Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus, tenha misericórdia, e ponha em breve um fim a toda esta bagunça, reivindicando a posse do seu reino de glória. Conciso. Excelente material. Grata.

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  2. Muitíssimo esclarecedor, também cheguei a essa mesma conclusão por meio da revelação do Espirito Santo em meu coração, e via que era incompatível a maldição de Malaquias com a graça. Visto que fui chamado para salvação como gentil e não como judeu, ou seja afastado do povo de Deus e do seu concerto, e se eu vivesse naquele período de Malaquias ou Jesus seria apenas um desgraçado, um cachorro em volta da mesa, sem herança.
    Sendo assim, não teria nenhuma obrigação com a lei,. Então por que (eu me indagava) sendo eu salvo pela bondade, compaixão de Deus e de forma gratuita sem pagar ônus algum me colocaria debaixo do jugo da lei de um povo que eu nunca pertenci, sabendo que todos pecaram e destituídos foram todos da glória de Deus? por que entregaria o dízimo a instituições que se utilizam da supersticiosidade, e do medo que sente os irmãos? por que eu me dobraria a uma chantagem da idade média? jamais.
    Meu irmão gostaria de te pedir que vocÊ escrevesse algumas linhas a respeito da situação da mulher em relação ao homem na igreja, sociedade, família na ótica de Paulo, em suas cartas: não me lembrarei agora dos livros e capítulos em que se encontra as passagens que falam desses assuntos, se não 1º corintios 11.2-21; existem outros, mas não me lembro. Quero saber se o que ele fala diz respeito ao tempo e a cultura do local, ou se seus mandamentos são atemporais? Salve o Rei dos reis, o Deus das nações, que nos fez e nos criou e que nos libertou das trevas para sua preciosa luz. Agradeço a Deus por ler este blog, pois em meu coração dizia "...ainda há alguns que não se ajoelham e nem beijam baal.." que Deus te abençoe meu irmão, que Deus muito te abençoe.

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  3. Muito bom, Assim me alegro mais ainda em dar o dízimo, pois não dou por obrigação da lei e sim por gratidão e louvor ao meu Deus, sabendo também que estou colaborando para a manutenção do templo e sustento dos necessitados.
    Desta forma sou estibulado a ser dízimista! gloria a Deus!

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  4. A Paz. Se nao me engano Abraao deu o dizimo dos dspojos. E que era comum essa atitude naquela epoca. Creio que era comum ate para os povos pagaos. Mas ai nao existia o Templo nem a ordenanca dada por Deus. O Templo do Velho testamento nao tenha nada, mas nada a que ver com a Igreja Institucional. Sao duas coisas completamente diferentes, mesmo se as duas sejam feitas por maos humanas. Depois da morte de Jesus, o Templo deixou de existir, juntamente os seus sacerdotes e levitas, que eram os auxiliares dos sacerdotes. O Templo e' cada um de nos. Todos Nos somos sacerdotes. Mas no NT os apostolos nos ensinam a ajudar os nossos irmaos necessitados e os pobres. Tudo aquilo que estava relacionado com o Templo do VT, deixou existir, e com isso tbm o dizimo, pois o Templo do VT nao e' mais necessario. Quem quer dar o dizimo que faca entao na maneira certa, mas saiba que estara anulando o sacrificio de Jesus.

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    1. Não entendi sua conclusão, Da. Maris. Conclui que se deve dar o dízimo "na maneira certa", mas ao mesmo tempo acredita que isso "estará anulando o sacrifício de Jesus". Como é possível que a maneira certa anule o sacrifício de Jesus? Poderia explicar?

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    2. Entendo que quem queira dar o dízimo, que o faça de coração a título de oferta à Deus, acreditando que o Espírito Santo dará destino à esta oferta, mas não se sentindo coagido à fazê-lo, com medo de desagradar à Deus. Se o destino do seu dízimo for desviado, ai daquele que o roubou, pois está roubando à Deus. Tua oferta foi feita à Deus, não aos homens da igreja.

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  5. Aqui deixo o que penso sobre o dizimo,a irma Maris Alvares, acertou em dizer que somos templo do Espírito Santo,mais ao se referir que o templo feito por mao de homens não é necessario foi infeliz pois muitas vidas foram e são alcançadas atraves das portas abertas da igreja, pois ao adentrarem contemplam o aguir de Deus o mover do Espirito Santo atraves da vida dos irmãos que la estao, a igreja não sustenta sozinha e se não fosse necessario dizimar Deus não diria que é abençoando que somos abençoado,luz, agua, e outras necessidades da igreja não deixaram de existir, apoiar um missionario que esta longe pregando o evangelho, formar cestas basicas para um irmao necessitado, a igreja precisa existir tenho certeza que congregar e necessario e dizimar tambem

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  6. Muito esclarecedora esta matéria. Sinceramente foi a melhor que li até hoje.
    Concluindo, meus irmãos, o dizimo não se constitui de uma ordenança sob a qual não estamos hoje, porque estamos debaixo da graça. Mas, como sabiamente se referiu o escritor desta materia,o dízimo se constitui em um dógma, criado pela Igreja Juridicamente Organizada com fim de suprir suas necessidades financeiras que são intermináveis e a torna um legado valioso que passa de pais para filhos como verdadeiros sucessores. Quanto a Igreja Espirituamente Organizada, a Igreja móvel que está ressurgindo pela misericórdia de Deus, esta não precisa de tais artificios para o seu sustento, porque o próprio Espirito Santo é quem a sustenta, alimenta, conduz, através de homens cheios da presença de Deus, sem nenhuma pretenção financeira ou de status que investem suas vidas para o engrandecimento do Reino de Deus. Um abraço e que a graça do Senhor Jesus seja com todos vocês.

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  7. Muito boa a materia,querido irmão.
    O que me deixa mais triste é ver pastores forçando a igreja dizimar nos moldes de Ml 3.10 dizendo que quem não dizimar está roubando a Deus.Estes mesmos pastores,na maioria,não cumpre um dos requisitos da lei do dizimo,que era para ajudar pobres(orfãos e viuvas)e usam o dinheiro para pagar contas da igreja e outros gastos.

    Lamentavel!

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  8. Meu irmão pagar a luz da igreja com um 10% de um kilo de feijão

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  9. Meu irmão pagar a luz da igreja com um 10% de um kilo de feijão

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  10. Meu irmão pagar a luz da igreja com um 10% de um kilo de feijão

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  11. Graça e paz,

    Se jesus estava sob a lei como explicar Lc 16:16?

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