Diversos
calvinistas alegam que o calvinismo começou com Agostinho. Pretendo
aqui delinear as distinções entre o Calvinismo e o Agostinianismo,
esclarecendo que a concepção calvinista de predestinação não
começa com Calvino, mas é muitos séculos anterior.
Na
realidade, é incorreto chamar a concepção de “Calvinismo” a
crença na Dupla Predestinação. A expressão mais correta seria
“Predestinarianismo”, da qual o calvinismo seria apenas uma
expressão protestante, havendo também formas medievais de
predestinarianismo anteriores ao protestantismo, muitas delas
condenadas pelo clero
católico medieval.
De
fato, podemos dizer que a concepção de predestinação delineada
por Agostinho serviu de norte para o predestinarianismo posterior. As
doutrinas da predestinação que se originaram com Agostinho (tanto o
agostinianismo quanto as formas desviantes, pseudo-agostinianas,
incluindo aqui o calvinismo) é estabelecimento da eleição “ante
praevisa merita”, significando que a eleição divina é
logicamente anterior a qualquer mérito previsto. Sobre isso
Agostinho escreve que a graça “non
datur
secundum
aliqua
merita,
sed
efficit
omnia
bona
merita”
(De
praedestinatione sanctorum, cap. V),
ou seja, não
é dada segundo nenhum mérito, antes realiza todo bom mérito. Isso
significa que a eleição divina não depende de nada de bom que haja
na criatura; antes, tudo que há de bom seria resultado dessa graça.
Isso coloca a predestinação como uma escolha totalmente divina.
Essa
doutrina inclui dois aspectos importantes: o primeiro é que a
predestinação divina, de acordo com Agostinho (De prae. san.,
cap. 34), não se baseia em uma fé prevista, mas antes é
a própria causa da fé (tanto a fé inicial, da conversão, quanto o
aumento da fé). Ou seja, Deus não predestinou porque previu que em
um determinado eleito haveria fé, mas antes o predestinou para
que ele a tivesse. O segundo aspecto é que a predestinação,
ainda segundo Agostinho (De prae. san., caps. 36 e 37), também
não se baseia em uma uma santidade prevista, mas é a própria
causa da santidade. Toda santidade seria resultado da graça de Deus
nos eleitos. A predestinação divina seria antecedente lógico a
tudo que pudesse ser meritório na criatura; se a criatura tem
qualquer mérito, esse mérito foi lhe dado por Deus. Mesmo o desejo
inicial de se aproximar de Deus (initium fidei) seria causado por
Deus (De prae. san., cap. 39).
Qualquer
que seja a forma do predestinarianismo posterior, essa doutrina (ante
praevisa merita) permanece como seu centro interpretativo. No
calvinismo, a expressão dada pelo Sínodo de Dordt foi a da chamada
“Eleição Incondicional”, significando que a eleição divina
não depende de nada que haja na criatura. Há, de fato, um salto
entre dizer que a eleição não depende de nada bom na criatura e
dizer que não depende de nada na criatura. Entretanto, o próprio
Agostinho, muito antes de Calvino, já havia atribuído a um mistério
insondável a eleição divina.
Entretanto,
há grandes distinções entre o predestinarianismo calvinista e a
interpretação agostiniana da predestinação, e essa distinção
está no centro do que se chama “predestiarianismo”. Trata-se da
doutrina calvinista da “Dupla Predestinação”, segundo a qual
Deus, por um insondável decreto divino, haveria predestinado dentre
a humanidade um grupo para a salvação eterna e outro para a danação
eterna; assim sendo, a predestinação teria duas faces: eleição
(para a savalção) e reprovação (para condenação). Enquanto
Agostinho e o predestinarianismo estariam de acordo em afirmar que
Deus haveria eleito (segundo sua vontade), dentre a humanidade,
alguns para a salvação eterna, no agostinianismo Deus não elegeu
pessoa alguma para a perdição, antes esta seria um resultado dos
pecados individuais. Para Agostinho, toda a humanidade seria uma
massa condenada (massa damnata) de pecadores, da qual Deus
(por motivos não revelados) haveria retirado e purificado alguns
para si. Não haveria, da parte de Deus, escolha dos perdidos, como
afirmou depois o calvinismo. Essa é uma primeira e importante
distinção entre agostinianismo e calvinismo, pela qual não podemos
dizer que o calvinismo se origina em Agostinho.
Entretanto,
a dupla predestinação não começa com o Calvinismo. Na realidade,
pouco mais de um século após Agostinho, Isidoro de Sevilha (teólogo
e arcebispo, assim com o historiador e cientista) expressaria a
doutrina da predestinação nos seguintes termos: “Gemina
est praedestinatio siue electorum ad requiem, siue reproborum ad
mortem.” (Sententiarum
libri III, cap. vi), isto é, “Há uma predestinação
gêmea, tanto dos eleitos para o repouso, quanto dos réprobos para a
morte”. Entretanto, a forma resumida com a qual Isidoro coloca tais
palavras não nos permite dizer se de fato ele endossava a doutrina
da dupla predestinação como a entendeu o Calvinismo depois, ou se a
segunda face da predestinação (reprovação) seria “post
praevisa demerita” (tendo em conta os deméritos previstos). De
qualquer forma, a doutrina da predestinação dupla encontraria uma
forma clara em Godescalco de Orbais (veja
aqui), que cita Isidoro, além do reformador John
Wycliffe, antecessor de Lutero.
Uma
segunda distinção entre Agostinho e os calvinistas diz respeito à
perseverança. Enquanto ambos os lados concordariam em dizer que toda
perseverança procede da Graça de Deus, sem a qual é impossível
perseverar (ou mesmo desejar perseverar), há uma discordância sobre
a “intensidade” desse dom. Para Agostinho, o dom da perseverança
é dado continuamente por Deus, mas pode ser perdido, de modo que é
possível perder a salvação; persevera-se na medida em que a graça
é continuamente dada, de modo que o que recebe a graça não pode
senão perseverar, conforme Agostinho discute em seu De
dono
perseverantiae;
por outro lado, cairá (por seus próprios pecados) aquele a quem
Deus não conceder mais a graça. No calvinismo, entretanto, a
perseverança é dada a todos os eleitos, e de uma vez por todas, de
modo que todos eles perseveram até o final, sendo impossível um
salvo cair; aqueles que receberam a fé inicialmente irão
perseverar até o fim. Concordando ambos que aqueles a quem Deus
conceder a Graça irão perseverar, discordam sobre ser possível
cair efetivamente ou não. Um corolário disso é que para Agostinho
a perseverança é algo que devemos continuamente pedir a Deus (e de
fato o fazemos, quando oramos, por exemplo, “Não
nos deixeis cair em tentação”),
enquanto que no Calvinismo a perseverança está assegurada a todos
os verdadeiros
crentes.
Um
terceiro ponto diz respeito à própria concepção da salvação.
Calvinistas são monergistas, crendo que a salvação é um trabalho
realizado exclusivamente por Deus. Por sua vez, a doutrina
agostiniana é sinergista, crendo ser a salvação uma cooperação
entre Deus e o homem, em que Deus tem a direção, fazendo com que
o homem coopere.
G.
Montenegro