29 de fevereiro de 2012

Duas palavras para Tempo



Esse é um erro muito comum. Prega-se que há uma distinção entre as duas palavras para “tempo” na língua grega, de modo que uma significaria “o tempo de Deus” (καιρός, KAIROS), enquanto a outra, “o tempo do homem” (χρόνος, ChRONOS). Tal distinção não recebe qualquer respaldo da gramática grega ou das Escrituras.

Em realidade tais palavras não significam nada disso. A primeira delas, καιρός, significa o tempo discretamente considerado (um momento específico de tempo), enquanto a segunda delas, χρόνος, expressa o tempo continuamente considerado (uma quantidade de tempo). Sua relação com Deus ou os homens é tangencial, não parte do significado das palavras.

De fato, a Escritura usa a expressão καιρός em referência ao tempo da impiedade:

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências;”
(2 Timóteo 4:3)

ἔσται γὰρ καιρὸς ὅτε τῆς ὑγιαινούσης διδασκαλίας οὐκ ἀνέξονται ἀλλὰ κατὰ τὰς ἰδίας ἐπιθυμίας ἑαυτοῖς ἐπισωρεύσουσιν διδασκάλους κνηθόμενοι τὴν ἀκοήν

Por sua vez, utiliza também a expressão χρόνος em referência ao tempo determinado por Deus para a revelação de Jesus Cristo:

“O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós;”
(1 Pedro 1:20)

προεγνωσμένου μὲν πρὸ καταβολῆς κόσμου φανερωθέντος δὲ ἐπ’ ἐσχάτου τῶν χρόνων δι’ ὑμᾶς


G. Montenegro

Eventos que precedem a vinda de Jesus



Nos meios eclesiásticos dominados pelo pretribulacionismo, é comum que se observe uma certa paranoia que obsta presumir qualquer acontecimento antecedente à vinda de Jesus. O que me motivou a escrever essa pequena postagem foi uma pergunta sobre a possibilidade de usar uma profecia (não uma profecia contida nas Escrituras, mas uma anunciada por meio do dom de profecia) sobre um dado evento como fundamento para a crença de que Jesus só viria após esse evento. A resposta só pode ser que sim, se a profecia é verdadeira. Por isso decidi apresentar uma pequena lista, não exaustiva (e que não está na ordem escatológica), de acontecimentos que, do ponto de vista dos apóstolos e da Igreja Primitiva, deveriam anteceder a vinda de Jesus:

I. A vinda do Espírito Santo (João 16:7; Atos 1:5,8).
II. O testemunho dos apóstolos perante as nações, assim como a associada perseguição (Mateus 10:17,18).
III. A morte de Pedro (2 Pedro 1:14; João 21:18), Paulo (2 Timóteo 4:6), e de diversos outros apóstolos (João 16:2).
IV. Surgimento de falsos profetas na Igreja de Éfeso (Atos 20:29,30).
V. Perseguição de 10 dias sobre os crentes de Esmirna (Apocalipse 2:10).
VI. A destruição de Jerusalém (Lucas 21:23,24).
VII. A apostasia (2 Tessalonicenses 2:3; 1 Timóteo 4:1; 2 Timóteo 4:3,4).
VIII. Uma grande tribulação (θλῖψις μεγάλη), a maior de todas, que afeta a todos, inclusive os escolhidos (Mateus 24:21).
IX. A operação do erro e a manifestação e parusia do anticristo, o qual fará guerra aos santos (2 Tessalonicenses 2:1-12; Apocalipse 13:7).
X. Tudo o que antecede Lucas 21:36.
XI. A punição dos ímpios antecede a recompensa dos justos (Mateus 13:30; cf. 2 Tessalonicenses 1:6-10; Apocalipse 19:ff; 20:1-4), embora ambos os eventos sejam englobados pela vinda de Jesus.

Boa parte desses acontecimentos já se cumpriu; os tais não servem para provar que ainda há algo antecedendo a vinda de Jesus. Mas servem para provar que não há perigo em crer (com as Escrituras) que há eventos previstos antecedendo a Segunda Vinda. Ao mesmo tempo que os apóstolos proclamavam aos convertidos que Cristo retornaria em breve, também lhes informavam das profecias sobre suas mortes, ou sobre a destruição de Jerusalém. Esses textos demonstram que não há contradição entre crer em uma iminente volta de Cristo e crer que algo deve lhe anteceder.

A destruição de Jerusalém, por exemplo, ocorreu no ano 70 d.C., quando grande parte dos apóstolos já havia sofrido o martírio, incluindo Pedro e Paulo. Se essa destruição estava anunciada, os crentes da época poderiam ter certeza que Jesus não retornaria antes dessa destruição, e isso não lhes servia de empecilho na vida espiritual, porque amavam ao Senhor mais que aos seus pecados. O argumento (por vezes suscitado) de que a crença em uma vinda não iminente de Cristo promoveria o pecado só pode ser sustentado consistentemente pelo mau servo (Lucas 12:45,46), que não ama de fato ao seu Senhor, mas apenas a si mesmo.

Mas nem todos os acontecimentos listados já se cumpriram. A manifestação do Anticristo, por exemplo, ainda não se deu, a qual necessariamente precede a vinda de Cristo (a qual será sua destruição).


G. Montenegro

11 de fevereiro de 2012

O mito do sabatariano sobre o Gênesis


Afirmam os sabatarianos, como suporte para sua crença, que o Sábado houvera sido estabelecido por Deus ainda no princípio, e citam Gênesis 2:1-3 como argumento, texto bíblico que diz que Deus repousou ao sétimo dia após ter completado a criação.

Já de começo o argumento peca por uma falácia: deduzir de um fato (Deus repousou ao sétimo dia) um mandamento (agora todos devem repousar ao sétimo dia). Essa falácia se mostra mais evidente quando percebemos que a Bíblia não mostra uma pessoa sequer guardando o Sábado antes da saída do povo de Israel do Egito. Dizer que isso está implícito ou concluído a partir do que diz o referido texto de Gênesis é argumentar em círculos.

Mas não se trata simplesmente de uma falha formal do argumento. A Bíblia diz positivamente que o Sábado foi dado após a saída do Egito: “Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado.” (Deuteronômio 5:15)

Portanto, o repouso sabático é uma resposta à escravidão sob jugo egípcio; trata-se de uma rememoração coletiva disso (“te lembrarás”, falando a todo o povo). Por isso a Bíblia coloca o Sábado como uma aliança entre o Deus libertador e o povo de Israel liberto (Êxodo 31:12-18).

Os sabatarianos confundem o motivo da escolha do sétimo dia como dia de repouso (ligado à Criação) com o motivo iniciador do mandamento (a saída do Egito).

Esse mito na realidade é reforçado pelo fato de que hoje damos ao sétimo dia da semana o nome de “Sábado” (mesmo os que não guardam o sábado). Mas “Sábado” originalmente não é o nome do dia da semana, mas o repouso especial feito nesse dia conforme se prescreve na Lei. A transferência se dá por metonímia.

G. Montenegro

31 de janeiro de 2012

Agostinho e o Calvinismo


Diversos calvinistas alegam que o calvinismo começou com Agostinho. Pretendo aqui delinear as distinções entre o Calvinismo e o Agostinianismo, esclarecendo que a concepção calvinista de predestinação não começa com Calvino, mas é muitos séculos anterior.
Na realidade, é incorreto chamar a concepção de “Calvinismo” a crença na Dupla Predestinação. A expressão mais correta seria “Predestinarianismo”, da qual o calvinismo seria apenas uma expressão protestante, havendo também formas medievais de predestinarianismo anteriores ao protestantismo, muitas delas condenadas pelo clero católico medieval.
De fato, podemos dizer que a concepção de predestinação delineada por Agostinho serviu de norte para o predestinarianismo posterior. As doutrinas da predestinação que se originaram com Agostinho (tanto o agostinianismo quanto as formas desviantes, pseudo-agostinianas, incluindo aqui o calvinismo) é estabelecimento da eleição “ante praevisa merita”, significando que a eleição divina é logicamente anterior a qualquer mérito previsto. Sobre isso Agostinho escreve que a graça non datur secundum aliqua merita, sed efficit omnia bona merita” (De praedestinatione sanctorum, cap. V), ou seja, não é dada segundo nenhum mérito, antes realiza todo bom mérito. Isso significa que a eleição divina não depende de nada de bom que haja na criatura; antes, tudo que há de bom seria resultado dessa graça. Isso coloca a predestinação como uma escolha totalmente divina.
Essa doutrina inclui dois aspectos importantes: o primeiro é que a predestinação divina, de acordo com Agostinho (De prae. san., cap. 34), não se baseia em uma fé prevista, mas antes é a própria causa da fé (tanto a fé inicial, da conversão, quanto o aumento da fé). Ou seja, Deus não predestinou porque previu que em um determinado eleito haveria fé, mas antes o predestinou para que ele a tivesse. O segundo aspecto é que a predestinação, ainda segundo Agostinho (De prae. san., caps. 36 e 37), também não se baseia em uma uma santidade prevista, mas é a própria causa da santidade. Toda santidade seria resultado da graça de Deus nos eleitos. A predestinação divina seria antecedente lógico a tudo que pudesse ser meritório na criatura; se a criatura tem qualquer mérito, esse mérito foi lhe dado por Deus. Mesmo o desejo inicial de se aproximar de Deus (initium fidei) seria causado por Deus (De prae. san., cap. 39).
Qualquer que seja a forma do predestinarianismo posterior, essa doutrina (ante praevisa merita) permanece como seu centro interpretativo. No calvinismo, a expressão dada pelo Sínodo de Dordt foi a da chamada “Eleição Incondicional”, significando que a eleição divina não depende de nada que haja na criatura. Há, de fato, um salto entre dizer que a eleição não depende de nada bom na criatura e dizer que não depende de nada na criatura. Entretanto, o próprio Agostinho, muito antes de Calvino, já havia atribuído a um mistério insondável a eleição divina.
Entretanto, há grandes distinções entre o predestinarianismo calvinista e a interpretação agostiniana da predestinação, e essa distinção está no centro do que se chama “predestiarianismo”. Trata-se da doutrina calvinista da “Dupla Predestinação”, segundo a qual Deus, por um insondável decreto divino, haveria predestinado dentre a humanidade um grupo para a salvação eterna e outro para a danação eterna; assim sendo, a predestinação teria duas faces: eleição (para a savalção) e reprovação (para condenação). Enquanto Agostinho e o predestinarianismo estariam de acordo em afirmar que Deus haveria eleito (segundo sua vontade), dentre a humanidade, alguns para a salvação eterna, no agostinianismo Deus não elegeu pessoa alguma para a perdição, antes esta seria um resultado dos pecados individuais. Para Agostinho, toda a humanidade seria uma massa condenada (massa damnata) de pecadores, da qual Deus (por motivos não revelados) haveria retirado e purificado alguns para si. Não haveria, da parte de Deus, escolha dos perdidos, como afirmou depois o calvinismo. Essa é uma primeira e importante distinção entre agostinianismo e calvinismo, pela qual não podemos dizer que o calvinismo se origina em Agostinho.
Entretanto, a dupla predestinação não começa com o Calvinismo. Na realidade, pouco mais de um século após Agostinho, Isidoro de Sevilha (teólogo e arcebispo, assim com o historiador e cientista) expressaria a doutrina da predestinação nos seguintes termos: Gemina est praedestinatio siue electorum ad requiem, siue reproborum ad mortem.” (Sententiarum libri III, cap. vi), isto é, “Há uma predestinação gêmea, tanto dos eleitos para o repouso, quanto dos réprobos para a morte”. Entretanto, a forma resumida com a qual Isidoro coloca tais palavras não nos permite dizer se de fato ele endossava a doutrina da dupla predestinação como a entendeu o Calvinismo depois, ou se a segunda face da predestinação (reprovação) seria “post praevisa demerita” (tendo em conta os deméritos previstos). De qualquer forma, a doutrina da predestinação dupla encontraria uma forma clara em Godescalco de Orbais (veja aqui), que cita Isidoro, além do reformador John Wycliffe, antecessor de Lutero.
Uma segunda distinção entre Agostinho e os calvinistas diz respeito à perseverança. Enquanto ambos os lados concordariam em dizer que toda perseverança procede da Graça de Deus, sem a qual é impossível perseverar (ou mesmo desejar perseverar), há uma discordância sobre a “intensidade” desse dom. Para Agostinho, o dom da perseverança é dado continuamente por Deus, mas pode ser perdido, de modo que é possível perder a salvação; persevera-se na medida em que a graça é continuamente dada, de modo que o que recebe a graça não pode senão perseverar, conforme Agostinho discute em seu De dono perseverantiae; por outro lado, cairá (por seus próprios pecados) aquele a quem Deus não conceder mais a graça. No calvinismo, entretanto, a perseverança é dada a todos os eleitos, e de uma vez por todas, de modo que todos eles perseveram até o final, sendo impossível um salvo cair; aqueles que receberam a fé inicialmente irão perseverar até o fim. Concordando ambos que aqueles a quem Deus conceder a Graça irão perseverar, discordam sobre ser possível cair efetivamente ou não. Um corolário disso é que para Agostinho a perseverança é algo que devemos continuamente pedir a Deus (e de fato o fazemos, quando oramos, por exemplo, “Não nos deixeis cair em tentação”), enquanto que no Calvinismo a perseverança está assegurada a todos os verdadeiros crentes.
Um terceiro ponto diz respeito à própria concepção da salvação. Calvinistas são monergistas, crendo que a salvação é um trabalho realizado exclusivamente por Deus. Por sua vez, a doutrina agostiniana é sinergista, crendo ser a salvação uma cooperação entre Deus e o homem, em que Deus tem a direção, fazendo com que o homem coopere.


G. Montenegro

21 de janeiro de 2012

Sobre a Ira


Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.”
(Efésios 4:26)

Já várias vezes vi usarem esse texto para justificar o irar-se. Falta apenas continuar a leitura do capítulo:

Toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós,”
(Efésios 4:31)

Igualmente Gálatas 5:19-21; Colossenses 3:8.



G. Montenegro